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Há mais Benfica com menos Jesus?

Há mais Benfica com menos Jesus?

No Benfica, porque se impôs rapidamente, conquistando o título, em 2010, Jesus andou nas nuvens. Pulou por cima de uma estrutura inoperante, sem liderança. Tornou-se “no” futebol do Benfica. Reinou a euforia e o estado de graça instalou-se. O tempo passou, o efeito da grande conquista foi desaparecendo, até se optar por deixar o corpo do treinador na Luz, mas (re)tirando-lhe a alma. É assim que se assiste agora ao esvaziamento de Jesus e, até, à representação do anti-Jesus. Porquê, Luís Filipe Vieira? Não teria sido tudo isto evitável?

Ésabido que, em Maio de 2009, Luís Filipe Vieira assumiu a contratação de Jorge Jesus, quando Quique Flores ainda se encontrava na Luz e Rui Costa em Roma, a assistir à final da Liga dos Campeões desse ano.

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Ofutebol do Benfica estava bloqueado, incapaz de se soltar de uma certa modorra e a contratação de Jorge Jesus era observada como um pontapé numa certa apatia e falta de rasgo.

Éverdade que, nesse ano de 2009, o Benfica tinha uma equipa, com excelentes jogadores. Mas também é verdade que Jesus deu-lhes uma dinâmica até então nunca vista, no campeonato português. Elogiei muito esse tipo de futebol (com Luisão, David Luiz, Coentrão, Javi García, Ramires, Di María, Aimar, Saviola e Cardozo como pedras angulares), porque o Benfica jogava em “pressão alta”, mostrando-se fortíssimo na recuperação da bola, com níveis de agressividade muito acima daqueles que vínhamos observando no campeonato português, e massacrava os adversários com um volume de futebol ofensivo de grandes proporções. Baptizei Jorge Jesus como “o mestre da pressão alta” e o “mestre da táctica”, porque ele finalmente conseguia transportar para o Benfica os exigentes padrões europeus que via serem utilizados nas grandes equipas europeias.

Ao cabo destes cinco anos de Jesus no Benfica, chego à conclusão que nem o Benfica nem o futebol português estavam preparados para esse tipo de futebol. É um futebol demasiado exigente para a cultura de facilitismo que está enraizada na bola indígena. Só com uma retaguarda à prova de bala seria possível estender no tempo um ciclo capaz de inviabilizar movimentos conducentes à “chicotada”. Por isso critiquei a má resolução do caso Cardozo. Quando o presidente Vieira decidiu “apostar” no paraguaio, não apenas estava a colocar em causa a inexpugnabilidade da liderança técnico-táctica de Jesus; estava a colocar em causa, fundamentalmente, a rigidez, os métodos e a relação estabelecida entre jogadores e treinador.

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Jorge Jesus levara para a Luz uma nova concepção de futebol, mas para a implantar, para desenraizar a que crescera nos últimos largos anos e para cimentar essa sua nova filosofia competitiva, tinha de ser bem entendido por todos e acompanhado, sem reservas, nessa mudança.

AJorge Jesus falta-lhe o verbo, a capacidade de ser irónico e a delicadeza dos gestos. Não é, por isso, um treinador consensual e há muita gente, dentro e fora do Benfica, que não tem paciência para tanta rudeza e “brutalidade”, inclusive alguns jogadores. Ele é um produto do “velho futebol”, mas teve a capacidade de não estagnar e de se actualizar. Pode não saber de física quântica; precisaria de rectificar alguns comportamentos, mas são muito poucos aqueles que sabem tanto de futebol, no plano táctico, como ele.

Foram a rapidez com que mudou o futebol do Benfica e os resultados que colocaram Jorge Jesus em estado de graça. De tal modo que, rapidamente, por força da ausência de estrutura e de uma liderança forte no futebol, granjeou um poder que nunca havia tido. Um poder que enfraqueceu à medida que os títulos foram para o Dragão, ao ponto de, hoje por hoje, haver – como dizer? – dois “projectos” no futebol do Benfica: aquele que estava na cabeça do treinador, no sentido de apostar em jogadores que lhe dessem garantias dentro do campo, independentemente de grandes construções conceptuais; outro, a pouco e pouco assumido por Vieira, segundo o qual o Benfica não deve estar tão dependente do treinador, assim a modos como acontece no FC Porto

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Jorge Jesus não é o mesmo, porque se sente amputado. As coisas já não são como ele quer. E isso é notório dentro do campo.

Os jogadores são os primeiros a sentir a força ou a fraqueza de quem os comanda. Respondem aos impulsos do treinador quando os sentem fortes; ouvem menos quando percebem que as coisas já não acontecem porque o treinador não manda. Quer dizer: Jorge Jesus já foi o centro de comando do futebol do Benfica. Esse centro de comando, hoje, está mitigado, mas o problema subsiste: ao fim destes anos todos, tendo delegado (poucos) poderes em José Veiga, Rui Costa e Carraça, Luís Filipe Vieira está finalmente preparado para ser o “presidente do futebol”?

A surpresa é que a resposta ainda não é líquida.

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NOTA – Também a Santa(na) Casa engrossa o pelotão daqueles que querem ver o presidente da Liga fora de jogo. Haja... misericórdia!

JARDIM DAS ESTRELAS
Cara de Jardim

Acredito na tese de que as equipas são a radiografia dos treinadores. Esta equipa do Sporting, serena, sólida, equilibrada, antivedeta, é a cara de Jardim. O treinador dos leões desafia quase todos os cânones e afirma-se no plano quase oposto da maioria dos emblemáticos treinadores portugueses: com total discrição e sobriedade. Um clube que corria risco de se extinguir, se continuasse na senda destrutiva dos últimos anos, cuja gestão vai ser finalmente auditada nos seus aspectos mais concretos, consegue em pouco tempo reabilitar-se através da equipa de futebol mais representativa. Chapeau!

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O CACTO
A mentira

Pior prestação de sempre das equipas portuguesas na fase de grupos das competições europeias: nenhum apuramento e apenas 5 vitórias em 30 jogos. Em época de final da Champions em Lisboa, na Luz, o sonho esfuma-se mais cedo do que se previa, com a eliminação de Benfica e FC Porto e a consequente queda na Liga Europa. Esta campanha serviu para alertar para as debilidades das equipas que disputam a Liga portuguesa (nível médio baixo), num ano em que Benfica e FC Porto ainda não se encontraram. São correntes as loas cantadas à qualidade da competição nacional, mas essa é a mentira que mais prejudica a evolução do futebol português: ritmo geralmente baixo, tácticas conservadoras, espectáculos de fraca atracção.

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