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Polo Aquático Português no contexto internacional – Parte I

• Foto: Federação Portuguesa de Natação

Num momento importante de definição do desenvolvimento futuro do polo aquático nacional, impunha-se falar com protagonistas com experiência internacional e com uma "visão fora para dentro". Foi um prazer estar…

À conversa com Rui Moreira

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Há 8 anos a viver, treinar e jogar na Dinamarca, falei com o Rui Moreira, muito justamente um dos nomes da história do Polo Aquático português. Queria ouvir quem tem muitos anos não só a jogar, mas também a refletir estrategicamente sobre o futuro desta modalidade. Foi fácil. Bastou perguntar "Rui, como é que vês o actual momento do Polo em Portugal e como achas que se deve pensar estrategicamente o futuro desta modalidade?"… Bom, o resto foi uma boa e produtiva conversa.

Rui Moreira: "Em primeiro lugar importa precisar o actual momento do Polo Aquático do ponto de vista da formação. Tal como no passado, existem poucos  clubes que apostam na formação de raiz. Uma criança com 4 a 8 anos inicia-se nas escolas de natação dos clubes onde aprende o básico e essencial para praticar os quatro estilos de natação. Quer isto dizer que a natação é a única modalidade que lhes é apresentada. A título de exemplo, nesta fase deveria iniciar-se desde logo o desenvolvimento das capacidade motoras, como saltos, etc. Esta ausência acontece sobretudo porque a escolha inicial não é entre natação, polo, saltos ou artística. Não há escolha. Só há natação. É mais tarde que é tomada a decisão de ponderar o polo. Quando acontece, a sensação que prevalece é que os praticantes de polo são "os restos da natação". Acredito que este paradigma esteja a mudar, mas é uma questão de mentalidade. No limite não é culpa de ninguém, é apenas o modo como os clubes estão estruturados e organizados, sem alguém que pense em Polo Aquático. Mas, sendo um problema antigo é um problema que tem que ser pensado e resolvido.

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Em segundo lugar é preciso perceber que a história recente de sucesso do Polo Aquático, nomeadamente masculino, é ainda o resultado do trabalho desenvolvido há muitos anos. Então, o Salgueiros foi o clube pioneiro em levar a equipa a competir nas competições oficiais da LEN (Champions League  e Len Cup) e, num trabalho desenvolvido em conjunto com a Associação Natação do Porto que tinha como Director Técnico o Nuno Mariani, que também era o treinador do Salgueiros, organizou o Primeiro Torneio Internacional ANNP. De igual modo, o Salgueiros apostou em marcar presença em torneios internacionais em vários escalões o que permitiu que atletas como eu e outros tivessem a oportunidade de desenvolverem o seu talento com experiências ao mais alto nível. Em 1994, a FPN contratou o Lajos como selecionador nacional, que chegou com muita ambição e que foi o maior responsável da nossa evolução em termos técnicos e tácticos. Todo este conjunto de pessoas a remar  na mesma direção impulsionaram o polo aquático naquela altura. Mas atenção não foi só o Salgueiros, já que logo a seguir, o CPN, o Portinado, o CNAmadora, o Paredes fizeram o mesmo. E, de repente, um leque mais ou menos alargado de atletas tiveram uma enorme oportunidade e o Polo Aquático teve um boom de praticantes de talento! Quando vejo jogos actualmente do campeonato português, percebo a falta que muitos dos jovens têm dessa experiência. O talento não chega. A experiência e contacto com formações mais evoluídas é indispensável. Absolutamente.

