_

Santi Cazorla: «Não darei o prazer a quem não quer que eu volte a jogar»

• Foto: Pablo García

No início de novembro de 2017, Santi Cazorla acreditava que o regresso aos relvados estava perto de acontecer mas esta quarta-feira, o jogador espanhol comunicou a 9.ª cirurgia. Recuperámos aqui a reportagem publicada no dia 5 no Record Mais.

---------------------------------------

PUB

Genebra, 10 de setembro de 2013. A seleção de Espanha defronta o Chile em jogo particular e Santi Cazorla sai lesionado, após um toque no tornozelo da perna direita. Uma lesão que lhe provocou uma fissura no osso. Nada que, em princípio, fosse mais do que normalmente sucede aos futebolistas de elite. Desde esse dia que Cazorla aprendeu a viver e a jogar com dores no pé direito.

"Aguentava um pouco melhor as primeiras partes dos jogos. Quando o corpo ficava quente podia mesmo fazer um esforço maior, mas no intervalo, quando arrefecia, até me caíam as lágrimas com as dores". No dia 5 de dezembro de 2015 é operado por causa de uma rotura do ligamento externo do joelho. Um outro problema que nada tinha a ver com aquele que lhe estava a causar sofrimento. E são os problemas no tornozelo que persistem. À base de infiltrações e da vontade de vingar no Arsenal, consegue aguentar e jogar durante meses, embora já não houvesse corticoides que pudessem acalmar a sua agonia e o seu sofrimento. Mesmo assim, Cazorla não podia imaginar o largo e obscuro caminho que ainda tinha de percorrer. Começam então as operações no tornozelo. Umas atrás das outras.

Sem esperanças

PUB

Os médicos em Londres nunca foram muito optimistas para com o jogador. "Se conseguires voltar a andar com o teu filho pelo jardim, dá-te já por muito satisfeito, disseram-me". Assim, a ideia de regressar ao futebol passa para segundo plano e o foco está em que o espanhol volte a caminhar e em ter uma qualidade de vida aceitável. Um ano depois da primeira operação, volta a sofrer uma intervenção cirúrgica ao pé direito. O que se supunha ser três semanas de recuperação, acabou quase por ser o princípio do fim de Cazorla. Ao fim de um mês, tiraram-lhe os pontos, mas a ferida estava sempre a abrir-se e teve de voltar à sala de operações oito vezes num ano. Uma lesão sem esperanças e sem antecedentes no mundo do futebol.

Zona com gangrena

Santi Cazorla, de 32 anos, mostra-nos imagens do seu pé durante este longo e penoso processo. E chama a atenção para uma zona do pé com gangrena. "Eu continuava a jogar e diziam-me que estava bem. O problema é que a ferida não cicatrizava, voltavam a abrir-se e infectavam. Nesta foto até se vê o tendão", mostra.

PUB

Por essa altura, nem podia imaginar o que o Dr. Mikel Sánchez lhe diria. O jogador consultou este especialista depois de ter queimado todos os cartuchos em Inglaterra. E quando o Dr. Sánchez viu a ferida meteu as mãos na cabeça. "Viu que eu tinha uma tremenda infeção, que parte do osso calcaneo estava danificada e que o tendão de Aquiles estava ‘comido’. Faltavam-me oito centímetros!". Foi quando foram descobertas três bactérias superagressivas, uma delas apanhada numa das operações e que lhe provocava aquelas infecções. Começou então a tomar antibióticos com algum sucesso e a esperança começou a crescer. Pelo menos, a esperança de não ter de amputar a perna...

Desafio médico

O mesmo Dr. Sánchez, que reconhece nunca ter visto caso semelhante, realizou a última reconstrução do tendão no dia 9 de maio. O verão serviu para uma intensa reabilitação que está a ir por um bom caminho. Um edema ósseo atrapalhou, entretanto, a recuperação, mas não há prazos para cumprir, apenas esperanças. E as de Cazorla são, finalmente, as melhores. O cenário mudou. O Arsenal renovou contrato com o espanhol até junho de 2018 e, até lá, ele quer mostrar que não é um ex-futebolista. "Não tenho nada previsto até janeiro, mas vou voltar a jogar ainda antes", diz, confiante.

PUB

Recuperar em Salamanca

Há apenas um mês já fez corrida no relvado do Estádio Helmântico, do Salamanca. O seu irmão, ao vê-lo, chorou. Quem nunca chorou em todos estes anos, pelo menos é o que diz, é o próprio Santi Cazorla.

Desde julho que o jogador vive no quarto de um hotel naquela cidade, por forma a fazer tratamento na clínica do fisioterapeuta da seleção espanhola, Juan Carlos Herráez. "A minha família continua em Londres, porque os meus filhos estão a estudar lá. Estar aqui sozinho, sem eles, ainda é mais duro".

PUB

Sem mágoa

Cazorla não tem mágoa por nada, nem por ninguém. A sua cabeça está bem e garante que nunca, neste processo, recorreu à ajuda de um psicólogo. E fala sem problemas de tudo o que se passou. Apesar dos seus 1,65 metros, ele é gigante de força. No seu perfil do whatsapp mostra isso. "Não darei o prazer a quem não quer que eu volte a jogar. Voltarei", garante. E isso mostra do que é feito. 

Tatuagem repartida

PUB

A operação obrigou a um enxerto de pele no tornozelo e os médicos foram buscá-la ao antebraço esquerdo do jogador, onde este tinha tatuado o nome da filha ‘Índia’. Assim, a tatuagem ficou dividida em duas. Metade continua no braço, a outra ficou visível na perna operada. "Agora não sei como posso corrigir o ‘tattoo’ do braço. Talvez o deixe ficar assim. Agora tem mais significado do que nunca", disse Cazorla, não perdendo o humor, apesar de interrompido aqui e ali por um esgar de dor enquanto vai explicando todas as cicatrizes do corpo. Outra das tatuagens, a do seu filho Enzo, essa continua intacta.

Autor: Lorena González

Deixe o seu comentário
PUB
PUB
PUB
PUB
Ultimas de Arsenal Notícias
PUB