"Rugir mais alto que os leões do Atlas"... ou de como travar Marrocos nos quartos de final

• Foto: EPA

A seleção portuguesa avançou para os quartos de final da prova, onde este sábado (15h) vai defrontar a seleção de Marrocos. Com o sonho de chegar à final, Portugal terá pela frente um adversário que também defrontou no último Campeonato do Mundo (na Rússia, o jogo foi na fase de grupos) e que, apesar da nossa seleção ter ganho a partida, foi o jogo mais difícil (dito pelo próprio selecionador, Fernando Santos) durante essa prova. 

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O selecionador Walid Regragui chegou à seleção a 31 de agosto deste ano e os magrebinos realizaram sete jogos desde essa data: 3 particulares e 4 no Campeonato do Mundo. No total, sofreram apenas 1(!) golo, sendo que este foi um auto-golo no jogo frente ao Canadá na fase de grupos. Antes, na fase de apuramento para este Mundial, em 8 jogos apenas consentiram 3 golos. A seleção marroquina tem atuado num bloco médio-baixo, que não permite muitas oportunidades ao adversário para concretizar, mas também não se caracteriza por ser uma equipa que cria e finaliza muitas situações de golo (terminaram 0-0 em dois dos quatro jogos que realizaram até ao momento).

"Rugir mais alto que os leões do Atlas"... ou de como travar Marrocos nos quartos de final

No seu mais habitual 4x3x3, no primeiro momento de organização ofensiva, a formação de Marrocos tem uma maior tendência para jogar a partir de trás, adotando um estilo de passe mais curto, iniciando o seu processo através dos defesas ou médio defensivo. A utilização de um jogo mais direto é outra solução apresentada, sobretudo em pontapés de baliza realizados por Bounou, mas tem uma taxa de sucesso mais baixa, onde os 3 elementos mais adiantados da equipa não têm uma boa percentagem de duelos aéreos ganhos (como se poderá constatar mais à frente) e que a seleção portuguesa poderá aproveitar. Ainda assim, e fruto da maior propensão para jogar partindo de trás, aliado ao facto da equipa jogar num bloco médio-baixo, a maioria dos passes efetuados pela seleção marroquina são efetuados ainda dentro do seu meio-campo defensivo.

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Com a saída de bola mais apoiada a ser um processo dominante, a seleção marroquina dispõe da qualidade do seu médio mais defensivo, Sofyan Amrabat, que baixa no terreno para receber a bola numa zona entre os centrais, quase como que alterando o sistema da equipa para um 3x4x3 durante este momento. É um dos principais responsáveis nesta primeira fase do jogo ofensivo, havendo uma clara propensão de procurar o corredor central. Após esta fase, é possível verificar que, com apoio à imagem da tendência de passe por zona, há uma clara procura do corredor direito em maior número ocasiões (identificada com uma cor mais forte), onde se encontram os dois jogadores mais conhecidos desta seleção e, por conseguinte, com maior qualidade: Achraf Hakimi (jogador do PSG) e Hakim Ziyech (jogador do Chelsea). Sem desprimor à qualidade de Noussair Mazraoui e Sofiane Boufal, jogadores que atuam no corredor esquerdo, Portugal deve ter maior cuidado em fechar os espaços do lado direito magrebe e condicionar a saída por esse corredor, pois conseguir anular Hakimi e Ziyech será meio caminho andado para o sucesso luso.

Relativamente à interpretação da imagem que nos indica a tendência de passe por zona, esta apresenta-nos a zona no qual originaram um maior número de passes (quanto maior o número de passes, mais intensa/vermelha se torna a cor dessa área). A direção das setas reflete a direção média dos passes a partir de cada zona, assim como o tamanho das setas ilustra a distância média do passe.

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"Rugir mais alto que os leões do Atlas"... ou de como travar Marrocos nos quartos de final

Adicionalmente, e com base nos dados estatísticos de receções no segundo terço do terreno, é exequível afirmar novamente a maior contribuição do corredor direito no processo ofensivo, entrando também aqui nestas contas (para além dos jogadores já mencionados anteriormente) o médio centro que atua mais do lado direito - Azzedine Ounahi - e que foi bastante elogiado por Luís Enrique no final do jogo dos oitavos de final. Entrando no último terço do terreno, vemos igualmente uma maior participação de Sofiane Boufal, jogador que acaba por dar maior profundidade à equipa, como vimos na primeira imagem do artigo.

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Chegando à fase de finalização, e tal como já dito anteriormente, a seleção marroquina tem dificuldades em criar oportunidades de golo, daí os baixos valores apresentados a nível de xG acumulado (de forma surpreendente, o jogador com maior xG é… um defesa). Portugal deve, no entanto, ter algum cuidado com as bolas paradas defensivas, onde Romain Saïss é forte no jogo aéreo. A métrica xG (Expected Goals), avalia o número de golos esperados, considerando apenas as jogadas que culminam em remate.

É importante igualmente realçar que a métrica xT (neste caso apenas através do passe) engloba todas as situações de ataque sem estarem obrigatoriamente dependentes de uma finalização, pelo que nos permite entender de forma mais precisa se um determinado jogador foi ou não uma ameaça para o seu oponente através do passe. Neste campo, podemos ver claramente a influência de Hakim Ziyech, destacado dos demais, e o perigo que daí advém. Será fundamental condicionar as ações deste jogador.

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A nível do processo defensivo, e como já foi dito anteriormente, os magrebinos não permitem muitos espaços ao adversário para entrar dentro do seu bloco. No duelo frente a nuestros hermanos, constatou-se que nenhum jogador espanhol efetuou um passe progressivo na zona central que se encontra à frente da área adversária. Em concordância, esta é uma zona que se carateriza por haver maior número de recuperações da posse de bola por parte da seleção marroquina. Neste aspeto, entra a preponderância de Sofyan Amrabat, que se destaca como um dos jogadores com melhor média de desarmes por jogo, sendo dos jogadores com maior número de recuperações de bola (9) neste Mundial até ao momento. A mobilidade de jogadores como Bruno Fernandes, João Félix e Bernardo Silva será fundamental para desmantelar esta teia que a seleção marroquina monta dentro do seu meio-campo defensivo.

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"Rugir mais alto que os leões do Atlas"... ou de como travar Marrocos nos quartos de final

A força aérea marroquina também é algo a ter em conta. Se por um lado os três jogadores mais ofensivos da equipa não se caraterizam por serem fortes no jogo aéreo (En-Nesyri, apesar de ser muitas vezes procurado neste aspeto, também tem uma baixa taxa de sucesso), por outro lado, os elementos mais recuados da equipa como Achraf Hakimi, Romain Saïss e Noussair Mazraoui apresentam uma alta taxa de aproveitamento neste campo. Portugal deve evitar recorrer a um tipo de jogo mais direto, pois será difícil atingir o seu objetivo com base no poderio aéreo apresentado pelos jogadores marroquinos mais recuados, acrescentando a isso o facto de Marrocos apresentar um forte aglomerado de jogadores nesta zona do terreno quando estão em processo defensivo.

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Este trabalho foi realizado por um grupo de alunos do Master em Big Data aplicado ao futebol, do Sports Data Campus, no âmbito de uma parceira com o Record.

Autores: João RoseiroJúnior FernandesLuísa NovaisMatthias Galbiati e Ricardo Marques

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