A organização do rali Dakar de todo-o-terreno quer que todos os veículos em competição estejam a utilizar biocombustíveis até 2030, pondo de lado as soluções elétrica e híbrida.
Em entrevista à agência Lusa, o diretor da corrida, o francês David Castera, admitiu dificuldades em encontrar alternativas limpas que sejam viáveis para a competição e que cumpram o objetivo de ter uma prova descarbonizada já dentro de quatro anos.
"Avançamos pouco a pouco na transição energética. Não é muito fácil, para dizer a verdade. Temos algumas complicações mas estamos a fazer progressos com algumas equipas, como com a Toyota, que usa carburante da Repsol, ou a Dacia, que está com um carburante sintético. Esperamos chegar, em 2030, ao objetivo de toda a caravana do Dakar usar um combustível mais limpo do que o que usamos hoje", admite.
A busca por soluções para uma prova menos poluente começou em 2020 mas, seis anos volvidos, muitas das ideias já ficaram pelo caminho.
"A verdade é que começámos em 2020 com muitas ideias. Mas vimos, tal como os Governos, que as coisas não são assim tão fáceis. Tentámos a solução elétrica, o hidrogénio, os híbridos e nada dessas soluções são realmente capazes, hoje, de fazer um Dakar. Fizemos uma categoria paralela para adaptar a competição à categoria e não o contrário, porque não é possível. Significa que estes novos meios de mobilidade não estão prontos", sublinha Castera.
O antigo piloto francês, que dirige o Dakar desde 2019, recorda os "projetos com hidrogénio e eletricidade" na competição paralela, o Dakar Future 1000 Mission, mas que ainda não estão prontos. Por isso, o caminho será com a utilização de biocombustíveis.
"O primeiro passo é utilizarmos biocarburantes, pois os sintéticos são muito caros e seria impossível de utilizar numa caravana destas dimensões", aponta.
Desde 2022, a organização tem estabelecida uma parceria com a petrolífera Repsol para o desenvolvimento de um biocombustível, como o que o português João Ferreira utilizou em 2025.
"Já há alguns carros que competem com esses combustíveis e ganham. Ao nível de desempenho não vai mudar nada. O mais complicado para nós é a logística. Aqui [Arábia Saudita] não existe esse tipo de carburante, é preciso fabricá-lo em quantidades enormes. Estamos a ver em que categoria os vamos a utilizar para, depois, democratizarmos a sua utilização", precisa David Castera.
Depois de competir, em 2025, com um veículo a diesel, que utilizava um combustível 100 por cento renovável, o português João Ferreira passou, este ano, para um veículo a gasolina, que é 70 por cento renovável, fornecido pela petrolífera espanhol Repsol.
"Temos 30 mil litros deste combustível para as equipas, o que ajuda a descarbonizar a corrida", explicou Rita Pacheco, responsável de comunicação da Repsol portuguesa à agência Lusa.
Além de João Ferreira, também o norte-americano Seth Quintero, o sul-africano Henk Lategan e o australiano Toby Price utilizam este combustível, "feito de matéria orgânica, de desperdícios alimentares, agropecuários, óleos alimentares usados".
Rita Pacheco sublinha que "em termos de prestações, não há diferenças", acrescentando: "A molécula é a mesma. Uma é feita de resíduos e outra por um processo natural que demora milhares de anos [oriunda do petróleo]".
A mesma responsável acredita que "este é o caminho, mais rápido e imediato", para a descarbonização.
"Temos as infraestruturas e os carros de combustão. Não é preciso alterar o tipo de motorização. Faz parte de uma composição energética que é necessária", disse.
Mesmo a sua democratização para a utilização no dia a dia "é uma questão de a legislação ser adaptada às exigências dos nossos tempos e à tecnologia já existente".
"Permite-se manter os mesmos hábitos, alterando apenas o tipo de combustível, para um mais amigo do ambiente, que reduz até 90 por cento as emissões quando comparado com os combustíveis tradicionais, sem afetar a performance como se vê pela competição. Se é possível no deserto, é possível no dia a dia dos consumidores", sublinha.
*** A Lusa viajou para a Arábia Saudita a convite da Repsol ***
Por Lusa