O balanço da campanha de Portugal neste Mundial far-se-á oportunamente, mas, terminado o último jogo e concluída a participação, só pode ser com um sabor muito amargo e uma enorme frustração que se olha para este triste adeus português.
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Grande parte dessa desilusão advém do facto de termos chegado ao Brasil com expectativas altas e a certeza de que teríamos condições para ir longe. Mas não é só por isso. É, sobretudo, pela circunstância de a Seleção ter desperdiçado as oportunidades que as contingências da prova e dos jogos lhe proporcionaram. Primeiro, quando bastava vencer os dois jogos com Estados Unidos e Gana para seguir em frente, a Seleção nem sequer aguentou a vantagem que teve. Depois, porque, constatou-se ontem, o milagre de fazer 4 ou 5 golos ao Gana era possível.
Perdidas de Ronaldo
É, portanto, neste último episódio que nos temos de concentrar nesta crónica. E para justificar que o milagre era possível basta contabilizar o número de oportunidades que Cristiano Ronaldo teve e que em circunstâncias normais não falharia. Além da bola à trave e do golo que marcou, o capitão da Seleção dispôs de mais três flagrantes ocasiões que colocariam Portugal à beira do impensável apuramento.
Seria contudo uma crueldade apontar o dedo a Cristiano Ronaldo e acusá-lo de ser ele, afinal, o responsável por não atingirmos os oitavos-de-final. Não é disso que se trata. Mas quando se olha para esta Seleção, a bem verdade, só se vê um homem capaz de fazer golos. E quando estamos na presença do melhor do Mundo, para quem o golo é um companheiro de vida, torna-se mais fácil acreditar que o milagre teria sido possível.
Erro de Moutinho
Deve ficar também claro que Portugal cometeu um erro que lhe foi fatal num momento em que o jogo iria correr a seu favor. E esse erro tem um responsável: João Moutinho. O habitual motor da Seleção, que até esteve muito bem na 1.ª parte, apagou aquela luz que se via no fundo do túnel. Um mau passe a meio campo deixou a bola à mercê do contra-ataque ganês, que foi tão oportuno quanto cruel para o médio português. A defesa portuguesa foi apanhada em desequilíbrio, Asamoah cruzou e Gyan ganhou a frente a Veloso e fez o golo.
Um minuto depois de os portugueses terem festejado nas bancadas o golo da Alemanha, a Seleção deitava tudo a perder, tendo, então, dificuldade em voltar ao jogo. Ainda assim, bastava ter um Ronaldo certeiro para o 2-1 se ter transformado num 4-1, já no tempo extra.
Sem riscos
Sem ter André Almeida, Paulo Bento manteve a aposta em Veloso na esquerda e lançou Amorim para o meio-campo no lugar de Meireles. Manteve assim a profundidade ofensiva no corredor esquerdo – foi através de um centro de Veloso que Portugal chegou ao 1-0 –, ao mesmo tempo que se protegeu dos extremos ganeses (primeiro Atsu e depois Ayew).
Como se previa, não começou por ser um jogo de riscos. No início, a bola andou muito dividida no meio-campo, percebendo-se, contudo, que mais cedo ou mais tarde a balança penderia para o lado português. João Moutinho esteve mais enérgico do que nos jogos anteriores e isso estimulou a equipa.
Foi, aliás, graças a uma recuperação do número 8 que Portugal criou a primeira grande oportunidade de golo. A bola sobrou para William, que abriu à direita a Cristiano Ronaldo. Este fez um centro-remate e o esférico beijou a trave.
A Seleção começou a ganhar aos pontos o combate do meio-campo. Ao dinamismo de Moutinho juntou-se a serenidade e o passe seguro de William (muitas vezes a alargar o jogo ofensivo de Portugal) e o rigor e inteligência de Ruben Amorim.
Com Bruno Alves implacável na marcação a Gyan e Pepe impecável na cobertura do espaço que lhe sobrava, o único alerta vinha dos flancos, onde João Pereira e Veloso tinham mais problemas para controlar os seus adversários diretos.
