Nenhum homem com poder, mesmo que tenha um grande poder, não consegue resistir a tudo. José Mourinho tem um grande poder, que até agora tem sabido administrar a favor do êxito profissional. Transformou salmonete em tubarão. De uma cana de pesca fez um barco de guerra. Mas nos mares já antes navegados por outros eméritos conquistadores, submetidos às pilhagens de pernas de pau, cujas piratarias nunca chegam ao ponto mais alto do mastro da justiça desportiva, existem outras embarcações de grande porte, porta-aviões com resposta para tudo, às vezes patrocinadores das mais nobres causas mas, aqui e ali, incapazes de resistir às técnicas (mais ou menos sofisticadas) da sorrelfa.
Este “estádio de choque” em que José Mourinho permanentemente se apresenta é uma decorrência do seu ADN. Essa aparente complexidade, de uma corrente sanguínea que parece não ter fim, desagua num princípio afinal muito simples: a convicção da razão, isto é, tudo o que se faz e se diz para fundamentar a razão. É quase um teorema. Ora o “teorema de Mourinho”, por muito que vejam nele apenas uma forma de desculpabilização perante o sucesso de outrem, é a plena assunção de que a “verdade desportiva” não se consegue afirmar (por si própria) dentro das quatro linhas.
Deduções ou interpretações achadas fora do território do futebol, daquilo que se vive lá dentro pelos seus protagonistas, em razão daquilo que parecem ser formas enviesadas de se chegar às vitórias, tropeçam sempre no manto diáfano da subjetividade. Mas quando são os próprios atores deste grande teatro que é o futebol a avisar-nos para os abusos que são cometidos dentro do campo, atirando-nos para as “connections” que se estabelecem fora dele – os espelhos da vida – fica mais fácil alcançar o comprometimento e a dificuldade de estabelecer ruturas.
José Mourinho disse, preto no branco, que frente ao Barcelona não há hipóteses e confessou não saber se isso se deve, ou não, à publicidade feita à UNICEF ou às amizades de Angel Villar como presidente da Federação espanhola e “vice” da UEFA. Amanhã saberemos se o organismo máximo que tutela o futebol europeu castigará José Mourinho. É crível que sim. Organizações como a FIFA e UEFA, que se querem autoproclamar como imaculadas e acima de qualquer desconfiança, são as primeiras a alimentar a suspeita e a não fazer praticamente nada para aumentar o escrutínio e reduzir a dimensão das dúvidas. O poder dessas organizações é esmagador. É difícil questioná-lo com sucesso. Só por isso, pela canseira que é desafiar todos os poderes, e obrigar-nos a pensar nas coisas, Mourinho deve ser ouvido. Até porque haverá sempre a tentação de o silenciar. Por isso, as palavras de Ramon Calderón, antigo presidente do Real Madrid, quando diz que “os clubes grandes não deveriam criticar o árbitro por erros nas suas derrotas”, são perigosas. “Investimos – disse – mais de 400 milhões de euros nos últimos dois anos para construirmos uma equipa muito forte e importante, por isso quando perdemos não podemos pôr as culpas em (...) árbitros ou qualquer outra coisa. Se perdermos devemos felicitar o adversário e pronto.”
Pronto, não (uma ova!). Se um árbitro invalida um “golo limpo”, onde ficam os 400 milhões?!