Guerra fria no xadrez: Duelo entre gerações está ao rubro e já ceifou uma vida

Duelo de gerações no xadrez com polémica intensa

A modernidade que nos ofereceu as redes sociais e um verdadeiro ‘renascimento’ digital trouxe consigo uma velocidade inusitada. Diariamente vemos aparecer, como cogumelos, centenas de novos influenciadores digitais, das mais diversas áreas, que acumulam milhares e milhões de seguidores, ávidos de descobrir as mais recentes novidades e as mais recentes temáticas.

Sem corrermos o risco de sermos apelidados ‘Velhos do Restelo’, nós que já cá andamos há umas décadas, é fácil entender que atualmente tudo é mais fácil em termos mediáticos. Futebolistas de menor dimensão acumulam ‘likes’ e ‘visualizações’ nunca antes vistas, projetos musicais conseguem atingir o Olimpo sem nunca ter assinado um contrato discográfico e qualquer pessoa, mesmo qualquer uma, consegue com um telemóvel e uma ligação à internet fazer magia e dominar as redes como nunca antes foi possível.

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E o que interessa isto quando o mote deste artigo é falar de xadrez? Porque o milenar jogo mudou o seu rosto de forma absoluta com o surgimento da internet e, especialmente, com o apogeu das redes sociais. Pegamos num exemplo destacado recentemente pelos camaradas do popular New York Times para efetivar esta teoria.

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Pia Cramling ganhou tudo mas a filha tem milhões…

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A xadrezista sueca Pia Cramling, agora com 62 anos, foi uma das primeiras mulheres a receber a coroação como Grande Mestre e tem um currículo invejável. De resto, basta um olhar rápido para a página da Wikipedia da nórdica para entender que, como muitas vezes utilizamos no ‘futebolês’, ganhou tudo o que havia para ganhar ao longo da carreira.

Contudo, atualmente, a xadrezista é destacada por aparecer diversas vezes nos vídeos em direto que a filha Anna, também jogadora de xadrez, faz em diversas plataformas de streaming. A jovem de 23 anos, presente em todas as redes sociais, tem 1,6 milhões de subscritores no YouTube e acaba por ser mais ‘famosa’ do que a mãe, apesar de nunca ter sequer sonhado com a possibilidade de fazer metade do que a progenitora fez na sua titulada carreira.

Duelo de gerações no xadrez causa polémica e tensão
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"Para mim é muito estranho pensar que ela tem uma história incrível ao longo da sua carreira, mas agora é conhecida por aparecer no meu canal. Ela é uma celebridade com uma popularidade enorme e com números que nunca tinha antes conseguido, apesar de tudo aquilo que fez ", revelou Anna Cramling ao NY Times.

Noutros tempos o xadrez era visto como uma modalidade séria, reservada às mentes mais brilhantes e que viviva no seio de uma solenidade quase absurda e que muitas vezes era até comparada à religião, tal a forma como todos os preceitos deviam ser atendidos, fosse durante uma partida ou até na forma como os jogos eram comunicados ao mundo. Mas agora tudo mudou… Os principais protagonistas, com Magnus Carlsen à cabeça, tornaram-se estrelas rock, com milhões de seguidores, têm patrocínios luxuosos e vivem muitas vezes uma vida que antigamente estava destinada às grandes figuras de Hollywood, por entre jatos, destinos paradisíacos e muitos ‘flashes’ da Comunicação Social.

A tensão abala o mundo do xadrez
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Mas quando é que esta mudança de mentalidade e de forma de estar aconteceu? Parece a pergunta do milhão de euros mas nem é. Porque a resposta é simples e efetivada dentro da comunidade xadrezista como uma verdade absoluta – a pandemia de 2020. Foi nessa altura que milhões de pessoas foram obrigadas a permanecer dentro de casa e tiveram assim tempo de sobra para descobrir ou redescobrir o jogo. Pelo meio, a bombástica série "The Queen's Gambit", da Netflix, que em português ficou denominada… ‘Gambito de Dama’, foi lançada e motivou que outros tantos milhões se aproximassem dos tabuleiros.

Foi a tempestade perfeita para que surgisse um renovado (e aguçado) interesse pelo xadrez e que mudou defintivamente o rosto da modalidade à escala global. O antiga solenidade foi substituída por um estilo moderno, onde há espaço para mais sorrisos, música, parcerias com marcas da moda e uma forma de estar no universo digital que é um novo paradigma de comunicação.

E assim começaram a mediatizar-se nomes como Cramling, Alexandra e Andrea Botez ou Levy Rozman, que diariamente atraem agora milhões de espectadores para os respetivos canais. Imaginem ter esta conversa há 20 anos – “Um dia vamos estar ligados nas nossas casas a ver jogos de xadrez através da internet e, se for preciso, vamos pagar para ter acesso a esse conteúdo.” Muita gente ia soltar uma gargalhada…

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Duelo de gerações no xadrez acende polémica e rivalidade intensa

"Estão a trazer a riqueza, a magia e a história do xadrez para o novo mundo. E estão a dinamizar a compreensão do jogo, bem como alguma da cultura meme, do humor e até do contexto que envolve a comunidade do xadrez. É um modelo rápido, perspicaz e divertido e que tornou muito mais agradável ver xadrez como consumidor ", destaca Erik Allebest, Diretor Executivo do site ‘Chess.com’.

