Não foi bonito, não foi elevado, não tinha de ser assim.
Um general não abandona as tropas, quem sempre liderou pelo exemplo não pode claudicar perante tentações do imediato.
Diferencia-se quem vê além do dia seguinte, quem sabe que há muitos comboios, quem não apanha à pressa o primeiro que passa, quem não receia que uma qualquer oportunidade seja a última.
Para quem tem competência, devoção ao trabalho e humildade perante a equipa, nenhum comboio será o último.
Também existirá quem queira relativizar, não faltarão adeptos a evocar a superioridade que o clube tem sobre qualquer pessoa, a dizer aquela frase batida de que as pessoas passam, mas as instituições ficam. Tudo isso é verdade, mas esta saída impacta muito no projecto que estava a catapultar o Sporting para o lugar europeu que lhe é devido.
Nesse projecto, Rúben Amorim não era apenas mais um, era a Pedra de Abóbada. Rúben não aparece por um qualquer golpe de sorte, Rúben surge para dar corpo a uma estratégia de mudança previamente pensada, planeada e definida.
A época de 2018/2019 foi uma época de grande constrangimento, com momentos de grande tensão financeira. O défice de tesouraria empurrava para uma gestão de sobrevivência, de tentar manter a cabeça fora de água, respirar. Não sobrava tempo, nem dinheiro, para qualquer outro planeamento.
A época seguinte, 2019/2020, já permitiu estabilizar, mas desportivamente o Sporting estava longe da dimensão a que está obrigado desde a sua fundação. A obrigação de ser grande, "tão grande como os maiores da europa".
O saneamento financeiro obrigou a adiar o investimento, sem investimento sacrificou-se o produto.
O produto de um Clube, de uma SAD, é composto por resultados, mobilização de adeptos, produção de espetáculo e valorização da marca. Uma empresa, para ultrapassar uma situação de dificuldade, tem de melhorar o produto, mas o Sporting tinha sacrificado todos esses requisitos, ou seja, o seu próprio "produto".
Quando assim é, o problema não está resolvido, está apenas adiado.
Por achar que quando um carro se dirige para o abismo a solução não é ir mais devagar, mas inverter o rumo, votei favoravelmente a contratação de Rúben Amorim. Enquanto Administrador da SAD do Sporting, assumo que fui um dos quatro votos a favor.
Foi um voto a favor da contratação, mas sobretudo um voto a favor da mudança de estratégia. Passar de uma gestão defensiva, de uma gestão de pânico, para uma gestão estratégica, com investimento num treinador e a partir dele criar valor.
Sintetizando, a nova estratégia assentou nos pressupostos:
1 – O Sporting não tem capacidade financeira para ir ao mercado internacional comprar jogadores de valor já afirmado e que custam dezenas de milhões euros;
2- A opção é investir num bom treinador, capaz de tirar o melhor dos jogadores, de os valorizar económica e desportivamente (novo modelo de negócio);
3 - Adquirir bons jogadores, a preço relativamente baixo, cujo potencial ainda não foi revelado, mas que o treinador consegue identificar e potenciar.
Olhando retrospectivamente, estes tópicos, que são parte de um e-mail partilhado entre administradores em 2020, foram todos cumpridos. E sim, Rúben foi a chave desta estratégia.
Por isso, não vale a pena relativizar a sua saída, terá impacto. É importante ter isto presente para, numa gestão racional, procurar alternativas, sem nos refugiarmos no papel de adepto com pensamento mágico que espera que tudo corra bem porque tem muita vontade que assim seja.
Esta saída extemporânea poderia e deveria ter sido evitada, Rúben poderia e deveria esperar pelo final da época e o próprio contrato deveria salvaguardar uma situação desta natureza.
Um contrato que não blinda a saída a meio de uma época desportiva, não é um contrato diligente. Ao contrário do que acontece com as transferências dos jogadores, onde os clubes são titulares dos direitos desportivos, direitos que só podem ser transaccionados nas janelas de mercado, o contrato com o treinador é um contrato de trabalho normal. Se não tiver uma cláusula que o impeça de treinar outro clube, na mesma época desportiva, permite que estas situações ocorram.
Também não esteve bem o Presidente ao dizer, em entrevista televisiva, que não acredita na possibilidade de o Sporting ganhar a Champions.
O Presidente não pode dizer que não acredita. A realidade é o que é, não muda por força das nossas convicções. Mas, uma coisa é a realidade dizer-nos que a probabilidade de o Sporting ser campeão europeu é de 1% - e o Rúben diz: "ok, vamos lutar por esse 1%"; coisa diferente é dizer que é 0%, porque aí deixa de existir qualquer razão para lutar.
O que aconteceu não foi bom, mas o impacto no projecto será maior ou menor conforme a resposta. A resposta só será a adequada se o problema não for minimizado.
Ao Ruben Amorim, o Sporting deve um dos seus melhores momentos e por isso agradece. Acreditámos poderia ser mais, que o projecto Amorim poderia ir mais longe, muito mais longe, não aconteceu, mas as expectativas foram da nossa responsabilidade.
Desejamos que o Ruben continue com a ambição de treinar os maiores da Europa, porque nesse caminho encontrará de novo o Sporting. Até já, Ruben.