_
"Não pareço o típico treinador, com o fato, a gravata, tudo direitinho. No meu trabalho, preciso mais de estar confortável do que ser um top model. Se estiver confortável, tomo melhores decisões, mexo-me melhor. Se estiver de sapatos e com o fato bem apertado, tenho dificuldades. Se puder escolher, prefiro vestir algo confortável durante os jogos. Se é para ficar direitinho como um manequim, não."
A frase pertence a Leonardo Jardim e foi dita numa longa entrevista que é publicada esta terça-feira no revista francesa 'France Football', onde o treinador português explica os segredos do seu sucesso, que se prolonga ao serviço do Monaco, que levou a campeão francês. "Gosto que digam que sou o Especial Normal", resumiu, na última resposta.
O técnico reconhece que a vitória no último campeonato "tem o valor de quatro ou cinco títulos do PSG". "É como na Fórmula 1. (...) É a máquina que faz ganhar, não apenas o piloto. A máquina no futebol são os jogadores. Ganhar com os melhores no Real ou no Barcelona é mais fácil", admite, assumindo ainda acreditar que o método Jardim poderia funcionar num grande clube europeu.
"Para mim, o meu método é o melhor que tenho. Trabalhei muito para cá chegar e nunca trabalhei de outra forma. O teu método é a tua personalidade, é a tua forma de pensar. Tens de ter sentir bem dentro do que fazes. Muitas vezes, os treinadores falam comigo e dizem que gostam do meu método. OK, podes gostar, mas se a tua personalidade não é a mesma, esse método não funcionará."
Reconhecendo que sente dificuldades em línguas estrangeiras, Jardim descreve a relação "próxima e distante" com os jogadores. "Enquanto treinador, devo ficar um pouco mais distante, mas devo também estar próximo porque temos objetivos em comum. Não sou um treinador que fica no escritório. Todos os dias tenho duas, três reuniões individuais com jogadores. Mesmo que seja só para dizer umas graçolas e falar de outras coisas que não futebol", revela.
Por isso, não dá muita importância "se um jogador se atrasa um minuto ou se tem botas que não são da msma cor". "Dou importância às regras da equipa dentro de campo e ao efeito delas. Os jogadores não podem descurá-las. Sou muito rigoroso", acrescenta o treinador de 43 anos.
As qualidades de Jardim como descobridor e potenciador de talentos também foram motivo de conversa. "Tenho um pouco de formação sobre cada um dos domínios que posso transmitir. Talvez seja mais fácil falar de remates, de dribles... mas não é disso que se trata", lembrou, dando exemplos de jogadores que lançou no passado, entre eles... William Carvalho. "Veio do Cercle Brugge, está na Seleção Nacional..."
Depois, o português explicou que "a técnica é algo difícil de adquirir". "Podes trabalhar muito que aumenta dois ou três por cento, no máximo, a velocidade uns 10 ou 15 por cento. É preciso trabalhar outras coisas. Podes aumentar em 80 por cento [a qualidade] no posicionamento, no comportamento, nas tomadas de decisão. É nesses domínios que trabalho mais para melhorar os jogadores", referiu.