“Empatifada” segundo Bruno

“Empatifada” segundo Bruno

Ficou na memória das pessoas uma célebre frase do presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, proferida há cerca de 10 anos, quando afirmou que era “mais importante ter lugares na Liga do que contratar bons jogadores”. Havia já nessa altura, assente no novo regime de supremacia do FC Porto no futebol português, a convicção de que o futebol não se resolve apenas nas quatro linhas e que existe uma preponderância muito grande daquilo que se passa fora delas. Vem agora Bruno de Carvalho dar uma achega, quando – a propósito da arbitragem de Duarte Gomes na Luz – vem falar de “alianças” (espúrias) e de fadas, confessando não acreditar nelas. De certeza que o “sistema” não treme de medo e talvez, até, lhe seja possível arrancar um sorriso.

O centro de poder mudou, entretanto, da Liga para a FPF, por via legislativa, e não foi por acaso que essa transição aconteceu apressadamente, com Fernando Gomes a mudar-se de armas e bagagens, da “Constituição”, no Porto, para a “Alexandre Herculano”, em Lisboa. Quase não deu para aquecer o lugar na Liga, onde o seu curto mandato de 18 meses apenas serviu para fazer campanha eleitoral para a FPF, a qual foi muito marcada por silêncios e omissões (o Sp. Braga-Benfica, das três falhas de energia, em Novembro de 2011, foi o momento mais alto do processo de hibernação...), mas, bem vistas as coisas, o trabalho de sapa já havia sido realizado por Hermínio Loureiro, que veio a acolher mais tarde nessa migração para a “Alexandre Herculano”, em Lisboa.

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O Sporting não meteu prego nem estopa. Porque na verdade a sua luta principal acontecia dentro de si próprio. E, prego por prego, a urgência era tirá-los do caixão, que já havia sido encomendado, não apenas pelas forças exógenas mas também pela péssima gestão desportiva e financeira que tomara conta do clube de Alvalade nos últimos (largos) anos.

Quando Bruno de Carvalho chegou à presidência do Sporting, a luta pelo poder estava ao rubro entre FC Porto e Benfica. Entre o FC Porto instalado, cuja “guerra” havia sido ganha por Pinto da Costa nos anos 90 (iniciada muito antes) aos encarnados (ou... “mouros”, para utilizar uma expressão muito cara à data pelos conquistadores) e o Benfica destronado, a tentar a todo o custo “virar o tabuleiro” a seu favor, sob a presidência de Luís Filipe Vieira.

Quer dizer: quando Bruno de Carvalho chegou à presidência do Sporting, em bom rigor já nem se poderia falar de um fenómeno de bipolarização, porque o panorama do futebol português já se encontrava polarizado pelo FC Porto. A bipolarização era reclamada pelo Benfica. E, nos raciocínios dos líderes do FC Porto e do Benfica, o Sporting já nem contava. Também por isso o crescimento do Sp. Braga foi muito bem visto por Pinto da Costa e Vieira, para quem o Sporting apenas tinha direito ao papel de... empata-fadas.

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Esta “empatifada” de Bruno de Carvalho após o Benfica-Sporting não é mais se não o reconhecimento de uma missão particularmente difícil que os leões têm pela frente. O presidente do Sporting deixou a entender que uma alegada “aliança” com o Benfica apenas teria como consequência nomeações e arbitragens como aquelas que Duarte Gomes protagonizou na Luz, depois de ter tido o impulso de cortar relações institucionais com o FC Porto.

Porque, na verdade, a FPF está tomada pelo FC Porto, embora sob forte pressão do Benfica, que utiliza para os devidos efeitos, ao nível das reivindicações, o apoio institucional dado a Fernando Gomes, no momento da sua cavalgada para a FPF (não esquecer que o Sporting clube e o Sporting SAD tinham posições diferentes sobre esta matéria, e quem perdeu foi Luís Duque em relação a Godinho Lopes).

O Sporting contestou o trabalho do árbitro (com erros, mas esses erros, noutros jogos, já beneficiaram está época os leões) quando, na realidade, deveria ter colocado o foco na natureza da nomeação. Está por esclarecer a razão das alegadas desnomeações de outros árbitros para o dérbi. O Sporting deveria ter exigido essas explicações. Porque estava “na cara” – como escrevi, aqui, em nota suplementar, há uma semana, antes do jogo – que a nomeação tinha tudo para provocar celeuma. Só quem acredita em fadas ou quem se confessa ofendido com aquilo a que chamam “teorias de conspiração” poderia achar inócua a opção de Vítor Pereira. Aliás, Vítor Pereira tem sido mestre na prossecução da política da troika futebolística (FIFA + UEFA + FPF): manter o equilíbrio de forças, em nome de um sistema caduco e ultrapassado. As migalhas distribuídas pelo halo da profissionalização são em si mesmas mais um devaneio sistémico: os fracos continuarão mais fracos; os fortes fortalecer-se-ão à custa das fraquezas infligidas.

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JARDIM DAS ESTRELAS
CR e... Messi!

A pantominice de Blatter desencadeou o movimento que Cristiano Ronaldo e a sua “máquina” pretendiam há muito: que alguns dos apoios envergonhados ao craque português, no sentido de o reconhecerem como o melhor jogador do Mundo, à frente de Messi, assumissem uma forma clara, massiva e indiscutível. Na semana que antecedeu a partida de ontem, na Luz, CR7 foi glorificado, inclusive por alguns dos seus colegas de Selecção. Finalmente! O golo de ontem “à ponta-de-lança” aconteceu com naturalidade.

O CACTO
Tráfico

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O penálti foi inventado no séc. 19, assim como o fora-de-jogo e as primeiras leis do futebol. É estranho que ninguém tenha atendido ao facto de a televisão ter tornado a modalidade num espectáculo que pode ser escrutinado por toda a gente. As leis do jogo não acompanharam a revolução tecnológica que domina a sociedade contemporânea. O “futebol televisivo” ganhou uma dimensão, ritmos e capacidade de fiscalização que as leis do jogo do século 19 não conseguem acompanhar. Que bárbara contradição! Faz algum sentido a discussão a partir da qual um jogador possa estar um a cinco centímetros em fora-de-jogo ou se, num lançamento de linha lateral, os pitons estão, ou não, em contacto com o relvado?

Façam leis do jogo para o século 21. Estas leis favorecem o tráfico de influências!

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