Convidados
Pedro Proença Presidente da Federação Portuguesa de Futebol

2026: os desafios que nos unem

A mudança de ano é a altura perfeita para fazer balanços. Também é assim no futebol. Neste momento em que damos as boas-vindas a 2026, é tempo de olharmos para avaliarmos os momentos que deixamos para trás. Pensando em 2025, atrevo-me a dizer que será um ano que fica para a História da Federação Portuguesa de Futebol e do Futebol Português.

Nunca as Seleções Nacionais nos tinham dado, num só ano, tantos motivos para celebrar. Foram cinco títulos conquistados. Desde o futebol sénior, com a conquista da Liga das Nações pela Seleção A, ao futebol de formação, com a conquista, pelos Sub-17, do Campeonato da Europa e do Campeonato do Mundo – 34 anos depois do último, ganho por uma geração de ouro em 1990. Passando pelo futsal, com a brilhante conquista do Europeu Sub-19 e pelo futebol de praia, com o triunfo da Seleção Feminina na Superliga Europeia, a primeira conquista internacional de sempre da FPF no feminino. E não podemos esquecer o título de vice-campeãs do Mundo brilhantemente conquistado pela nossa Seleção de Futsal Feminino nas Filipinas. Um ano absolutamente brilhante, reconhecido internacionalmente, como se viu na 16.ª edição dos Globe Soccer Awards, no Dubai, onde o Futebol Português foi exaltado ao mais alto nível.

PUB

É o reflexo maior de uma cultura de vitória, que nos acompanhará ao longo dos próximos anos e nos deixará mais perto do sucesso.

O segredo do sucesso

Há, em cada um destes títulos, o trabalho de muita gente. A começar nos treinadores, jogadores e funcionários da FPF. Mas a verdadeira base do sucesso está no trabalho realizado por Associações Distritais e Regionais, Associações de Classe, Liga Portugal e Clubes. São eles a verdadeira força-motriz do Futebol Português.

PUB

E é por isso que a Direção da FPF continuará a apostar num novo modelo de Governação mais agregador, inclusivo e transparente – cujo I Conselho de Presidentes é o exemplo maior –, que tem como principal desígnio unir todos em torno da evolução do Futebol Português. Porque o nosso futuro depende da forma como formos capazes de encontrar, em conjunto, as soluções para os desafios que teremos pela frente.

Os heróis que não esquecemos

Mas 2025 não foi só feito de sorrisos. Sofremos as partidas, irreparáveis, de Diogo Jota e Jorge Costa. Não há vitória nem título que nos faça recuperar de perdas tão relevantes, mas havemos, a cada vitória e a cada título, de nos lembrar dele. É esse o compromisso que assumimos: não deixar morrer, nunca, a memória de Diogo Jota e de Jorge Costa. Nem de nenhum dos heróis que fizeram da FPF aquilo que é hoje.

PUB

Porque a memória será sempre o nosso bem mais precioso.

Fechado o capítulo de 2025, foquemo-nos em 2026. Um ano que nos trará grandes desafios. Dentro de campo teremos o Europeu de Futsal ou, no futebol, o Mundial-2026. Competições que abordaremos com a mesma ambição, com a mesma Cultura de Vitória de que nos alimentámos em 2025. Porque todos temos, não lhe chamemos uma convicção, mas um ‘feeling’, alimentado pela confiança no talento e no trabalho, que ficou bem expresso na frase do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, quando homenageou os vencedores da Liga das Nações: “Na América, vai dar Portugal!”

Continuaremos a apostar forte nas nossas Seleções. O novo ano marcará o arranque das obras da quinta fase da Cidade do Futebol, que contemplará a Universidade do Futebol e infraestruturas para a prática de Futebol de Praia e Walking Football, duas apostas fortíssimas desta Direção para as próximas épocas, tal como o Futebol Feminino (já está criado um departamento que lhe é dedicado em exclusivo) e o Futsal, sem esquecer os e-Sports.

PUB

São modalidades que já nos deram alegrias em 2025 e acreditamos que irão dar muitas mais no futuro. E têm, por isso, de ser acarinhadas. E fortalecidas.

Mas 2026 será também um ano de grandes desafios fora dos relvados. Temos, também aí, vários jogos para ganhar. Jogos absolutamente vitais para o futuro do Futebol Português. Jogos que não podemos perder.

