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Para os leitores do Record compreenderem esta crónica tenho de recuar uns bons anos. Uns 17 anos para ser exato, pois foi em 1993 que escalei a minha primeira montanha de mais de 8.000 m. Foi o monte Cho Oyu de 8.201 m e desde então a minha vida mudava tremendamente. Tudo à minha volta girava en torno do Mundo das Montanhas, das mais altas do Mundo. Porquê? Porque sim, adoro a perceção do "meu Mundo" visto lá do alto!
Em 2005 tinha escalado com sucesso 6 destes 14 gigantes de mais de 8.000 m de altitude. No fundo tinha um desejo pequenino e uma esperança enorme de que conseguia realizar um feito inédito para Portugal mas progredia lentamente... Tinha demorado 12 anos para escalar 6 montanhas e, a este ritmo, demoraria outros tantos anos para completar a lista que nessa altura apenas 6 pessoas no Mundo tinham conseguido (hoje apenas 9!)
Sendo estas ascensões bastante exigentes e sendo o relógio biológico de um atleta como o das senhoras, há certas coisas que tem de ser realizadas nos "timings" certos e eu via o meu tempo a esgotar-se. Decido que necessitava de acelarar este meu projeto das 14x8.000 sem O2 e foi aí que surge o Millennium BCP como parceiro do projeto a apostar no "A conquista dos picos do Mundo".
Sendo o Annapurna I a 14.ª montanha que necessito para completer o projeto, chamei a esta crónica o "Princípio do fim". Não quero ser dramático mas a verdade é que para se poder continuar com outros projetos, temos de terminar os que temos em mãos para que, como diz o poeta, "quando atingirmos o horizonte dos nossos sonhos, aparecer-nos outro horizonte ao fundo". E é apenas isso que me está a acontecer.
O Annapurna com os seus 8.091 m foi o primeiro monte de mais de 8.000 m a ser escalado pelo homem há 60 anos. É uma montanha muito perigosa, de maneira que a primeira fase desta expedição, que é de adaptar o organismo à altitude extrema, foi realizada no monte Pumori, que já escalei no passado e que está junto ao inspirador Monte Evereste. Faço um cálculo por alto e em mais de 30 vindas ao Nepal, já passei cerca de 2 anos da minha vida neste país maravilhoso. Regresso assim ao Vale do Khumbo com gosto e revejo velhos amigos. Agora vejo este vale com mais coração pois já faz parte da minha vida.
Estou neste momento em Kathmandu a escrever esta crónica e no momento que a lerem terei voado para os 4. 300 m do Acampamento base do Annapurna I para juntar-me ao jornalista e amigo Aurélio Faria responsável da cobertura televisiva e on-line.
Entretanto, muita coisa passou mas, sabem, continuo a sentir-me o mesmo. A sociedade por vezes dá mais valor ao embrulho do que ao conteúdo, de maneira que tive de passar da paixão ao profissionalismo... Mas se me perguntarem, acho que continuo a ser o mesmo. Um apaixonado das ascensões às mais altas Montanhas do Mundo, conquistas gigantes para este meu pequeno Mundo !