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Itziar González de Arriba veio esta quinta-feira fazer denúncias graves a propósito da sua passagem pelo Real Madrid. A antiga nutricionista do clube, acusada de roubar um lote inteiro de suplementos, concedeu hoje uma longa entrevista ao jornal espanhol 'Marca', onde conta toda a sua versão dos acontecimentos.
Segundo a especialista em Nutrição, os elementos da equipa médica do clube "criaram um ambiente hostil desde o primeiro minuto" em que chegou ao Real Madrid, sublinhando que só estaria no clube por ser "um capricho do presidente" Florentino Pérez.
"Os serviços médicos criaram um ambiente hostil desde o primeiro minuto. No primeiro dia, disseram-me que estava ali por ser um capricho do presidente, mas que eles sabiam como lidar com ele e que ele fazia tudo o que eles queriam, e que iriam manipulá-lo para o convencer de que eu estava louca para que ele me despedisse. Não me cumprimentavam, não falavam comigo. Nunca se reuniram comigo, apesar de eu o pedir repetidamente; não respondiam aos meus e-mails nem às mensagens", começou por revelar Itziar Arriba, continuando: "Só falavam comigo às vezes, quando se cruzavam comigo nos corredores, para me dizerem que eu fazia tudo mal e que o presidente dizia para eu não falar com ninguém, para não sair do cubículo lúgubre onde me tinham instalado, para não falar com os jogadores, para não fazer nada, que as pessoas não me queriam ali e que os jogadores tinham nojo de mim. Na primeira semana, acusaram-me de roubar um lote inteiro de suplementos. A partir daí, comuniquei sempre por escrito para que não voltasse a acontecer."
Apesar de tudo o que os elementos da equipa médica lhe diziam, Itziar Arriba recebia indicações totalmente diferentes por parte de Florentino Pérez. "Os médicos e um fisioterapeuta davam-me ordens constantemente em nome do presidente. Basicamente, para que eu me escondesse e não fizesse nada, mas o presidente disse-me pessoalmente o que queria que eu fizesse, o que era totalmente diferente das ordens que me davam supostamente 'em nome do presidente'. Por isso, fiz exatamente o que o presidente me pedia. Queria que eu implementasse o meu método ali e que me encarregasse de decidir tanto o buffet da residência como a dieta nas viagens e hotéis, os suplementos da equipa, e que eu fizesse uma dieta personalizada para todos os jogadores que quisessem, o que poderia ser alargado às restantes equipas", sublinha.
Contudo, Itziar Arriba alega que todo o seu trabalho foi sendo sabotado por outros funcionários do clube. "Colocaram-me todo o tipo de problemas: no buffet disponibilizavam os alimentos que eu desaconselhava; a empregada ria-se de mim e dizia continuamente aos jogadores para não me ligarem, que eu não percebia nada; o cozinheiro não punha o que eu pedia e punha o que lhe apetecia, como pastelaria pré-jogo; o gerente não comprava o que eu aconselhava; o rapaz que tinha de preparar os suplementos disponibilizava suplementos diferentes dos que eu indicava; os médicos e fisioterapeutas diziam aos jogadores para não seguirem as minhas indicações. (...) Riam-se constantemente de mim, gozavam nos grupos de WhatsApp, diziam aos jogadores para tomarem coisas diferentes do que eu digo...", enumera.
Mesmo com todos estes problemas, Itziar Arriba alega ter tido sempre um bom relacionamento com os jogadores. "São maravilhosos. Não podia falar muito com eles porque os Serviços Médicos colocavam todo o tipo de impedimentos, e eram eles [os jogadores] que pediam que eu viajasse com eles para poderem falar comigo, perante a impossibilidade de o fazerem em Valdebebas. No geral, parecem-me uns rapazes fantásticos, respeitadores comigo e com o meu trabalho, curiosos e com vontade de aprender e de saber o porquê das coisas. Eles viam o que me estavam a fazer e tentavam fazer com que me sentisse melhor. Tenho muita pena deles porque são vítimas numa prisão de ouro e não podem fazer nada", sublinha.
