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Muito se diz que o sucesso da 1.ª Liga depende do seu número de participantes. Uns pedem a redução de equipas, enquanto outros se mostram favoráveis ao alargamento, em prol da sustentabilidade financeira e qualidade competitiva da competição. Este bem que parece um daqueles casos em que o médico faz um diagnóstico errado às dores do seu paciente. Os clubes, para sobreviverem, não podem é depender apenas das transmissões televisivas. Há que encontrar formas de trazer as pessoas ao futebol e, consequência disso, atrair investidores, ávidos de comunicar produtos e serviços junto de um público massificado. O recente Sporting-Beira-Mar, realizado numa tarde de domingo e com uma assistência superior a 38 mil pessoas, provou que é possível fazer melhor.
Espero que esta experiência dos jogos à tarde possa ser repetida também em partidas do Benfica e do FC Porto. Se forem criadas condições, as pessoas mostram-se dispostas a assistir aos jogos. E o nosso futebol só terá a ganhar com isso, conquistando novos públicos, mais famílias e jovens, criando um círculo virtuoso na geração de receitas. Olhe-se para o atual panorama da liga alemã, a Bundesliga. Sem emblemas e estrelas tão entusiasmantes como as que jogam em Espanha, Itália ou Inglaterra, esta competição é líder mundial nas assistências futebolísticas, com os clubes a registarem uma taxa de ocupação média dos estádios superior a 90%.
Este caso de estudo deve merecer a nossa atenção. Geridos com rigor e contenção orçamental, os clubes alemães têm um campeonato que é um verdadeiro espetáculo. Ainda esta semana, num jogo que opôs Nuremberga e Borussia Dortmund, disputado em condições climatéricas adversas (13 graus negativos), não faltou um grande ambiente, com futebol de qualidade e um estádio cheio de adeptos efusivos.
Podemos afirmar que o maior poder de compra germânico também permite ir mais vezes ao futebol. Mas o segredo não é só esse. Os jogos da Bundesliga são quase todos disputados à tarde, as condições dos estádios são excelentes e a qualidade das partidas é também elevada, tal como a competitividade (várias equipas lutam pelo título) e as audiências televisivas. É evidente que esta competição de sucesso se torna atraente para os patrocinadores, cuja presença no futebol, por vezes, ultrapassa o anúncio nas camisolas e o naming dos estádios. Grandes empresas do país não perdem a oportunidade de piscar o olho aos adeptos. Nomes como Audi, Bayer, Mercedes-Benz e Volkswagen, sem esquecer a banca e outras referências da indústria local, marcam presença na liga alemã.
É este o círculo virtuoso. As pessoas vão aos estádios, os clubes geram receitas de bilheteira e as empresas tendem a investir mais. Por seu turno, o bom futebol é conseguido por equipas compostas, na maioria, por jogadores alemães, fruto de um excelente trabalho na formação. E sem cometerem loucuras, até os clubes médios conseguem incluir um ou dois jogadores de top nos seus plantéis.
Será possível replicar a fórmula em Portugal? Numa menor escala, acredito que sim. Com horas e preços condizentes, mais adeptos surgiriam e o apetite dos patrocinadores para investir na 1.ª Liga seria certamente maior, diminuindo a dependência dos direitos televisivos. Além disso, a maioria dos estádios portugueses oferece boas condições e está provado que a formação pode gerar receitas importantes. Só não vale a pena é andar a discutir se a competição deve ter 14, 16 ou 18 equipas.