Centralização dos Direitos Audiovisuais

PUB

2026 será um ano determinante para um processo que será um verdadeiro ‘Game Changer’ para o Futebol Português. Em articulação com a FPF, a Liga Portugal apresentará à Autoridade da Concorrência o modelo de comercialização dos Direitos Audiovisuais centralizados, o último passo antes de poder ir ao mercado e implementar a Centralização a partir de 2028/2029. O caminho iniciado em 2021 entra na sua reta final e é tempo de começarmos, todos, a cuidar do produto que queremos vender. Aprovar o Regulamento Audiovisual e o Regulamento de Controlo Económico, promover um eficaz combate à pirataria e defender, sempre, o espetáculo, dentro e fora de campo.

Determinante para o sucesso da Centralização será também a definição de uma política geoestratégica concertada em torno da venda dos Direitos Audiovisuais a nível internacional, com uma aposta forte em mercados bem identificados e definidos – o da saudade, mesmo que não apenas esse, assumirá papel determinante – para a defesa de uma estratégia global que garanta os interesses, financeiros e comerciais, dos nossos Clubes.

Reformulação dos Quadros Competitivos

PUB

À questão da sustentabilidade do Futebol Português ou à sua competitividade no Ranking da UEFA, junta-se a necessidade de dar resposta a um calendário internacional cada vez mais apertado, que exige resposta imediata e assertiva. Repensar o modelo das competições, da base até às provas profissionais, é hoje mais urgente do que nunca. Da parte da FPF, anuncio neste início de ano mudanças na Taça de Portugal já a partir da próxima época, com as equipas da Liga Portugal Betclic a entrarem em competição apenas na 4.ª eliminatória e as meias-finais a serem disputadas num só jogo. É a nossa resposta a uma necessidade urgente, estando disponíveis para, nas provas organizadas pela Liga Portugal, validar aquele que for o modelo definido pelos Clubes, que deve ter em conta os interesses, financeiros e desportivos, do Futebol Profissional.

Redução dos Custos de Contexto

É uma reivindicação antiga do Futebol Português, que merece ver finalmente reconhecido o seu peso, social e económico, no País. Somos uma indústria que gera milhares de empregos, que contribui com 0,3% do Produto Interno Bruto e paga mais de 700 milhões de euros/ano em impostos. Em 2026 vamos, juntos, lutar pela redução do IVA na bilhética, pela revisão das taxas de IRS ou IRC, pela redução dos prémios dos Seguros de Acidentes de Trabalho dos Praticantes Desportivos Profissionais ou pela possibilidade de consumo de bebidas de baixo teor alcoólico nos estádios. O Futebol não pode continuar a ser prejudicado face aos seus competidores, internos e externos.

PUB

Não podemos esperar mais!

Plano Nacional de Arbitragem

A Direção da FPF, garantindo sempre a independência e autonomia do Conselho de Arbitragem, continuará a garantir todas as condições, estruturais e financeiras, para que os árbitros desempenhem a sua função da melhor forma possível.

PUB

O modelo herdado pelo atual CA, os anos de estagnação com brutais reflexos na formação dos árbitros e o ‘congelamento’ da profissionalização de um setor impedido, pelo atrás enunciado, de acompanhar a evolução do futebol obriga a uma revolução profunda, com inevitáveis ‘dores de crescimento’. A criação de uma carreira independente de VAR, o nascimento do cargo de Diretor Nacional de Arbitragem, a publicitação das avaliações de árbitros e VAR são passos dados com firmeza por este novo CA, liderado por Luciano Gonçalves, e os resultados farão sentir-se, estou convicto, muito em breve. Apelamos, naturalmente, à compreensão e colaboração de todos: alterações tão profundas exigem tempo e tranquilidade.

Ao mesmo tempo, o CA está já a preparar o primeiro grande Plano Nacional de Arbitragem, numa visão mais abrangente para o desenvolvimento da arbitragem portuguesa. Será apresentado já este mês e irá mudar o setor! Culminando, naturalmente, com a criação de uma entidade externa para a arbitragem profissional, passo que, embora dependente de uma mudança no Regime Jurídico das Federações, é inevitável. 2026 marcará o início da discussão do tema, envolvendo (desta vez de forma efetiva) FPF, APAF e Liga Portugal.