O jogo contra a Atalanta, disputado a 10 de dezembro de 2024, que o Real Madrid venceu em Bérgamo por 3-2 foi o início do fim. "O jogo contra a Atalanta é o primeiro em que se incorporam os suplementos e a dieta que recomendo. Pode ser por isso ou pura coincidência, mas eles sentiram-se muito bem fisicamente. Houve comentários muito positivos no balneário e os Serviços Médicos não suportaram isso. O médico e a empregada do buffet fizeram uma acusação falsa sobre mim à direção; eu tinha um álibi e provei que era falso. Depois disso, voltaram a fazer outra acusação falsa, que eu voltei a provar ser mentira. Perante esta situação hostil, a direção manda-me para casa e não me deixa viajar para o jogo contra o Espanyol. (...) Continuei com o meu trabalho como podia, sabendo tudo o que estavam a fazer. Tinha medo, ansiedade, não conseguia dormir, chorava o tempo todo, foi então que pedi ajuda à direção e disseram-me para aguentar, que queriam que eu continuasse a fazer o meu trabalho", refere.
E continuou: "Contra o Girona, vejo o presidente e ele vem ter comigo muito zangado por causa de umas mentiras que lhe contaram sobre mim. Para mim, tudo acaba ali. Todo o sofrimento para ajudar os rapazes e para que ele estivesse orgulhoso, e ele acredita nas mentiras que lhe contam. Volto a pedir para sair e não me deixam, e dizem-me que vão contar a verdade ao presidente. É a única coisa que eu quero. Impedem-me de ter contacto com os jogadores, não me deixam ir aos jogos. (...) Depois convocam-me para uma reunião com um patrocinador e ele diz-me que é amigo dos médicos, que já conseguiram que o presidente me corresse dali, mas que vão tentar humilhar-me durante o tempo que me resta."
Na sequência de tudo isto, Itziar Arriba foi impedida de entrar nas instalações do clube. "A direção impediu-me de entrar em Valdebebas, segundo eles, pela minha segurança física. Disseram-me que iam iniciar uma investigação interna e para eu não me preocupar e estar tranquila, que os vão despedir a todos porque o que fizeram é intolerável. Volto a pedir para sair e dizem-me que não. E dizem-me para continuar a fazer o meu trabalho a partir de casa. Digo-lhes que não posso inventar diretrizes sem saber absolutamente nada dos jogadores, que é má prática profissional, e dizem-me que tenho a obrigação de o fazer. Trabalho com muito medo, sem descanso e muito frustrada, porque sinto que o que faço não serve para nada, mas continuo a fazê-lo todos os dias sem descanso até 4 de agosto", assegura.
Mas era praticamente impossível adiar o inadiável. "O diretor de Recursos Humanos ligou-me para me agradecer o trabalho e para me dizer que não conseguiram vencer os médicos e que o Serviço de Nutrição fica anulado. Disse-me que fiz um trabalho excecional, que fiz tudo bem e que vão pagar-me todo o contrato que faltava. Eu disse-lhe que só queria que o presidente e os jogadores soubessem a verdade, e que exigia que desmentissem todas as mentiras que disseram sobre mim no clube. De forma muito cortês, ele disse-me que não seria possível", conta.
Na sequência do despedimento, Itziar Arriba decide avançar com uma denúncia, apesar de ter sido aconselhada a não o fazer. "Apresento uma denúncia apesar de me terem aconselhado a não o fazer e de me dizerem que não tenho qualquer possibilidade de ganhar e que, além disso, me vão arruinar a vida. Toda a gente me diz que o Real Madrid tem muito poder e que vão divulgar informação deturpada contra mim, e que iam prejudicar-me fisicamente e atacar o meu nome e reputação. Mas ainda tenho pesadelos todas as noites e quero fechar este capítulo para sempre. Sinto que, enquanto não o contar, não o conseguirei encerrar."
Por Sérgio Magalhães