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São laranjos, senhor...

São laranjos, senhor...

A indústria do futebol não é muito diferente do país. Durante anos, fez-se de conta. No país e na indústria do futebol, com a conivência das maiorias. O líder da oposição ao Governo chama agora a atenção para a relação entre aqueles que são detentores de cargos públicos e utilizam o Estado para com ele fazerem negócio. É a maior das promiscuidades, com largos prejuízos para a vitalidade da democracia e do Estado de Direito. Na indústria do futebol, as incompatibilidades são imensas e criam uma “bolsa de dependências” que a tornam opaca, hermética e intolerante. O país debate, agora, os privilégios das Lojas Maçónicas e das suas correlações. O Futebol, naquilo que o diferencia do país, nada debate. Finge. O poder de influência é enorme (como se percebe do que resulta da ação da “Loja Oliveira”) e, por isso, mesmo num regime democrático, pouco ou nada se altera, no plano das reformas estruturais.

Se o único operador televisivo é acionista das três principais SAD do futebol português (Benfica, FC Porto e Sporting) e acaba por ter um papel fundamental na sua caracterização financeira; se as SAD e os clubes mais pequenos vivem asfixiados e bloqueados na sensação terrível do espartilho da “não receita”, há algum motivo para se falar, panfletariamente, em melhorias para o futebol português, agora que o cadeirão principal da FPF foi ocupado por Fernando Gomes e um grupo de “assalariados de luxo”?

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Hoje há eleições para a Liga e a vitória só poderia sorrir ao “outsider” Mário Figueiredo se os deuses estivessem loucos ou os clientes da Loja tivessem sido vítimas de uma bebedeira coletiva. Nesta conjuntura, os avanços estruturais serão sempre mínimos. Porque, na verdade, mesmo nas suas dissensões de “dança latina” (de salão), os grandes do futebol português conseguem alcançar o essencial. E o que é o essencial? O congelamento da FPF como instituição supraclubística, que fosse capaz de defender os interesses do futebol em geral.

Toda a gente percebeu o comprometimento do então presidente da Liga, candidato a presidente da FPF por acumulação (!), quando aconteceu o “apagão” em Braga (no jogo com o Benfica). Toda a gente entende o silêncio do agora eleito presidente da FPF quando estoirou a notícia do “Público” sobre as fotos no túnel de Alvalade. Toda a gente compreende que o ex-administrador da SAD do FC Porto nunca terá uma palavra de crítica para os excessos dos chamados “dirigentes de referência”. Não se trata apenas de falta de coragem. É quase uma questão contratual, que resulta de compromissos e arranjos pré-eleitorais. Em síntese: por melhores que sejam a preparação e as ideias dos “outsiders”, o acesso à “área VIP” ser-lhes-á sempre vedada. Só entra quem tem código. A password é: “sistema”.

Reza a lenda que o rei teve conhecimento das ações caritativas da rainha e das despesas para o tesouro real. Um dia, o rei quis surpreender a rainha e interpelou-a numa das suas caminhadas:

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– O que levais no regaço? – São laranjos, meu senhor, são laranjos...

Moral da estória: o António ganhou e viveram, todos, muito felizes. Para sempre?

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