O retorno financeiro também é inimaginável e faz com que grande parte destes influenciadores digitais de xadrez consigam ganhar muito mais dinheiro através das plataformas online do que os verdadeiros praticantes ganham nos grandes torneios em que participam. Só para termos uma ideia mais direta, basta entender que todos os prémios monetários conquistados por Pia Cramling ao longo da carreira não dão para chegar a dois anos de ganhos da filha Anna no YouTube. Incrível mas verdadeiro…

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"É bastante óbvio que eles têm ciúmes e inveja daqueles que estão a popularizar o jogo em termos de números e que não são, definitivamente, os melhores jogadores de xadrez. Vêem isso como uma injustiça", disse Levy Rozman, conhecido nas redes como ‘GothamChess’ e que é mestre internacional, criador de conteúdo, comentador e autor de livros sobre a temática.

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Conversa séria e discussões levadas ao limite

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E esta guerra de gerações, ou de formas de olhar para a modalidade, está longe de ser um arrufo de namorados ou um detalhe do grande universo dos xadrez. É uma discussão séria, que está no centro de todas as atenções e que há três meses ganhou renovada importância, depois da infeliz morte de Daniel Naroditsky, uma jovem estrela do universo do xadrez online, de 29 anos, que se tornou alvo de críticas de um dos jogadores mais respeitados do jogo - Vladimir Kramnik, de 50 anos, grande mestre russo e antigo campeão mundial.

Inicialmente, a hipótese de suícidio esteve em cima da mesa e muitos apontaram as polémicas entre as duas gerações do xadrez como base para este óbito. No presente mês de janeiro, um relatório toxicológico do Gabinete do Médico Legista da Carolina do Norte revelou que Naroditsky tinha metanfetaminas, anfetaminas, mitragina e 7-hidroximitragina no seu sistema quando faleceu.

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Naroditsky era um influenciador de xadrez estabelecido, redator de uma coluna de xadrez no ‘The New York Times’, que aproveitou a pandemia para começar a fazer streaming a tempo inteiro. Tinha 340 mil seguidores no Twitch e 515 subscritores no YouTube quando morreu.  Sentiu a sua reputação ameaçada pelas ações de Kramnik, que o acusava de enganar os seguidores. Peter Giannatos, fundador do Charlotte Chess Center, na Carolina do Norte, comentou o assunto: “Naroditsky conseguiu manter uma carreira fora do tabuleiro de xadrez. Fê-lo através de comentários e conteúdos.”

Até ao dia em que Naroditsky foi acusado por Kramnik de utilizar um motor de xadrez para fazer batota. E essas alegações estavam a "comê-lo vivo", uma vez que surgiam na boca de uma das figuras mais respeitadas do meio.

Guerra fria no xadrez abala modalidade e gera polémica intensa
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"Decidi deixar de jogar no chess.com a partir de amanhã. Há aqui demasiados batoteiros óbvios e nada é feito para limpar a plataforma desses pequenos vigaristas. Palavras duras mas verdadeiras”, explicou publicamente para toda a comunidade ouvir.

A morte do jovem xadrezista, numa altura em que toda esta polémica estava bem viva, faz com que atualmente se viva um ambiente de guerra fria no seio da comunidade, como milhares a defenderem a nova forma de partilhar a cultura xadrezística e do outro aqueles que preferem que tudo se mantenha como outrora.

Polémica intensa abala xadrez: duelo entre gerações
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Modernização da modalidade é essencial

E apesar desta rivalidade há algo em que todos estão de acordo – a modernização da modalidade é essencial, mesmo no presencial. A Liga Global de Xadrez, organizada em parte pela FIDE, foi lançada em 2023 com um formato baseado em equipas, equipas mistas e interação com os adeptos, precisamente com esse objetivo.

"A nossa ambição é fazer com que uma família se possa sentar junta à noite, depois do jantar, e ver apenas meia hora", disse Peeyush Dubey, presidente da liga.

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Magnus Carlsen, o pentacampeão mundial e a maior estrela do jogo, também ajudou a lançar uma liga, a Freestyle Chess Grand Slam Tour. Em dezembro, Carlsen venceu os campeonatos de Rápido e Blitz em Doha, no Qatar, onde estiveram presentes cerca de 400 dos melhores jogadores do mundo.

O xadrez tradicional e o xadrez online não têm necessariamente de se fundir, afirmou Arkady Dvorkovich, presidente da FIDE: "Não tenho a certeza se vamos governar o mundo do xadrez digital, uma vez que as empresas privadas o fazem de uma forma positiva. A comunidade do xadrez poderia fazer um favor a si própria se tentasse unir-se, mas infelizmente parece que, na minha opinião, os grupos tradicionais estão menos dispostos a conformar-se e a juntar-se."

