Havana – Depois de uma viagem extenuante, de cerca de doze horas, entre Portugal e Cuba (com escala em Espanha, na capital Madrid) e de uma (necessária) noite de descanso, a selecção nacional realizou, quinta-feira, os dois primeiros treinos em solo caribenho, tendo em vista os encontros frente à poderosa formação cubana, actual detentora do título da Liga Mundial.
Na véspera, e de acordo com a diferença horária entre os dois países (menos cinco horas em Cuba), o seleccionador António Rodrigues ainda orientou uma curta sessão de desentorpecimento muscular no local onde se realizarão as partidas, denominado “Ciudad Deportiva” por estar englobado num complexo desportivo com campos de futebol, piscina e pavilhão e onde já decorreu uns Campeonatos Pan-Americanos.
Em relação ao recinto que será palco dos jogos, apresenta uma capacidade para quinze mil espectadores e revela, de certa forma, a imponência do regime comunista em território cubano. Não é luxuoso, nem requintado, mas, essencialmente, prático e bastante amplo, apresentando ainda referências aos dois mártires da revolução cubana.
Che Guevara aparece num enorme retrato pintado, enquanto o eterno líder Fidel Castro é citado num ”placard” com a frase “El deporte derecho del pueblo” (”Desporto, direito do povo”).
De facto, o desporto tem sido um dos principais “baluartes” de Cuba e quanto ao voleibol especificamente, após o triunfo no ano passado na Liga Mundial, a modalidade conquistou um lugar de maior destaque no panorama desportivo. Além disso, estes serão os primeiros encontros de Cuba perante o seu público, depois da dupla vitória na Argentina (onde a equipa conquistou o seu centésimo triunfo em jogos relativos à competição) e, também por isso, as partidas com Portugal são aguardadas com expectativa, sendo previsível uma assistência na ordem das seis/sete mil pessoas.
Aliás, os cubanos – pese os muitos problemas económicos – não costumam faltar aos grandes acontecimentos desportivos que se realizam no seu país. Na mesma linha do que sucedeu, no passado, com as já extintas União Soviética e RDA, os êxitos servem para alimentar o ego do povo que, dessa forma, tem motivos para se equiparar às principais potências mundiais.
HUMIDADE
No que respeita à comitiva portuguesa, o único problema parece ser o clima, onde uma temperatura em torno dos 30 graus, aliada a um nível de humidade relativa do ar, de 70/80 por cento, obriga os atletas a procurar, constantemente, os quartos, como forma de se abrigarem no ar condicionado.
É que o hotel onde a selecção está instalada, apesar das cinco estrelas e do serviço ser impecável, não tem ar condicionado noutras zonas, a não ser nos quartos e na sala de refeições.
De qualquer forma, trata-se de uma questão de hábito e, ontem, os jogadores já estiveram mais activos durante as duas sessões de treino, revelando alegria e empenho.
A equipa tem perfeita consciência do imenso poderio do adversário que terá de enfrentar nos próximos jogos e, por isso, a intenção é fazer o melhor possível, mesmo que o mais provável seja abandonar Cuba com duas derrotas na bagagem.
Como dizia, ontem, o seleccionador luso, António Rodrigues, a um jornalista cubano: “a vossa selecção é a melhor do Mundo”. Assim sendo, a Portugal resta treinar o melhor possível e jogar de forma descontraída, tentando ”furar” as previsões e colocar problemas a uma selecção que, nos últimos anos, raras vezes tem conhecido o sabor amargo da derrota.
CARIBENHOS COM QUATRO ALTERAÇÕES
Havana – O seleccionador cubano, Juan Diaz, efectuou quatro alterações em relação ao lote de doze jogadores que disputaram a primeira jornada na Argentina. Saíram Leonel Marshall, Alexei Argilago, Tomas Aldazabal e Germán Izaguirre, entrando para os seus lugares Alexeis Batte, Raul Diago e os irmãos Hernández (Osvaldo e Ihosvany). Estas mudanças tornarão a equipa cubana ainda mais forte, já que os três últimos são os mais antigos no conjunto de “eleitos” para a Liga Mundial (com mais de 150 internacionalizações cada um) e constituirão, com certeza, um problema suplementar para o conjunto orientado por António Rodrigues. Juan Diaz justifica estas alterações com o cansaço revelado por alguns jogadores, quando a equipa se reuniu dias antes da partida para a Argentina.
“Mais de cinquenta por cento dos nossos atletas actua em Itália. Estavam desgastados. Optei, então, por levar alguns jovens que, aliás, tiveram um comportamento exemplar. Neste momento, temos um grupo muito homogéneo e, frente aos argentinos, que apresentaram os seus principais jogadores, soubemos recuperar sempre que nos encontrávamos em desvantagem”.
Sobre as partidas entre França e Portugal, o técnico cubano não se mostrou surpreendido com o facto de os portugueses terem vencido o primeiro jogo, já que “tratam-se duas selecções europeias e têm um bom conhecimento do adversário”. Neste contexto, segundo Juan Diaz, “é mais fácil surgirem este tipo de resultados, embora me pareça que os franceses consideravam a equipa portuguesa muito débil”.
Se o adversário fosse a Jugoslávia (como estava previsto), tudo seria mais difícil. ”Os jugoslavos são uma equipa de topo, conforme demonstraram em Atlanta e no último Campeonato do Mundo”, explicou.
OBJECTIVO SYDNEY
Para o técnico cubano, ”ficar nos quatro primeiros lugares da Liga é importante”, mas o verdadeiro objectivo do trabalho passa pelos Jogos Olímpicos de Sydney. ”Desde 97 que estamos a pensar na próxima Olimpíada. É com a Austrália no pensamento que temos vindo a ultrapassar as etapas que nos surgem pela frente. Depois de Atlanta, modificámos mais de metade da equipa e, sinceramente, estamos mais empenhados em brilhar no Pan-Americano do que nesta Liga. No entanto, se nos deixarem vencer...não vamos hesitar”.
ALEXANDRE CASTRO, enviado especial