_
Durante os primeiros 15 anos da minha vida profissional não fiz praticamente mais nada senão lutar pela emancipação do “jogador português”. Assistindo a treinos e jogos, em Estádios grandes e pequenos e tentando captar aquilo que não se fazia em Portugal e era comum em muitos países da Europa. No primeiro contacto que tive com o “jogador português”, o retrato não era bom: muita habilidade, uma inequívoca propensão para “comer” a bola e, em contrapartida, níveis altíssimos de desconcentração, pouca vontade de trabalhar e jogar em equipa – uma realidade plasmada num conjunto de resultados pouco positivos e decorrente, também, de uma mentalidade “coitadinha”, a partir da qual era proibido... “pensar grande”.A FPF era uma espécie de “agência de viagens”: os jogadores jovens cumpriam os calendários (europeus) e não revelavam a mínima ambição.
Tudo mudou em meados da década de oitenta e, em dez anos, a realidade das seleções de jovens alterou-se radicalmente: antes, tínhamos medo das seleções da Europa de Leste e perdíamos, quase sempre, com a França, Espanha, Itália e Alemanha. Dez anos depois, tínhamos estudiosos da Europa e de outros pontos do globo terráqueo a tentar perceber a razão pela qual um país pequeno e periférico chamado Portugal era capaz de formar jogadores de indiscutível talento e vencer competições como campeonatos europeus e mundiais.
Vejo agora a Seleção de Sub-20 fazer este brilharete na Colômbia e, para além das semelhanças que consigo detetar com a Seleção que venceu o Mundial na Arábia Saudita, em 1989 (espírito de equipa, disciplina tática, coesão e solidariedade competitiva), não sou capaz de evitar dizer, 22 anos depois, que Portugal desperdiçou uma das suas maiores oportunidades, ao não conseguir impor a “marca” do futebol português, associada à imagem do “jogador nacional”.
Porquê? Porque a FPF não compreendeu o fenómeno que se gerou dentro de si própria e deixou cair a dinâmica a partir da qual era possível “fabricar” equipas muito competitivas e também porque os clubes foram abdicando de investir nos jogadores portugueses.
São apenas as contrapartidas das transferências internacionais que justificam essa opção? A falta de regulação pode ser uma das justificações, mas é tempo de dizer que, num plano mais fechado, a “geração de ouro” não soube pegar no seu exemplo e criar um magistério de influência capaz de “impor” novas dinâmicas na organização do futebol português.
Este êxito da Seleção de Sub-20 aparece em contraciclo, quando as equipas mais representativas estão enxameadas de jogadores estrangeiros. Não é a face visível de avanços estruturais; é um êxito meramente conjuntural. Por isso, talvez este seja o momento de a Liga sensibilizar os seus filiados para olharem, de novo, para o “jogador português”, dando-lhe mais oportunidades. Isso significa dificultar o acesso de futebolistas extracomunitários à competição nacional.
Muitos dirão, com a euforia que se gera nestes momentos, que o “futebol português” está vivo. Ao invés, está quase morto. E, se não forem tomadas medidas urgentes, temo muito que, depois de 2014, a Seleção Nacional viva uma situação de quase falência.