Duelo no xadrez abalado por polémica intensa
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O caso português: Falámos com quem sabe…

O xadrez teve a sua estreia no Campeonato do Mundo de Esports em 2025. Na Arábia Saudita, mais precisamente em Riade, os concorrentes reuniram-se... mas cada um jogou as eliminatórias no próprio computador. Das antevisões à ‘walk of shame’ dos perdedores, tudo foi pensado como um autêntico espetáculo mediático para o público e, claro está, transmitido mundialmente.  

António Fróis foi um dos especialistas envolvidos no relato português deste impactante Campeonato do Mundo. Nos últimos 42 anos conseguiu o que era, para muitos, impossível: viver do xadrez. Ao Record, conta que, pela envolvência física, prefere estar à frente do tabuleiro (à moda antiga, se é que a transformação digital já chegou ao ponto de podermos aplicar esta expressão). No entanto, realça que a maneira clássica não tira valor ao que agora é possível alcançar no mundo digital: “Ninguém quer ver aquela maneira lenta de jogar. Os jogos com quatro ou cinco horas são bonitos e profundos, mas quem é que quer ver uma pessoa a pensar meia hora enquanto olha para uma peça? (...) O online tornou tudo mais fácil, mas também mais pobre do ponto de vista emocional.”

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Homem posa junto ao logo do Record, num escritório com computadores

Ainda assim, não fica indiferente à exposição e à acessibilidade que o digital arrecadou para um jogo de tabuleiro que parecia ser reservado para uma elite intelectual. "É tão fácil como entrar num site agora e perceber que há centenas de pessoas a jogar xadrez ao mesmo tempo. E daqui a meia hora estão lá outras centenas”, afirma António Fróis, sublinhando que a digitalização ajudou a descosntruir uma ideia de chatice e aborrecimento a que o xadrez parecia estar socialmente condenado. 

As streams também levam muito desse mérito. Em Portugal, o assunto ainda é fresco, mas o Record falou com Luís Sousa Soares, treinador de xadrez a tempo inteiro e um um dos que por cá já recorreu às redes sociais para elevar o xadrez ao nível do gaming. Soma mais de 10 mil subscritores no seu canal de Youtube – ‘Xadrez de Ataque’.  

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Viveu a sua vida toda em São Miguel, nos Açores, no meio do nada e no meio de tudo, como diz. Rodeado de mar, depressa percebeu que viver na ilha significava ter poucos adversários para encarar no xadrez, que começou a praticar aos 16 anos. Depois de muito jogar sozinho (e perder quase sempre para as peças pretas, que também eram as suas) descobriu aquilo que, para si, foi "o mundo lá fora”.

Homem sorri com troféus e jogo de xadrez ao fundo

Os primeiros sites rudimentares de xadrez, nos quais podia defrontar jogadores de todo o mundo no tabuleiro de duas dimensões. E apesar de não haver a componente física, (sem acusar a pressão de estarmos cara-a-cara com o nosso adversário durante três horas) Luís não tem dúvidas - diz mesmo ter certezas – de que se não fosse a modernização do xadrez, seria um jogador muito mais fraco do que aquele que é hoje. A ajuda da engine (a que chamamos de forma corriqueira ‘o computador’) permitiu ao xadrezista maximizar capacidades, tanto suas como dos seus alunos. 

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Com a pandemia, Luís rendeu-se à Twitch. Criou a conta de streamer sem grandes expectativas, na esperança de que alguém quisesse vê-lo jogar umas partidas e quando viu que as lives de madrugada até corriam bem, passou para o Youtube, e deixou logo uma coisa esclarecida para quem ali quisesse aprender: “Não vão encontrar aqui um xadrez chato.” Foi aí que o seu conteúdo rebentou. Com dicas, desafios e muitos, muitos jogos, as interações dispararam e o público cresceu. Hoje os números provam-no como uma das referências nacionais de criação de conteúdo de xadrez.  “Consigo provar que não é realmente aquele desporto chato e macio que às vezes as pessoas querem que seja”, conta.

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“Não tenho dúvidas de que os grandes jogadores de antigamente tinham conhecimentos brutais de xadrez. Mas hoje em dia, com a quantidade de informação que está disponível, se uma pessoa tiver boa memória, é absurdo o nível que se pode atingir", destaca Luís, servindo-se do exemplo concreto de Faustino Oro, jogador argentino de 12 anos, conhecido como o ‘Messi do Xadrez’.

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Não é por acaso que os jogadores de topo mundial são cada vez mais jovens. As crianças têm desde muito cedo a oportunidade de jogar dezenas de partidas por dia e tornarem-se cada vez melhores. E um dia, de repente, batem um grande mestre. Imaginemos o caminho de torneios e campeonatos que o rapaz argentino teria de trilhar no jogo físico até ter a oportunidade de ficar frente-a-frente com um mestre, por exemplo, do Japão. Com o chess.com, isso está à distância de um login.

Autores: João Seixas e Beatriz Cardoso

Por João Seixas
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