Morrer duas vezes: Bianchi no lugar errado e à hora errada

Morrer duas vezes: Bianchi no lugar errado e à hora errada
• Foto: getty images

O piloto Jules Bianchi morreu este sábado, informou a família do malogrado jovem francês que acabou por não resistir aos graves ferimentos sofridos há nove meses em Suzuka, no decorrer do GP do Japão da temporada 2014. É, para todos os efeitos, a 17.ª vítima mortal na história da Fórmula 1 que resulta de um acidente em corrida [ver quadro no final do texto]. Desde 1994, quando Ayrton Senna perdeu a vida no Autódromo Enzo e Dino Ferrari, em Ímola (Itália), que não sucedia uma tragédia desta dimensão.

De resto, nenhum piloto morreu nestes últimos 21 anos e o que sucedeu ao francês a 5 de outubro de 2014 resultou de uma sucessão de eventos que remetem de imediato para a estafada justificação: "estava no lugar errada e à hora errada". Isto porque na curva Dunlop  de Suzuka se formou a "tempestade perfeita", na qual se tem, obrigatoriamente, de incluir a presença de um trator-grua, com cerca de 8 mil quilos de peso, que entrou numa escapatória para remover um carro acidentado, o Sauber-Ferrari de Adrian Sutil.

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Foi nele que Bianchi bateu, depois de perder o controlo do Marussia-Ferrari, com a pista molhada, em situação de dupla bandeira amarela. O mundo do desporto, e não apenas a F1, uniu-se numa corrente de solidariedade e apoio sabendo que a gravidade dos ferimentos requeria um verdadeiro milagre. Bianchi sofreu uma "lesão axional difusa", uma das formas mais graves de traumatismo cerebral.

Passados nove meses continua a ser difícil compreender a presença do trator-grua, tendo em conta as apertadas malhas regulamentares da F1 no que toca a segurança, as quais estreitaram ainda mais depois da morte de Senna.

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A FIA reagiu e introduziu a regra do Safety Car Virtual (VSC, acrónimo em inglês), baseada no que já sucedia nas 24 horas de Le Mans, a qual obriga os pilotos a reduzir a velocidade para o que lhe é indicado no painel dos volantes na altura (em estudo continuam o fecho dos habitáculos e a introdução de "roll-hoops" frontais). Entretanto, os carros acidentados continuarão a ser removidos de pista, em certos locais, da mesma forma.

Evolução impressionante na segurança

O Mundial de F1 tem vindo a ser gerido por Bernie Ecclestone (parte comercial) e pela FIA (técnica) com o objetivo de tornar a competição mais aliciante para o público e, simultaneamente, mais segura para intervenientes diretos (sobretudo pilotos, mas também mecânicos, comissários de pista, etc.) e, claro está, para os espectadores. E a evolução foi impressionante, é um facto.

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Medir a gravidade do acidente para Bianchi caso o choque tivesse acontecido contra o carro de Sutil é um exercício complicado, mas ninguém arriscará contrapor que um F1 não foi pensado/construído para bater contra a traseira de um veículo mais elevado – onde se encontram contrapesos que o tornam eficaz na sua tarefa específica - e cujo peso é tal que o transforma num objecto estático - o "roll-hoop" - estrutura que protege a cabeça do piloto - do Marussia praticamente desapareceu após o choque.

O que dizer então de um espectáculo caro, nos circuitos (bilhetes do dia da corrida acima dos 100 euros) e na televisão, que investe forte em carros e circuitos seguros e depois tem regras e meios arcaicos para remoção de carros acidentados de pista, os quais, em si mesmos, constituem um perigo?

Um GP de Formula representa um custo para as organizações que pode superar os 50 milhões de euros - como acontecerá nos casos de Singapura e Abu Dhabi. Quem assina fica obrigado a manter a confidencialidade em relação a caderno de encargos e contrato e, por isso, os dados que existem resultam de estudos e investigações fora da competição.

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Um destes trabalhos adianta que a Formula One Management (FOM) de Ecclestone encaixou um total de 1,5 mil milhões de euros em 2012 por conta deste item específico. Quem paga tão avultada entrada num clube restrito está obrigado a cumprir um caderno de encargos, com requistos impostos por FIA e FOM. Assim, se os tratores-grua circulam em Suzuka  - e em todos os outros circuitos - é porque podem.

E podem porque são considerados o meio mais rápido, mais eficiente, mais seguro - para os comissários e para a integridade da delicada estrutura que é um carro de F1 - e mais... barato. Alugam-se às dezenas por um preço aceitável, o que não acontece com outro tipo de equipamento.

Gruas como as que "proliferam" no GP do Mónaco, com braços telescópicos gigantes que levantam os carros sem entrar na área da pista, são bem mais caras e, por isso, mais raras -  Suzuka também as tem, mas não na curva Dunlop, que é feita pelos pilotos a alta velocidade.

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A última vez que um acidente tinha colocodo em risco a vida de um piloto teve lugar em 2009, na qualificação do GP da Hungria, quando uma pequena mola se soltou do carro de Rubens Barrichello e bateu no capacete de Felipe Massa. Foi algo que se enquadra no vasto rol de riscos inerentes à profissão - ao contrário do que se passou em Suzuka a 5 de outubro de 2014, onde um porta-voz do circuito se arriscou a classificar o acidente de Bianchi como "grande azar".

Entretanto, o jovem promissor francês parece ter morrido duas vezes - que isso sirva para que (pelo menos) alguns pensem duas vezes sobre se este problema fica solucionado com a regra do Safety Car Virtual.

MORTES EM CORRIDA*

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*) No decurso da corrida de um GP ou em resultado de ferimentos de acidente no decurso de corrida de um GP;

**) Data do acidente.

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