E ra inevitável. O Sporting está a viver o seu momento de “acerto de contas”. Não é agradável, não é simpático, deixa muita gente nervosa, acredito que a actual presidência de Bruno de Carvalho não participe neste processo por “vingança” ou por força de sentimentos menos nobres, mas o “acerto de contas”, que vinha sendo adiado pelo grau de compromisso estabelecido por todos aqueles que se envolveram em lutas pelo poder nos últimos (largos) anos em Alvalade, obrigando o Sporting a gastar aquilo que não podia, tinha de ser feito. Ou melhor: tem de ser feito.
ÉGodinho Lopes, por ter sido o último presidente de uma certa linha de continuidade, quem está agora mais exposto, obrigado a utilizar um colete anti-balas. Godinho Lopes sabe que, quando avançou para a presidência do clube de Alvalade, não havia reunido as condições necessárias e suficientes para ajudar o Sporting a sair de uma dinâmica (auto)destruidora que outros dirigentes não se importaram de protagonizar. Desde logo, o resultado eleitoral. Mas também a certeza de que não se havia rodeado das pessoas certas para poder tomar decisões sem que a desconfiança e a permanente tentativa – acima do razoável – de influenciar essas decisões não estivessem sempre presentes.
Ouvimos agora Luís Duque queixar-se disso mesmo e só foi pena não ter identificado, claramente, os personagens. Acredito que, neste tempo de ajuste de contas, haja um número considerável de arrependidos. Entre omissões, esvaziamentos e condicionamentos, o Sporting viveu “tempos de horror”, no pós-Sousa Cintra. Por uma razão muito simples e objectiva, para além daquelas que são acessórias: o Sporting perdeu o seu último grande líder há quase 30 anos, quando – em 1986 – João Rocha deixou o clube de Alvalade. Dêem as voltas que quiserem e mesmo considerando as mudanças impostas pela evolução das sociedades e do Mundo, o Sporting nunca mais teve um presidente que tivesse o conhecimento e a sensibilidade suficientes para dominar o futebol. O Sporting teve empresários que sabiam de finança, da banca, construção civil, desta ou daquela área de negócio específica, mas nenhum percebia exactamente tudo o que se relacionava com a dimensão do balneário. Por isso, entregue a bitaites de toda a espécie e feitio, o Sporting errou tanto em contratações, em jogadores e treinadores, em flutuações de modelos de desenvolvimento do seu futebol. Houve uma fase em que se discutiu mais o património não desportivo do que atletas e técnicos. Esta é a principal contradição, eu diria trágica contradição, de quem tem como objecto do negócio rentabilizar o futebol, desportiva e financeiramente. Godinho Lopes foi levado pela enxurrada. Porque não estava nem tinha condições para liderar. Aliás, em redor das determinações e imposições da banca, a esta talvez interessasse que o Sporting não tivesse um líder. Porque só um não-líder poderia deixar que outros tomassem decisões em nome do Sporting. Descontando o exagero (pequeno), já se viu o Espírito Santo, num mar Salgado, exercer influência sobre as escolhas desportivas?
Quando Duque diz que, por dentro e por fora, toda a gente queria mandar no futebol do Sporting, isso pode soar a declaração “histórica” para alguns “freteiros”, habituados a descobrir sensação onde só existe repetição de divulgação de factos já conhecidos, mas o ex-dirigente leonino apenas veio confirmar aquilo que todos sabemos: o Sporting foi devassado, anos a fio, pela brigada do croquete, cada qual a reclamar o seu grau de protagonismo, vendendo “serviços” nalguns casos a um preço pornográfico. Bem sei que a inexistência de liquidez deu para tudo, até para promover as engenharias mais criativas. Mas o futebol em geral, e o Sporting em particular, têm de fazer marcha-atrás, porque – a não ser assim – não há mais caminho. Em despiques dialécticos, em forma de comunicado, pode haver sempre imprecisões, pequenas ou grandes. Sobretudo quando estão em causa comportamentos e formas de estar assaz diferentes. Entre silêncios e excessos, o importante é que se façam os acertos de contas (de forma literal, mas no bom sentido, estes sim históricos, devidamente contabilizados, para que não fiquem dúvidas sobre as figuras que levaram o Sporting à falência.
NOTA – Parecem existir dúvidas sobre as causas do estado a que o país chegou. Uma das causas tem a ver com duas coisas que li esta semana: uma dizia que o futebol é o espaço que serve para sermos imbecis. Outra colocava o signatário numa posição de máxima tolerância perante crimes de fraude fiscal. Dá para acreditar?!...
JARDIM DAS ESTRELAS (*****)
Não ao racismo!
Foi na época passada, à 20.ª jornada, no Nacional-Olhanense. Os adeptos locais entoaram cânticos racistas e a disciplina federativa agiu em conformidade, de acordo com aquilo que preceituam os regulamentos. Como consequência disso, o Nacional-Arouca deste domingo será realizada à porta fechada.
Não gosto de ver futebol sem público, mas a modalidade – pela sua força mediática – não pode deixar de defender alguns princípios que são úteis às sociedades.
Um reparo: sete meses para fechar um processo destes é demasiado. A justiça desportiva, associada ao futebol profissional, tem de ser mais célere.
O CACTO
Mundial no Qatar
O presidente da FIFA, Joseph Blatter, reconhece agora que a escolha do Qatar para a realização do Mundial, em 2022, pode ter sido um erro, por causa das altas temperaturas (a atingirem 50 graus) que se fazem sentir no Verão. Em 2011, falava-se da construção de estádios climatizados a 22 graus (‘Fan System’). Em autoestradas ‘double deck’. Em 12 novos estádios interligados por metro e corredores climatizados, com um sistema de infraestruturas inédito no Planeta.
Afinal, o que está a correr mal? A verdade é que se fala da possibilidade de se transferir o evento para o Inverno, comprometendo as competições que se realizam, nomeadamente, por toda a Europa.
O que faz o dinheiro...