Acabou a pré-época, que no fundo é o momento do ano em que um futebolista de elite mais desfruta da sua profissão. No meu caso, este período fazia-me recordar a minha infância quando jogava com os meus amigos na rua ou na escola, porque não tens tanta pressão para ganhar jogos e a crítica é muito mais suave em caso de derrota. A pré-época é incrível, porque todas as equipas conseguem os seus objetivos: todos vão ganhar a Liga, todos se classificam para a Liga dos Campeões e Liga Europa, e ninguém vai descer. Em julho e agosto tudo é uma maravilha, tudo é perfeito.
Mas, independentemente do que faças durante a pré-época, seja ela muito positiva ou muito negativa, é sempre uma incógnita o que vai acontecer no decorrer da temporada. Durante toda a minha carreira como profissional aconteceu-me de tudo durante as pré-temporadas, como, por exemplo, estas duas histórias no Atlético Madrid:
Na pré-época de 1988/89, era o meu segundo ano em Espanha, tínhamos um novo treinador, José María Magureri. Bom homem e grande profissional. Dava prioridade à segurança defensiva, mas isso não impediu que marcássemos muitos golos nos meses de julho e agosto. Fizemos uma pré-época espetacular, com vitórias e boas exibições. Já nos sentíamos os reis do mundo. Ganhámos tudo o que havia para ganhar, à exceção do grande Torneio Teresa Herrera, na Corunha, que naquela altura era a Liga dos Campeões da pré-época. Vencemos nesse torneio o Liverpool por 5-1 e na final apenas perdemos no prolongamento com o PSV que fora campeão europeu meses antes, tendo vencido a final com o Benfica nos penáltis. Com o início do campeonato o sonho tornou-se num pesadelo. Nas primeiras quatro jornadas, três derrotas e um empate. Éramos os últimos da classificação. Depois veio a Europa e ficámos de fora após a primeira eliminatória, disputada frente ao Groningen, da Holanda. Um autêntico caos e treinador despedido.
Recordo-me que era o meu primeiro ano como capitão, tinha 22 anos e, naqueles péssimos meses de setembro e outubro, passava mais tempo a dar conferências de imprensa do que propriamente a treinar. Mesmo com este horrível início, ainda conseguimos ficar em quarto lugar na liga e garantir a classificação para a Europa.
Já em 1990/91, com Joaquín Peiró como treinador, aconteceu algo impensável. Perdemos quase todos jogos da pré-época e ele é despedido dias antes de começar a Liga. Inacreditável. O Atlético Madrid contratou o grande e único Tomislav Ivic e acabou por ser um ano positivo. Ficámos em segundo lugar, atrás do Barcelona, e vencemos a Taça do Rei. Estes são dois de muitos exemplos de que não existem nem campeões nem derrotados na pré-época.
Lembro-me, por outro lado, também da incerteza que sentia em cada agosto. Joguei em seis países diferentes e, quando sabes que o mercado está aberto e que a tua vida pode mudar a qualquer altura, sentes uma grande ansiedade. Até ao fecho das inscrições vivia a dúvida de não saber se iria ou não mudar de país. Esta indecisão sobre o que poderia acontecer no dia seguinte, ou na próxima semana, afetava não só a minha concentração e estabilidade, como também a de toda a minha família. Não era fácil, e é esta a intranquilidade que afeta todos os jogadores até ao último segundo do dia 31 de cada agosto.
Os encontros particulares já terminaram, começaram os jogos a doer, e esta semana disputa-se já a segunda jornada do Campeonato, mas, desde estas linhas, quero desejar muita sorte ao FC Porto, Rio Ave e Nacional para a segunda mão das suas eliminatórias europeias, que são três autênticas finais. Seria excelente para o futebol português que os três clubes atingissem os seus objetivos.
GRANDE CALDEIRADA - Bomba rebenta novamente
Confirmado o castigo da FIFA que proíbe o Barcelona de contratar jogadores até janeiro de 2016. O escândalo começou há vários meses, quando o clube foi acusado de irregularidades na contratação de menores, e a bomba voltou a explodir na Catalunha depois de a FIFA rejeitar o recurso apresentado. Assim, o Barcelona tem até dia 31 de agosto para se reforçar para o próximo ano e meio. Maus tempos para os culés...
NÓS LÁ FORA - Grande Tiago
Depois de um verão difícil, em que estava tudo acertado para ser jogador do Chelsea, a operação falhou no último momento e acabou por permanecer no meu Atlético Madrid por mais dois anos. Fiquei muito contente, porque o Tiago é amado por toda a “afición colchonera”, por tudo o que tem feito nos últimos anos. Esta nova etapa não poderia ter começado da melhor maneira. O Atlético Madrid venceu a Supertaça espanhola na última sexta-feira, com um Tiago mais uma vez enorme. Parabéns, Tiaguinho!
DO MEU ÁLBUM - Rúben Neves
Vejo o menino Rúben Neves titular no FC Porto com 17 anos e recordo-me da minha etapa no Sporting quando comecei a minha carreira com a mesma idade. Estás a concretizar um sonho de toda a vida e tudo é uma maravilha. Sentes que não tens a mesma pressão que os teus colegas, porque és um jovem da casa e desfrutas de tudo aquilo que estás a viver. Continua assim, Rúben, e parabéns!