Em termos comparativos é preciso perceber que o Polo Aquático está muito mais presente na cultura desportiva de outros países comparando com Portugal. É por isso que não sei se o caminho é copiar o modelo de outros países. Acho que se deve pensar num modelo próprio para Portugal, tendo em conta as especificidades da nossa realidade. Atente-se no caso da selecção feminina que disputou recentemente o apuramento para o Europeu. Do primeiro para o terceiro jogo, cresceu a olhos vistos a qualidade de jogo daquele grupo de trabalho! Viu-se todo o potencial e talento delas. Agora, a questão é… e se tivessem tido mais tempo, jogos treinos, experiência de contacto internacional, o que teria acontecido? Certamente teriam feito ainda mais… e quem sabe, teriam conseguido o apuramento. Ora, este desenvolvimento  só será possível com um plano estruturado no mínimo a 2 anos que permita a este grupo o desenvolvimento competitivo indispensável. Vou mais longe na proposta, acho que se impõe a criação de centros de estágio de alto rendimento (um a Sul e outro a Norte), onde regularmente as selecções femininas e masculinas consigam juntar cerca de 30 atletas que possam trabalhar regularmente para planear um ciclo de qualificação que permita não apenas a qualificação, mas também disputar com alguns países o resultado e mostrar a qualidade do polo aquático português. O que tem acontecido é que o planeamento de uma qualificação parece depender das probabilidades de apuramento tendo em conta o sorteio dos adversários. A selecção senior masculina tem talento potencial, mas é visível que lhes falta experiência, plano estratégico e trabalho correspondente. Neste últimos três anos, outros países continuaram o seu plano estratégico e no nosso caso houve estagnação. Na verdade fomos ultrapassados por algumas selecções que não são mais talentosas do que Portugal. Ainda vamos a tempo de corrigir.

Sinto por vezes que há alguma falta de sensibilidade por parte da Federação para questões laterais, mas que são relevantes. Dou um exemplo. O curso de formação de treinadores de nível de elite no caso do Andebol tem um custo estimado de 500 euros e uma duração prevista de um ano, valor que inclui várias rubricas. No caso do polo, o custo é quase o dobro. Faz sentido? Se queremos estimular a modalidade necessitamos de mais treinadores com formação correspondente, logo temos que aliciar potenciais interessados com condições mais estimulantes. O Polo Aquático não se compara com o andebol, modalidade profissional. É um exemplo e já agora fica a sugestão para se rever o tema.

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Sejas como for e para terminar, deixo uma nota de esperança. Se atentarmos, constata-se que alguns clubes estão a "mexer-se de novo". Há técnicos estrangeiros, há planeamento, há aposta efectiva no polo masculino e feminino. Esta aposta dos clubes precisa de ser acompanhada pela Federação. Este parece ser um bom momento para se criar uma cultura de entreajuda, confiança e visão estratégica. Se o fizermos, seremos certamente bem sucedidos. Talento não falta!"

À conversa com Rui Ramos

Já aqui falei de Rui Ramos, jogador do Vitória de Guimarães, melhor marcador do campeonato nacional e um dos melhores praticantes portugueses de polo aquático da actualidade. Antes de ingressar no Vitória, o Rui viveu a experiência de jogar em Espanha. Pedi-lhe que descrevesse essa experiência e o quanto ela teve impacto na sua evolução como jogador. Pedi-lhe também que fizesse uma análise comparativa das condições de treino e desenvolvimento entre Portugal e Espanha. Rui Ramos: "O ano em que estive a jogar fora foi muito bom a nível pessoal. Sinto que evoluí como jogador e como pessoa. Era um sonho jogar em Espanha, há muito mais competição, muitos mais clubes, muito mais nível de exigência. Desde os Jogos Olímpicos de Barcelona que Espanha têm vindo a ser uma das maiores potências mundiais de Polo aquático e é evidente que Portugal tem muito que aprender com o nosso país vizinho. Na verdade, nós, portugueses, não somos diferentes dos espanhóis fisicamente, e se eles conseguem competir com Hungria, Sérvia ou Croácia, porque é que nós não conseguimos? O que eu percebi em Espanha é desde muito jovens que os atletas têm condições de treino e de desenvolvimento invejáveis, protocolos com as escolas para ser possível fazer dupla sessão diária de treino, centros de alto rendimento, em suma, outro nível de apoio, acompanhamento e desenvolvimento. Estamos a falar de 4 a 5h de treino diária, com ginásio incluído. A transição da formação para seniores faz-se de forma gradual e natural, sendo que com 14 ou 15 anos, os atletas começam a ser incluídos nos treinos. De igual modo, há treinos personalizados de guarda-redes e de jogadores de campo. Uma das diferenças que senti mais foi nos horários de treino, como por exemplo treinar às 12:00h ou as 14:00h. Enquanto que, em Portugal, treina-se com más condições, maus horários de treino, sem apoio para a formação, em resumo, torna-se muito difícil evoluir como nos outros países. Será impossível, vamos a isto?"

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Por António Gomes
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