Jesus e o folclore

Jesus e o folclore

Salvo honrosas exceções, os políticos aparecem no futebol com "sentido de oportunidade" muito similar àquele que Cardozo evidenciou em Guimarães. Há quem chame oportunismo a essa pontuação política e, por isso, são legítimas as preocupações de Jorge Jesus quando dá a entender que – nas transições rápidas para o futebol – é preciso ter muito cuidado com quem já afundou o país.

Concordantes neste ponto, e com a autoridade de quem lutou durante anos a fio pela consagração do "jogador português", considero muito positivo o contributo que uma comissão criada pelo Governo está a dar na tentativa da proteção do "jogador português", cada vez mais confrontado com a inevitabilidade de emigrar, não apenas por questão financeiras "tout court", mas também por questões de afirmação desportiva.

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Esta polémica em redor do "jogador português" face ao "jogador estrangeiro" tem barbas. Muitos se esquecem que antes da produção de efeitos resultantes da aplicação do acórdão Bosman já esta discussão tinha lugar em Portugal, fustigado pela entrada desregulada de jogadores brasileiros, de primeira, segunda, terceira e quarta categorias.

Adesconsideração europeia que nutrem pelo nosso país, em razão das nossas fragilidades, só pode ser a razão pela qual ainda não foi suscitado qualquer reparo a sério ao estatuto de privilégio que Portugal goza em relação ao Brasil e que se reflete, visivelmente, no futebol. É uma concorrência desleal, que não faz nenhum sentido nos dias de hoje.

Não ter jogadores portugueses nas equipas principais, como acontece no Benfica e no FC Porto, e em muitos outros emblemas cá da paróquia, não é uma inevitabilidade. É uma opção muito clara. O problema é outro.

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Já se viu que o "jogador português", integrado em regimes de trabalho exigentes, joga e rende. Ninguém tem dúvidas, hoje, da sua qualidade. Se se pensar nos motivos através dos quais os clubes portugueses contraíram passivos na ordem das centenas de milhões de euros, nalguns casos com resultados desportivos, talvez se possa concluir que houve dinheiro muito mal gasto em contratações.

O"jogador português", se for bem pago em Portugal – e é possível, já se viu, pagar muito bons contratos no futebol português, a futebolistas e a treinadores – não quer jogar no estrangeiro. A menos que sejam oportunidades de topo. É, pois, uma questão de mentalidade. E é, também, um problema de atitude. Foram muitos anos de facilitismo, contrários às boas dinâmicas de trabalho e profissionalismo. E são muitos anos de corporativismo, a partir do qual o futebol tem muita dificuldade em refletir sobre os seus problemas (colocando-se à mercê de uma certa demagogia política, que ladra mas não morde).

Finalmente, a questão mais controversa e difícil: Portugal é um paraíso para os comissionistas. E enquanto for um paraíso para os comissionistas e para parceiros privilegiados, cujas operações financeiras não são fiscalizadas, temo muito que as portas continuem fechadas para os jogadores portugueses. O resto é folclore.

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