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Recorda-se do episódio de fúria de Bruno Fernandes no Estádio do Bessa em 2019? Pois bem, esse mesmo episódio serviu esta quinta-feira de mote para um extenso artigo de opinião publicado no conceituado jornal britânico 'The Guardian', não numa tentativa de manchar a reputação do médio do Manchester United e da Seleção Nacional portuguesa ou algo que se pareça à primeira vista, mas sim com o objetivo de fazer um paralelismo com tudo o que o camisola 8 tem vivido, época após época, nos Red Devils.
"O vídeo de Bruno Fernandes a pontapear uma porta é muito bom, caso ainda não o tenham visto. De certa forma, explica muita coisa. Em 2019, o seu Sporting estava a empatar 1-1 no estádio do Boavista e Bruno Fernandes é expulso por um segundo cartão amarelo plenamente merecido. Enquanto percorre o túnel, desfere dois pontapés furiosos contra as portas, com tal força que o impacto o faz perder o equilíbrio. As portas emitem um som magnífico, como um tiro de caçadeira, mas não cedem. "F***-se!", gritou Fernandes enquanto os seguranças do Boavista tentam intervir. "Eu pago a m**** das portas! Vão todos para o c******! Naturalmente, cada um pode interpretar esta pequena vinheta como quiser. Provavelmente não significa nada. Não descartemos a hipótese de não ser "nada". Outros focar-se-ão na petulância, na espiral de fúria contida que, mesmo aos 31 anos, ainda surge ocasionalmente no seu jogo. Pessoalmente, adoro o facto de que, mesmo naquele nevoeiro de raiva pura e incoesa, Bruno Fernandes ainda se tenha preocupado com os danos que estava a causar às portas e já pensava na compensação", começa por escrever Jonathan Liew, colunista do The Guardian no seu artigo de opinião, recuperando de seguida os vários atos generosos que Bruno Fernandes já teve desde que chegou ao Manchester United.
"A oferta para pagar a viagem e o alojamento dos funcionários do Manchester United que se deslocaram a Wembley em 2024, após Jim Ratcliffe se ter recusado a suportar a conta. A viagem de grupo e o jantar que ele organizou pessoalmente quando o clube atravessava uma fase difícil. A gestão de bilhetes extra para a equipa feminina poder levar familiares e amigos a Wembley para a final da Taça de Inglaterra. Histórias intermináveis de adeptos que, após um encontro fortuito ou uma interação nas redes sociais, receberam um dia uma encomenda aleatória pelo correio com uma camisola autografada ou outro presente semelhante...", continuando: "Funcionários despedidos sob o regime de Ratcliffe relatam que Bruno Fernandes ainda entra em contacto ocasionalmente para saber como estão. Os novos reforços recebem um bombardeamento de mensagens entusiasmadas com ofertas de ajuda para se instalarem (...)".
Jonathan Liew recorda ainda a 'choruda' oferta que Bruno Fernandes recebeu do Al-Hilal na última temporada, tendo preferido manter-se no clube - que o equacionou vender - por amor à camisola, mas também o facto de ser ele quem mantém o Manchester United vivo quando mais nada parecia resultar "desde a reforma de Sir Alex Ferguson": "Durante mais de uma década, desde a reforma de Sir Alex Ferguson, o Manchester United tem procurado um substituto com a estatura adequada. Talvez estivessem a procurar no sítio errado. Na sua obsessão incessante e fúria justa, no seu cérebro táctico e na necessidade de estar em todo o lado, a fazer tudo ao mesmo tempo, talvez Bruno Fernandes seja o mais próximo que alguma vez conseguirão chegar, por agora".
E continua: "Independentemente do que se pense de Bruno Fernandes como jogador, há aqui um tipo de romance insolúvel: um homem que casou os seus anos de auge a este navio fantasma à deriva, suportando a era de ridículo e disfunção, a negligência impiedosa, a rotatividade de treinadores e estilos, as críticas de Roy Keane. A história de Bruno Fernandes no Manchester United é a de um homem a pontapear uma porta trancada ano após ano, convencido - contra todas as evidências disponíveis - de que desta vez ela irá escancarar-se."
Recentemente, Bruno Fernandes alcançou a marca redonda das 100 assistências pelo Manchester United, clube pelo qual já marcou 106 golos em 320 jogos. Esta época, já superou o recorde de assistências numa única temporada pelos Red Devils, superando um registo que pertencia a David Beckham desde 1999/2000. Agora, o médio, que já tem certamente um lugar na história do Manchester United, está ao serviço da Seleção Nacional, que irá disputar dois particulares contra México e Estados Unidos antes de Portugal começar a preparação para o Campeonato do Mundo de 2026.
Por Sérgio Magalhães