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Tenho dois heróis do 25 de Abril: o meu avô e o meu pai. O meu avô veio de uma aldeia perdida na Serra da Lousã e o meu pai, filho de um resistente, bebeu os seus ensinamentos de luta.
Tinha 8 anos no 25 de Abril e estudava na Escola Luz Soriano, no Bairro Alto. Fui para as aulas pela mão da minha mãe, já com o movimento na rua. As pessoas estavam alegres, ouviam-se tiros. A minha professora, cujo marido era da PIDE, chorava desalmadamente. Não houve aulas e a minha felicidade, na altura, foi essa.
À posterior, enquanto militante do PCP, que abandonei aos 23 anos por divergências ideológicas, convivi com muitos camaradas e outros democratas que me contaram muitas histórias. Algumas inenarráveis, mas os meus heróis foram o meu pai e o meu avô.
O meu pai esteve na clandestinidade, mas a memória que tenho é de a minha mãe me dizer que ele estava fora, a trabalhar. Ele era gráfico, uma profissão perseguida pela PIDE. O epicentro da história da luta do 25 de Abril começou também pelos gráficos. Eles compunham as notícias, os avanços e incidências da luta. Mas o meu pai era um homem muito reservado. Nada me contava. Recordo-o agora com emoção. Na infância nada me faltou, mas vivia com a ausência do meu pai. Foram tempos difíceis. A família por vezes mudava-se por causa das perseguições. Passávamos períodos em Sesimbra.
Recordo que o futebol era um dos veículos através do qual as pessoas extravasavam emoções livremente. Recordo-me que em 1974, o Sporting foi o campeão da liberdade. E lembro-me de ouvir na rádio um dérbi que o Benfica ganhou por 5-3 em Alvalade, ao lado do meu falecido avô Zé. Mas tenho outras memórias: o jogo que dá o título no Barreiro, a final da Taça ganha ao Benfica, a meia-final da Taça das Taças perdida na RDA... Comecei a amar o Sporting ao lado da minha família, que era belenense.
E aprendi a ser do Sporting também para contrariar a grande maioria dos meus amigos, que eram do Benfica. Era a minha forma de resistir num futebol então muito mais saudável. As pessoas reuniam-se nas tabernas da Bica, o bairro onde fui criado, a discutir futebol, a jogar a domino e a ouvir relatos.
Gosto de lembrar que o 25 de Abril foi feito por democratas, por homens de valor. Lutaram 48 anos contra uma ditadura sanguinária, facínora. Mas a verdade é que hoje, passados estes anos todos, temos 60 pessoas no Parlamento cujo conceito da democracia é lastimável e se calhar não se fez tudo bem. Na minha perspetiva, a democracia é o menos mau do sistema.
Se calhar houve fissuras na democracia que permitiram o aparecimento de gente que procura acabar com aquilo que Abril conquistou. Houve momentos muito bons, mas também alguns momentos no pós-25 de Abril de alguma perseguição desnecessária.
Passados 52 anos, o 25 de Abril é algo muito positivo. Mas, paradoxalmente, temos que lutar por ele. A democracia pode estar em perigo, não só em Portugal como no Mundo.
Por Juvenal Carvalho