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Das falhas na emergência ao quarto que continua intocado: o duro relato de pais de jovem que morreu em campo

Adam Ankers morreu aos 17 anos
• Foto: X/@AlastairAnkers

Adam Ankers foi enterrado com a camisola do Arsenal, o seu clube do coração. Até hoje, os pais do jovem acompanham os jogos dos gunners, imaginando a felicidade do filho com os resultados recentes do líder da Premier League. Nem sempre é fácil, contudo, admitia recentemente Alastair Ankers, o pai de Adam, ao The Athletic: “Quase todos os jogos, parece que há algum rapaz de 16 ou 17 anos a ter o seu momento. (...) De certeza que sempre foi assim, mas é muito duro agora, faz-me pensar no Adam”.

Adam tinha precisamente 17 anos quando, em 2024, caiu inanimado durante um jogo das camadas jovens do Wycombe Wanderers, clube da terceira divisão inglesa. Um jovem ativo e altamente dedicado ao desporto, padecia de um problema congénito não diagnosticado e que se veio a revelar fatal. 

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Fatal – mas talvez evitável. Pelo menos é essa a convicção dos pais, apoiada pelas conclusões recentes do inquérito à morte, recentemente terminado, que expôs falhas graves na resposta das equipas de socorro e na preparação para lidar com casos de paragem cardíaca súbita nos escalões de formação. E já levou profissionais de saúde a apelar à Football Association, que rege o futebol inglês, a tomar medidas para evitar casos futuros.

“Se 12 adolescentes morressem num acidente de autocarro todas as semanas, ia gerar um tumultuo”, afirmou o pai do jovem, citando números de um estudo recente que dá conta de que uma dúzia de pessoas entre 14 e os 34 anos morre semanalmente de ataque cardíaco súbito no Reino Unido. “Mas como acontece aqui e ali, em casos espalhados pelo país e que não são noticiados, ninguém pensa nisso”, acrescentou.

Além de consciencialização, o problema, consideram, é também um de formação para os riscos. De acordo com relatos do trágico incidente, o jovem Adam terá caído inanimado perto do final do jogo, depois de se queixar ao seu treinador de dores no peito. Entre o momento em que perdeu os sentidos e a altura em que começaram a ser feitas manobras de reanimação, passaram oito minutos; tudo porque quando um dos treinadores do Wycombe ligou para o 999 (o equivalente britânico ao 112), o telefonista, que não tinha formação médica, não reconheceu os sinais de paragem cardíaca – o jovem estaria com falta de ar, mas este considerou ao telefone que respirava normalmente – e não passou instruções aos paramédicos no local para começaram a usar o desfibrilador.

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Para os pais do jovem, ambos médicos, a decisão pode ter tido consequências catastróficas. “Se alguém tivesse dito ‘ponham o desfibrilador’ no Adam, poderíamos estar numa situação muito diferente”, lamentam.

Federação inglesa pondera mudanças

O inquérito realizado no início deste mês revelou que o operador telefónico que atendeu a chamada não tinha a formação básica para detetar os sintomas de paragem cardíaca de Adam. Também o árbitro da partida não tinha – e não era obrigatório que tivesse – feito a formação da FA para primeiros socorros, que prevê situações deste tipo (ainda que as conclusões finais tenham indicado que o juíz da partida de sub-19 agiu em conformidade com a situação e não teve responsabilidades na morte do jovem).

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A médica legista que avaliou o caso afirmou que tal contribuiu “mais do que minimamente” para a morte do jovem. Considerou ainda “preocupante” que nenhum oficial da FA envolvido com a partida fosse obrigado a ter o treino necessário para lidar com a situação.

Com base nestas conclusões, a legista, Valerie Charbit, anunciou que iria expor o caso num relatório à FA, com a recomendação de que novas medidas de prevenção e formação sejam adotadas no futuro, para que treinadores, árbitros e responsáveis federativos saibam o que fazer em situações semelhantes. A federação disse-se “sensibilizada” pela tragédia, garantindo que ia avaliar possíveis correções.

“A morte do Adam teve um impacto devastador na sua família e amigos”, afirmou a família em comunicado, no fim do inquérito. “Esperamos que todas as organizações e pessoas que foram sensibilizadas por este inquérito aprendam e melhorem”.

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Dois anos depois, o quarto de Adam permanece praticamente intocado – as cortinas com o símbolo do Arsenal, as medalhas desportivas e um cachecol do clube de sempre permanecem tal como estavam. Além de uma ou outra fotografia emoldurada, a única coisa que os progenitores do jovem acrescentaram à divisão foi a braçadeira de capitão que envergou naquele que veio a ser o seu último jogo. “Deram-nos a braçadeira no hospital”, recordou o pai do adolescente. Do lado de dentro, vieram a saber, estavam inscritas quatro palavras, escritas pelo próprio Adam antes de entrar em campo: “Força, Inspiração, Líder, Vontade”.

Por Record
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