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Por mais que se queira fazê-lo, não é possível projectar o Benfica-FC Porto de amanhã sem considerar a forte carga psicológica que este jogo passou a contar em doses extra, a partir do momento em que Eusébio se “transferiu” para outra morada. O próprio Jorge Jesus, na conferência de imprensa de lançamento do clássico, adensou essa dúvida, confessando a sua dificuldade em decifrar o que vai na cabeça de cada jogador. Uma coisa é certa: a morte de Eusébio e o ambiente de comunhão benfiquista em torno da ideia de se honrar a memória do Pantera Negra aumentaram a responsabilidade dos jogadores encarnados, que em condições normais já tinham a obrigação de não falhar (outra vez) perante o adversário que passou a ser, nos últimos anos, a sua “besta negra” e a razão principal dos seus maiores pesadelos. Nesse sentido, a grande questão que se abate sobre o jogo da Luz passou a ser: como vai o Benfica, colectivamente, reagir perante esse acréscimo de pressão? Os jogadores vão soltar-se ou a carga de responsabilidade supletiva vai ter o condão de os bloquear psicologicamente, e, com isso, tolher-lhes os movimentos?
A questão também é válida para o FC Porto: o ambiente carregado de sentimento a dominar o Estádio da Luz vai inibir a equipa de Paulo Fonseca ou, pelo contrário, vai ressuscitar o “velho Porto” que, em situações potencialmente adversas, geria esses cenários a seu favor e, inclusive, a seu bel-prazer?
Eu diria que, em função das coordenadas que se colocam sobre este Benfica-FC Porto, o “velho Porto” faria desta situação aparentemente adversa a sua maior força. Não tenho dúvidas de que, no “velho Porto” – e aqui “velho Porto” significa o tempo de Pinto da Costa e a respectiva estrutura no auge... –, o “exército” passaria toda a semana a ser sujeito a uma terapia de choque, no sentido de se criar uma bolha colectiva capaz de rebentar no “panteão benfiquista”, em dia de prestar quiçá a maior homenagem de todas aquelas que já foram prestadas ao maior embaixador da nação encarnada – Eusébio.
Bem sei que, no passado não muito longínquo, eram os próprios adversários (lisboetas) que potenciavam a motivação do Porto em amplificar o seu ódio capital. Bem sei, também, que o vórtice desse tempo, pela repetição gerada ao longo de muitos anos, já não se forma com tanta facilidade e caiu em desuso, até porque o Benfica deixou de se afundar na sua própria armadilha. O FC Porto, hoje, também está diferente. Veja-se o que aconteceu no recente Sporting-FC Porto para a Taça da Liga: o Sporting vinha provocando o dragão até à medula e o dragão, em vez de abrir a boca e lançar sobre o leão o velho fogo de campeão, portou-se como um gatinho amansado. As coisas estão diferentes. O FC Porto, com Paulo Fonseca, não espelha a imagem criada por Pedroto e recriada por Pinto da Costa. Parece um FC Porto decrépito. Parece um FC Porto outra vez regional. Parece um FC Porto outra vez submisso. Parece (na atitude) um FC Porto regressado aos anos sessenta, quando o Benfica dominava o futebol português, com a concorrência do Sporting.
É também por isso que este Benfica-FC Porto reúne condições muito especiais, numa fase em que as duas equipas talvez tenham em comum o facto de atravessarem, cada qual, uma certa crise de identidade: o Benfica de Jorge Jesus perdeu aquele fulgor que o chegou a projectar como uma das equipas da Europa a jogar melhor futebol (em pressão alta e a um ritmo incomum); o FC Porto desviou-se da matriz táctico-estratégica que o havia atirado para um plano de excelência difícil de combater. Temos, portanto, no caso do Benfica, uma crise identidade mais conjuntural e, no caso do FC Porto, uma crise de identidade tendencialmente mais estrutural.
Significa isto que, neste momento, o maior adversário do Benfica pode ser o próprio Benfica, o mesmo acontecendo em relação ao FC Porto. Se cada uma das equipas não for capaz de resolver as suas questões mais íntimas, chamemos-lhe assim, até poderemos ter um clássico sensaborão e bloqueado. Esperemos que não. Poucas dúvidas restam, no entanto, no sentido em que este clássico será único na sua voltagem psicológica, não apenas porque Eusébio só há um e porque os clássicos, só por si, não necessitariam de mais nenhum factor-extra para serem jogos dominados pela carga emocional.
NOTA – Entre avanços e recuos, há detalhes que se mantêm inalterados: nas vésperas do clássico, o FC Porto noticia a renovação de Fernando no mesmo dia em que ficamos a saber que a saída de Rodrigo do Benfica está iminente. E, se for assim, a lesão do hispano-brasileiro até se pode considerar oportuna. Protege o interesse do clube comprador e pode acelerar a opção da ideia de jogo (dominante) ao 4x3x3, por parte de Jorge Jesus. Não deixa de ser curioso, igualmente, o timing das entrevistas de Vítor Pereira a explicar a Paulo Fonseca como deve fazer...
JARDIM DAS ESTRELAS
Coração de Vieira ****
O futebol tem um lado belo e estético, tem um lado bom, quando inspira sentimentos positivos como a partilha, a solidariedade, o bem-estar, a amizade e o respeito, mas tem um lado também muito mau, quando desperta o lado mais primário do homem, capaz de ser violento, maquiavélico, ingrato e perverso. Ninguém quer o futebol “bactereologicamente puro”, mas o futebol (em Portugal) tem de conquistar uma dimensão ética que, na verdade, nunca conheceu por força de quem dominou o dirigismo desportivo nos últimos 30 anos. Eusébio sempre mostrou um grande desportivismo e respeito pelos adversários. É esse legado que deveria mobilizar o dirigismo desportivo nos próximos anos. A começar já no Benfica-Porto de amanhã... Neste turbilhão de emoções e de aproveitamentos vários emergiu a figura do presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira: presente, com o coração a sangrar. Dizem que os verdadeiros líderes não têm coração. Então, prefiro os homens aos líderes.
O CACTO
Ridículo(s)!
Em sentido oposto, a dialéctica em torno da luta pelo melhor lugar no “ranking” dos... “amigos de Eusébio”. A luta pelo melhor posicionamento no sentido de quem sugeriu, em primeiro lugar, a ida para o Panteão. Que ridículo! Quando se sabe que alguns desses “amigos” muito contribuíram para a sua morte antecipada.