A corda partiu e convenhamos que ninguém fez nada para obviar o desfecho lógico: a rutura entre o treinador Jorge Jesus e o “internacional” Ruben Amorim. O que pode significar, igualmente, que entre Luís Filipe Vieira e Jorge Jesus a mediação dos conflitos não se faz com eficácia. É um assunto que relança a discussão sobre a natureza e a qualidade das estruturas que gravitam entre o poder máximo presidencial e as equipas técnicas. E é um problema que está muito para além de questões de natureza pessoal e profissional. É um problema da estratégia de mercado do Benfica, da qual os jogadores portugueses são as primeiras vítimas.
À data da chegada de Ruben Amorim à Luz (estreia oficial em agosto de 2008), o Benfica já se encontrava mais virado para o mercado externo do que para o mercado interno. Na sua primeira época no Benfica, com Quique Flores, tinha Ruben Amorim 23 anos, o médio dos encarnados precisou de esperar três meses para realizar o primeiro jogo completo de águia ao peito, embora tenha sido utilizado 24 vezes como titular.
A entrada de Jorge Jesus no Benfica e o seu imediato sucesso, com Javi García, Ramires, Aimar e Di María a constituírem um miolo-base de luxo, tornaram as coisas mais difíceis para a afirmação de Amorim, que ainda assim contou com 24 presenças na Liga (14 como titular e 10 como suplente utilizado). Na época passada, começou por ser titular e fez parte do mau arranque do Benfica que comprometeu a temporada e, a partir daí, tudo se complicou, sobretudo a partir do momento em que o médio do Benfica teve de ser submetido (em janeiro deste ano) a uma intervenção cirúrgica aos dois joelhos.
Cinco meses de paragem e o reforço do plantel do Benfica com uma aposta muito forte no mercado internacional colocaram Amorim numa posição muito complicada, que se tornou motivo de maior inquietação por nos acharmos em ano de Europeu. O mesmo está a acontecer a Eduardo: quer jogar, mas a boa resposta de estrangeiros nas posições que poderiam ser ocupadas por Ruben Amorim e Eduardo fazem aumentar o aparente preconceito de Jorge Jesus em relação aos jogadores portugueses.
Não me parece haver nenhum preconceito (Nuno Gomes não é melhor do que Cardozo, Saviola, Aimar, Rodrigo e mesmo Nélson Oliveira; Ruben Amorim, em condições normais, não tira o lugar nem a Javi García, nem a Witsel, nem a Gaitán e, considerando o sistema tático de Jesus, não pode competir nem com Bruno César nem com Nolito; Artur agarrou a baliza do Benfica com... “mãos de ferro”!; há uma realidade estratégica que interessa questionar.
Ruben Amorim, bom jogador, entrou numa idade de “agora ou nunca”, merece respeito por isso, mas é acima de tudo vítima da atual estratégia do Benfica no mercado e da fraca proteção que o futebol português dá aos jogadores nacionais. A questão da mediação de um “conflito natural” poderia funcionar nestas circunstâncias, mas é aqui que a fragilidade de António Carraça choca não apenas com as personalidades “em compita” mas também com a realidade do próprio Benfica. Não basta querer; é preciso... poder.
NOTA – Aos portugueses de todas as cores clubísticas, um voto de... muita coragem para 2012!