Assumido benfiquista, o treinador que vai tentar levar Portugal ao Europeu deste ano refere que, consigo ao leme, não existirão clubes na Seleção. E garante que toda a gente, oriunda dos mais diversos emblemas, trabalhará com o único objetivo de ajudar o país a vencer.
Pensa que o facto de ter um passado de forte ligação ao Benfica, e de nunca ter escondido que era adepto do clube, pode prejudicar a sua relação com alguns clubes, nomeadamente o FC Porto?
José António, Cantanhede
Não, de maneira alguma! Eles sabem que sou benfiquista desde pequeno. No entanto, no basquetebol não tenho clube, sou apenas um profissional a tentar fazer o seu trabalho. Quero ganhar, esforço-me para que a minha equipa seja sempre a melhor, que conquiste os títulos, independentemente de estar à frente do Benfica, do FC Porto ou de outro clube qualquer. Todos os que me conhecem têm essa noção. Não tenho receio nenhum dessa situação e só posso dizer que na Seleção não existirão clubes. Trabalharemos juntos em prol do país.
Todos sabemos que tem imenso jeito para o basquetebol. E quais são as áreas que considera não ter a mínima aptidão?
Rui Fernandes, Seixal
Não tenho jeito para os desportos individuais. Natação e ginástica, por exemplo, eram um problema quando estudava. Já as modalidades coletivas não constituíam qualquer dificuldade. Joguei quase tudo, sendo que o basquetebol e o futebol foram as mais sérias. Poucos sabem, mas cheguei a alinhas nas duas equipas do Benfica de Luanda. E posso dizer que tinha capacidade para enveredar pelo futebol. Provavelmente, hoje, teria mais dinheiro. Enfim, tudo seria diferente.
Já imaginou a sua vida sem o basquetebol? Que profissão gostaria de ter se não fosse treinador profissional?
Paula Cruz, Olhão
Não sei o que teria acontecido se não tivesse feito esta aposta, mas posso dizer que gostaria de ser pintor. Não de janelas, com todo o respeito, mas de alto nível. Ou então fotógrafo, algo relacionado com as artes. Tenho esse fascínio, pois não compreendo como se conseguem fazer determinadas coisas e gostaria de saber.
É verdade que se zanga quando o apelidam de “Mourinho do basquetebol”?
João António, Castelo Branco
Não, pois eu apareci primeiro! Não há comparação entre basquetebol e futebol. Ele é um fora de série e vai continuar a ter um sucesso extraordinário. Mas, naturalmente, somos diferentes. Cada um tem a sua maneira de ser e de dirigir, embora em muitos aspectos até possamos encontrar características similares. Em resumo: sou mais velho e já tenho 70 títulos. Estou à espera que alguém faça um levantamento para perceber se há comparação com o registo de outros técnicos e gostava de ver mais gente chegar a essa fasquia.
Continua convicto de que o Benfica, nos anos 90, não esteve assim tão longe da possibilidade de ser campeão europeu de basquetebol?
Carlos Bernardes, Elvas
Nunca estivemos assim tão perto. Aproximámo-nos imenso, é verdade, mas ainda faltava um bocado. Com o investimento que tínhamos era praticamente impossível. A diferença do dinheiro era impensável. Mas foi uma pena que, nessa altura, não tivéssemos um campeonato mais competitivo. Só jogando regularmente com os melhores se pode atingir o nível da elite. E nós estivemos, de facto, relativamente perto dos colossos da Europa.
Qual o melhor “cinco” possível entre os jogadores que já orientou ao longo da carreira?
João Silva, Paredes
É difícil responder a essa pergunta, pois tenho tido a sorte de orientar jogadores de enorme qualidade. Sem querer ferir as susceptibilidades de ninguém, creio que o Carlos Lisboa e o Jean Jacques seriam os únicos com lugar garantido. Depois, teria muitas outras opções de qualidade. Só para a posição de base lembro-me de Pedro Miguel, Arcega e Miguel Lutonda. Depois, para as posições 3 e 4 também teria várias opções. Wayne Engelstad, Flávio Nascimento (o melhor defensor), Juan Barros, etc. E o Abas, da Jordânia, tem um potencial fora de série. E ainda conseguiria reunir mais uns quantos com uma capacidade acima da média.
Há gente que o define como alguém com “personalidade muito vincada”, com um “feitio complicado”, mas outros dizem exactamente o contrário, que se trata de alguém “simpático, comunicativo”. Como é que se define?
Fátima Silva, Beja
Quando não estou a trabalhar sou simpático, mas só para as pessoas em que tenho confiança e por quem nutro respeito. Não é para todos. O meu círculo de amigos não é muito grande, mas são todos bons. Em relação às pessoas que não são séria não posso ser amigo delas, não me merecem respeito.
Já se lamentou da falta de tempo que vai ter para preparar a Selecção antes da fase de qualificação para o Europeu. Se fosse possível, quantos dias (ou horas de treino) gostaria de ter, quantos jogos-treino seriam ideais?
Rui Ambrósio, Chaves
Gostaria de ter começado a trabalhar a 1 de agosto de 2010 e de fazer 60 a 70 jogos antes das partidas “a doer”! É óbvio que estou a brincar, mas não sendo possível ter as condições diria que seria muito bom poder disputar 8 a 12 jogos de controlo e ter os atletas à disposição cerca de 2 meses. Mas, sabendo que não será bem assim, faço questão de dizer, desde já, que isso não será razão para arranjar desculpas se as coisas não correrem da forma que todos desejamos. As condições não serão muito diferentes dos adversários. Temos é de aproveitar bem o tempo, trabalhar bem e ganhar.
Treinou jogadores notáveis como Lisboa, Jacques, Pedro Miguel ou Sérgio Ramos. Algum deles podia ter chegado à NBA?
Susana Antunes, Coimbra
Sim, claramente. Revelaram qualidades idênticas ou até superiores a alguns que lá andaram ou andam.
Depois de tanto tempo fora, e mesmo sabendo que vinha com regularidade a Portugal, como é que o encontrou o país?
Pedro Figueiredo, Cacém
Encontrei-o repleto de pessoas desmotivadas, mas onde a culpa é sempre de alguém. Aqui, não há confiança nos outros. Estamos perante uma crise brutal, mas a solução é ir em frente, trabalhar e não apresentar continuamente desculpas para o insucesso. Sem confiança uns nos outros, com a inveja e a mediocridade sempre presente, não vamos conseguir viver melhor.
Se estiver em casa, vê mais facilmente um jogo da NBA, do campeonato universitário norte-americano ou de uma prova europeia?
Fernando Silva, Massamá
Um de uma prova europeia de alto nível. Curiosamente, os modelos de jogo adoptados na Europa são quase todos oriundos das universidades norte-americanas, mas isso não é suficiente. É preciso saber conjugar esses modelos a calendários mais rigorosos, com dezenas e dezenas de jogos por época. Os treinadores europeus têm tido a capacidade de moldar as boas influências norte-americanas. Em relação à NBA, quando chega o playoff é outra coisa. O impacto é diferente e as partidas são, por norma, de grande qualidade.