Paulo Gonçalves regressou ontem a Portugal, após uma experiência que jamais irá esquecer no Dakar. Os motivos de recordação, porém, não são os melhores, já que o piloto português acabou por ser obrigado a desistir da prova, depois de ver a sua moto ser destruída pelas chamas. Um episódio difícil de ultrapassar, sobretudo porque as ambições para a competição eram muitas, e Paulo Gonçalves não estava preparado para tão rude golpe.
“Este Dakar não foi nada daquilo que tinha programado. Vivi momentos verdadeiramente angustiantes, de uma frustração enorme. Podia imaginar mil maneiras de abandonar a prova, mas nenhuma delas era ver a minha moto arder. Foi muito complicado ser obrigado a assistir à sua destruição. Não estava preparado para isso”, começou por contar o campeão do Mundo de todo-o-terreno que só mais tarde se apercebeu de que pôs a sua vida em risco ao tentar apagar o incêndio: “Sempre achei que era possível apagar o fogo. Tentei de tudo e nem tive noção do perigo por que passei. Até eu me arrepiei quando vi as imagens. Quando o Pedrero passou, pedi-lhe desesperadamente por ajuda. Ele não parou e depois explicou-me que foi por já não ser possível fazer nada. Se calhar teve mais lucidez do que eu, mas achava que ainda era possível...”
No dia em que Paulo Gonçalves viu a sua moto arder, foram vários os pilotos e viver situações semelhantes. A culpa foi das elevadas temperaturas. “O Pelliser teve de abrigar-se do calor com as próprias roupas. A mulher do Nani Roma estava no helicóptero e disse que aquilo parecia o Vietname, com carros e motos a arder. Vi o vídeo de um piloto a correr quase todo nu e falou-se que alguns tiveram alucinações com extraterrestres”, relatou, sem criticar a organização da prova: “Para quem estava lá para ganhar não foi muito exigente, foi um bom Dakar.”