Portugal ficou melhor no jogo, assumiu mais a iniciativa e começou até por correr riscos moderados. Depois de um livre (12’), Ronaldo teve a grande e perfeita chance de marcar. O centro bem medido de João Pereira deixou o capitão da Seleção em posição privilegiada para o golo. A cabeçada saiu certa mas direitinha ao guarda-redes. Foi pena.
O momento nem deu para digerir, uma vez que segundos depois Beto fez grande defesa a remate de Gyan. Essa ameaça abalou Portugal, que tornou a sua ação precipitada nalguns momentos. Perdeu segurança e ofereceu a bola em situações em que corria o risco de ser apanhado em desequilíbrio.
O golo surgiu e a equipa voltou a ficar claramente por cima. Foi talvez o melhor período. Amorim ganhou confiança para subir no terreno e a Seleção soube trabalhar muito bem a bola nas zonas próximas da área do Gana para criar finalizações.
Descontrolo
Um novo sinal de perigo de Gyan (50’), uma vez mais “facilitado” neste caso por Nani, que não apertou a marcação e “convidou” ao remate do ganês, sobressaltou a Seleção no arranque da 2.ª parte, mas nada fazia prever o descontrolo que se seguiu.
O tal erro de Moutinho abriu caminho ao empate e tornou-se num golpe muito duro para a equipa.
De repente, quando Portugal se aproximava do milagre, dava um tiro no pé. Pior, talvez mesmo no coração.
O Gana galvanizou-se e Portugal entrou em derrapagem. O meio-campo ficou perdido e Waris teve na cabeça a hipótese de dar vantagem aos africanos.Um bola perdida por Moutinho e... lance de golo iminente.
Bento mexeu e arriscou
Varela foi para o terreno de batalha, Amorim baixou para defesa-direito e Moutinho jogou mais próximo de William. Pouco depois entrou Vieirinha para o lugar de um desastrado Éder, com quem foi difícil tabelar ou confiar num controlo de bola que permitisse a chegada de mais jogadores.
Último fôlego
Perante um adversário que nunca desmontou a sua estrutura e quase nada arriscou, Portugal reagiu bem aos impulsos de Vieirinha, Ronaldo e Nani e ganhou um último fôlego que lhe deu novo protagonismo no jogo.
E por incrível que pareça, ainda teria sido possível, se não conseguir o milagre (convenhamos que naquela altura já nem a fé nos alimentaria essa ilusão), pelo menos ficar à beira dele.
O jogo ficou completamente partido e os jogadores já quase não podiam com uma gata pelo rabo. Portugal conseguiu manter maior equilíbrio e capacidade para ser contundente no último terço. Aos 83’, Ronaldo teve chance de ouro a passe de Veloso, depois foi Varela e já no tempo extra Ronaldo apareceu por duas vezes diante do guarda-redes e perdeu o golo. Assim, nada a fazer.
Nota técnica
Paulo Bento (3)
Protegeu o corredor esquerdo com Amorim e deu equilíbrio à equipa com William. O plano de jogo era seguro e confiável. Com o empate, correu os riscos que pôde.
Akwasi Appiah (2)
Adormeceu com uma mala cheia de dinheiro e acordou com problemas (Boateng pôs-se fora). Conservador, não teve solução à altura de Muntari e quase nada arriscou.
Árbitro: Nawaf Shukralla (nota 1)
Penálti sobre Cristiano por marcar
Sem categoria para arbitrar um jogo deste nível no Mundial – infelizmente não é o único. Exibiu uma falsa confiança que se traduziu em autoridade mal aplicada. Foi permissivo para os ganeses, guardou muitos cartões (inclusivamente um vermelho a JordanAyew por cotovelada em William) e cometeu um erro grave ao não assinalar grande penalidade por carga de Boye a Cristiano Ronaldo. O português ganhou a frente e a posição e foi empurrado pelas costas. Aos 65’, considerou uma carga de Ronaldo sobre Dauda quando se tratou de um choque fora da área de proteção do guarda-redes e que deixaria Nani em situação de golo.