A discussão que o tema wrestling gera é, por vezes, descabida. De um lado estão os amantes do espectáculo, que por entre alguma vergonha e dúvida, garantem gostar de acompanhar a “novela” gerida pela World Wrestling Entertainment. Do outro, estão os aqueles que se indignam por existirem pessoas, principalmente adultos, que gostam de um “espectáculo que não é desporto” e que passa valores negativos como a violência. Para além disso, estes últimos arrogam-se no direito de apontar o dedo… E, como sabemos, apontar é feio!
Com tanta discussão sobre temas prementes, parece-me que a ampla querela entre pessoas que amam e pessoas que odeiam o wrestling é, no mínimo, escusada. Existem aqueles que gostam de assistir a documentários sobre a vida selvagem e outros que gostam de ver um bom filme. E, aqui entre nós, nunca vi nenhum cachopo entrar pela sala de estar da avó e gritar a plenos pulmões: “Olha lá avó, desliga essa porcaria, não sabes que a Marineide vai casar com o Dudu? Tá tudo combinado. No último episódio, na cena do casamento, eles vão ser interrompidos pelo cafajeste do Murillo, mas vão ser felizes…”
Já toda a gente entendeu que o wrestling não é desporto. É um espectáculo com uma grande componente artística, que leva os lutadores aos limites do que o corpo humano é capaz de fazer, com riscos de lesão e de vida sempre presentes. É um espectáculo que faz da luta entre o bem e o mal a sua base, com intrigas bem escritas, bem renovadas e muito bem vendidas como produto comercial que são. So what? Quem gosta continuará a ver e a acompanhar todas as incidências da trama, enquanto os que não gostam vão continuar a garantir que é algo “para putos” e que “não interessa a ninguém”. E assim continuaremos, em democracia e pluralidade.
Para terminar resta deixar uma “facadinha” (já que estamos no wrestling, uma faca de borracha…) aqueles que ficam mesmo possessos quando alguém defende o wrestling: em algumas modalidades desportivas, existem momentos em que gostaríamos que as nossas crianças fossem mais fãs de wrestling. Quando alguém no hóquei dá uma sticada na cabeça de outro voluntariamente, quando depois de ver um vermelho um futebolista cospe na cara do árbitro ou quando para vencer a última tirada de uma clássica, um ciclista se carrega de doping para alcançar o sucesso. Nestes momentos, seria bem melhor que alguém dissesse “corta” e os problemas ficavam por ali. Afinal era tudo a brincar…
É forte, tem a componente da violência em destaque, mas não é certamente por assistir a uns combates de wrestling que uma criança ser vai tornar um serial killer e entrar de G3 numa escola. Se o mesmo miúdo se entretiver a assistir ao Telejornal todos os dias já não ponho a mão no fogo…