Baía e Scolari: novela sem fim

Por ter estado em Malta com a Selecção no arranque da caminhada para o Mundial’2010, passei algo “ao lado” das declarações de Vítor Baía sobre Scolari. Vi apenas na internet o essencial das críticas e, mais tarde, algumas reacções, a maioria das quais de pessoas que não aprovaram o conteúdo ou o “timing” da intervenção do ex-guarda-redes.

Antes, confesso, também não li o livro do meu camarada José Carlos Freitas sobre a passagem de Scolari pelo futebol português. E não o fiz, assumo, porque o tema não me motiva por aí além e por considerar ser bastante improvável que algo na obra pudesse fazer mudar a minha opinião. Para mim, já o disse, Scolari é dono de um currículo de inquestionável valia (é pena não incluir o título de campeão europeu...), mas possui uma concepção futebolística com a qual não me identifico (modelo táctico demasiado rígido, substituições conservadoras, convocatórias sem atender ao momento dos jogadores, escasso trabalho de preparação dos jogos, desvalorização da observação “in loco” dos potenciais eleitos, etc, etc). E pior que isso, o agora técnico do Chelsea é alérgico à crítica, o que o leva, muitas vezes, a ter súbitos ataques de má disposição. Acreditar nas suas ideias não é errado, considerar que tem sempre razão e que todos os que não concordam com ele são pouco mais que ignorantes é que me incomoda. Adiante...

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Posso concordar com aqueles que defendem não ser este o momento adequado para Baía falar. Por ventura, talvez o devesse ter feito há mais tempo. Mas, sendo verdade, não seria também, nessa eventualidade, fácil atacar o agora dirigente acusando-o de desrespeitar as opções do seleccionador, prejudicar o espírito de equipa, criar pressão adicional aos guarda-redes convocados ou de estar a colocar os seus interesses à frente dos do País? Se bem me recordo, Baía chegou a ser acusado de tudo isto mais que uma vez. Sempre que, de forma frontal ou indirecta, frisou não entender a sua exclusão da Selecção.

E é precisamente a exclusão da Selecção que faço questão de voltar a debater. Por muitas teorias que possamos ter, Scolari ignorou sempre Baía por uma de duas razões: considerar que o guarda-redes não tinha valor suficiente ou devido à opinião desfavorável de terceiros.

Se a opção se deveu unicamente a questões de valia técnica, tal não abona nada a favor de um treinador afamado. Aceito, sem discussão, que Ricardo podia ser o eleito para número 1, da mesma forma que até é normal considerar que o titular devia ser Quim. Mas, daí a pretender sustentar que Baía não era, em 2004, um dos três melhores guarda-redes nacionais é um absurdo. Ninguém que perceba minimamente de futebol pode defender essa tese. Aliás, basta recordar os seus desempenhos na altura (bem como os títulos colectivos e individuais que conquistou) para se comprovar isso mesmo.

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Sobra a opção da opinião de terceiros, aquela que sempre me pareceu a verdadeira. Não sei se foi a Federação quem determinou que Baía (e outros...) não podia ser chamado, se foram alguns colegas que o vetaram ou se tudo isto esteve relacionado com as cíclicas querelas entre o técnico e o FC Porto e/ou Pinto da Costa. O que sei é que Scolari, quando chegou a Portugal, disse que não “emprenhava pelos ouvidos”, que decidia só pela sua cabeça. Ora, se assim fosse, como é que o treinador podia saber que Baía era um elemento nefasto se nunca o treinou, se jamais o chamou à Selecção?

E já agora, para concluir, lanço uma dúvida: se foram alguns jogadores a pressionar António Oliveira no sentido de colocar Baía a titular no Mundial’2002 (o que foi injusto), seria normal que, em 2004, acontecesse o inverso? Quem se der ao trabalho de comparar as duas listas, conclui que o núcleo duro era o mesmo e que, aquando do Europeu, ainda se notava uma presença mais significativa de companheiros (ou ex) de Baía no FC Porto. Não acredito que fossem eles a boicotá-lo. E se foram, não deixa de ser estranho Scolari ter aceite a sugestão. É que para além de garantir não ser influenciável, o brasileiro mandou às malvas a opinião de, por exemplo, Figo, Rui Costa e Pauleta quando estes se manifestaram publicamente contra a chamada de Deco...

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