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Márcia Costa: «Aos seis meses, o meu filho já estava comigo no pavilhão»

Márcia Costa: «Aos seis meses, o meu filho já estava comigo no pavilhão»

Márcia Costa, jogadora do GDESSA e da Seleção Nacional feminina, foi a terceira convidada do 'Dois para um', o podcast conjunto de Record e da Federação Portuguesa de Basquetebol que conta também, no lote de entrevistadores, com o antigo internacional português João Santos - veja na íntegra no QR Code. Aos 36 anos, a extremo garante que a maternidade não lhe retirou rendimento desportivo - antes pelo contrário - e que sempre quis o filho Tomás presente, desde tenra idade, na sua rotina basquetebolística.

"Na minha conceção, não fazia sentido parar de jogar para ser mãe. Aos seis meses, ele já estava comigo no pavilhão. Na altura, o [Miguel] Minhava era o meu treinador no GDESSA e eu só lhe disse 'está cá uma babysitter comigo, só te peço para, se for preciso, sair para alimentar o Tomás'. Não houve qualquer problema. E continua a ter a babysitter no pavilhão com ele. Agora já é mais autónomo, sabe as regras, mas sinto que esta é a maneira como quero criar o meu filho", contou a internacional portuguesa, para quem o facto de ter sido mãe - depois de um parto de... oito minutos - acabou por focá-la no seu trabalho em campo: "sou muito melhor atleta agora do que era antes de ter o Tomás. Não tenho dúvidas. Quando não és mãe, o teu tempo é muitas vezes desperdiçado. Se não fazes agora, fazes amanhã. Não há urgência. Mas com o Tomás, há um momento para o basquetebol, há outro para levá-lo ao colégio e se não fizer uma tarefa naquele momento, não consigo mais tarde."

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Melhor jogadora da década 2010-20 para a FPB e considerada uma das 40 mulheres mais influentes no desporto português, Márcia Costa mostra-se naturalmente satisfeita com estas distinções mas sublinha que as mesmas se esgotam, para si, naquele instante. "Tenho uma colega, a [Teresa] Cabrita, que sempre que me cumprimenta diz "olá, jogadora da Forbes". Que tola! Mas percebo que isso tenha impacto nas outras pessoas, mesmo que não minha vida não tenha assim tanto. É um motivo de felicidade, mas fica naquele momento", explica, admitindo que se terminasse hoje, o balanço seria muito positivo: "Há dias difíceis, de frustração e de choro, faz parte. Mas se acabasse hoje, para mim estava tudo bem, pois estou mesmo feliz com tudo aquilo que fui conquistando."

Profissional apenas aos 28 anos

Márcia Costa só se dedicou ao basquetebol a tempo inteiro já numa fase mais adiantada da carreira, em 2018. Antes, conciliou a modalidade com um trabalho a dar aulas num ginásio (do qual se tornou diretora técnica), entrando aí no mundo do fitness e culminando, por exemplo, com a licenciatura em Educação Física. "Foi sempre o basquetebol que pagou a minha faculdade. No Montijo, ia terminar o 12.º ano e deixar a modalidade quando o António Carlos me disse que havia pessoas que recebiam dinheiro para jogar. Acabei a tirar o curso numa privada. Na Quinta dos Lombos, o José Leite também sabia que o basquetebol me ajudava a pagar os estudos. Então fui conciliando as duas, trabalhava com o corpo o dia todo e depois ainda ia treinar basquetebol ao final do dia", recorda, explicando depois o porquê da profissionalização: "estava sobrecarregada. Saí do ginásio em dezembro [de 2017], vou à seleção pela primeira vez em fevereiro e no estágio recebo uma mensagem da equipa do Szekszárd, com uma proposta para ir para a Hungria. Se ainda tivesse o tal contrato no ginásio, não poderia ter dito que sim..."

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Uma carrreira que começou com uma história que envolve... gelados: "a vizinha da minha avó, que tinha a minha idade, disse-me que se eu fosse jogar [no Clube Naval de Setúbalense] dava-me um gelado. O motivo? É que ela também recebia um gelado se levasse uma amiga. Acabei por nunca recebê-lo - nem ela - mas valeu a pena".

Vários projetos para o pós-carreira

Márcia Costa mostra-se despreocupada com o final da carreira e o que se seguirá. Alicerçada por uma licenciatura e ainda uma pós-graduação em treino de força, tem vários projetos em mente, um deles melhorar a vida dos jovens da localidade do qual é oriunda. "Gosto de ter várias portas abertas, tanto que quando fui para a Bélgica estava a tirar o mestrado em Educação Social e Intervenção Comunitária. Venho do bairro social da Bela Vista, de Setúbal, e tenho que arranjar maneira de voltar para lá e fazer a diferença na vida de alguém. Fui a segunda a licenciar-me nesse bairro. Isto são coisas que as pessoas não querem saber, mas a verdade é que eu quase não ia para a faculdade porque não tive alguém que me explicasse como é que se fazia para concorrer. Mesmo que eu não exista daqui a 100 anos, tem que ser algo que eu deixe para aquela comunidade. Depois tenho um projeto que se chama Ressalto para a Vida, em que as pessoas vão ver um jogo da Liga e poderão ser dadoras de sangue. Quero ser também professora de Educação Social e de Ensino Primário".

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Vitória contra a Sérvia como "ponto alto"

A inédita participação de Portugal no EuroBasket do passado verão foi naturalmente tema de conversa e Márcia Costa admite que a vitória sobre a Sérvia, em fevereiro de 2025, que garantiu a qualificação, "foi o ponto alto" da sua carreira. "Nunca estivemos tão preparadas para um jogo como para esse. Estava tudo alinhado. Se virem a maneira como defendemos... Depois no EuroBasket foi só desfrutar e dar o nosso melhor. Mas mesmo sabendo que seria difícil, ainda sonhámos com a passagem à fase seguinte", relata a extremo.

A fechar, numa sessão de perguntas de resposta rápida, escolheu a mãe como o seu ídolo, Mariana Silva (Imortal) como a adversária que gostaria que fosse colega e, num jogo de "esta ou aquela" com atuais e antigas internacionais portuguesas à escolha, optou por Ticha Penicheiro na 'final' contra Mery Andrade. "Duas craques", deixou claro.

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Por João Socorro Viegas
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