A arbitragem portuguesa continuará a acompanhar, e sempre que possível a liderar, a evolução tecnológica (como aconteceu recentemente com a introdução das Refcam) que se regista na arbitragem mundial, em busca de cada vez maior verdade desportiva. O novo sistema SAOT (Semi-Automated Offside Technology) é uma dessas evoluções e a Direção da FPF está disponível para estudar a sua implementação em 2026.

PUB

Harmonizar os regulamentos

A Justiça Desportiva em Portugal tem de mudar. Os regulamentos disciplinares da Liga Portugal, da FPF e das ADR’s têm, inevitavelmente, de ser harmonizados, da base até ao topo e em todas as competições, adaptando-os às melhores práticas internacionais. Os nossos Clubes jogam com umas regras na UEFA e outras nas provas internas. E essa é uma dicotomia que tem de ser resolvida com urgência.

Para o sucesso da Centralização é obrigatória uma regulamentação verdadeiramente assertiva e punitiva, que faça cumprir um indispensável Regulamento de Controlo Económico e um Regulamento de Competições que garanta, de forma efetiva, a melhoria das infraestruturas e a defesa do espetáculo.

PUB

Que 2026 seja o ano em que se comece a pensar, enfim, a arquitetura da Justiça Desportiva. Se queremos uma Disciplina rápida e eficaz não podemos continuar a permitir que decisões dos órgãos disciplinares sejam anuladas sem que se perceba porquê ou que recursos e providências cautelares façam os processos arrastarem-se indefinidamente, retirando efetividade às decisões.

A defesa do ‘ranking’ europeu

2026 será, também, um ano importantíssimo para que Portugal recupere o sexto lugar no ‘ranking’ da UEFA. A defesa da posição dos Clubes portugueses sempre foi um objetivo bem definido e acabou por ser prejudicado com a criação da Conference League e, acima de tudo, com uma injusta distribuição de pontos, que resultou, em 2023, na queda para o 7.º lugar.

PUB

Ultrapassar os Países Baixos em 2026 foi meta desde logo definida, tendo como base um trabalho planeado para criar as condições necessárias - (a defesa intransigente das 72 horas de descanso entre jogos, a entrada tardia em competição nacional das equipas que disputavam pré-eliminatórias da UEFA…) – para que os Clubes lusos estivessem, sempre, em vantagem face aos seus competidores internacionais.

Agora que esse objetivo está perto, há que manter a aposta numa estratégia que garanta a concretização de algo determinante para a sustentabilidade e competitividade do nosso futebol.

Jogadores e Adeptos no centro

PUB

A verdadeira alma do jogo tem de ser defendida. Comecemos pelos artistas: os jogadores. O calendário, cada vez mais sobrecarregado, coloca-nos hoje desafios que temos de encarar de frente. Proteger o talento, o estado físico e a saúde mental dos futebolistas deve estar no topo das prioridades já em 2026. Por isso é tão importante repensar os quadros competitivos mas, também, garantir-lhes condições para um pós-carreira mais seguro e atrativo. O Sindicato dos Jogadores sabe que contará sempre com a FPF nestes e noutros objetivos.

Centremo-nos, agora, no Adepto e no regresso das famílias aos estádios. A melhoria das condições nos recintos desportivos é obrigatória, assim como tornar os horários mais atraentes. Sem esquecer uma discussão séria sobre a lei do Combate à Violência, Intolerância e Xenofobia, dando real atenção à questão da pirotecnia. Discutamos, sem receios, a criação de um ID FUN CARD (copiando as boas práticas com um cartão utilizado nas grandes competições da UEFA e da FIFA), envolvendo todos aqueles que têm de ser envolvidos, de forma inclusiva. Porque todos os que amam verdadeiramente o Futebol são bem-vindos ao estádio.  E juntemos-lhe, claro, a já acima falada redução do IVA na bilhética, que irá contribuir muito para a diminuição no custo final do consumidor – o Adepto.

Um Futebol mais seguro, mais confortável e mais barato. Eis os desejos para 2026.

PUB

Sustentabilidade do Futebol Português

É altura de olharmos para o Futebol Português como um todo. Sem uma base forte e sustentável não haverá um topo equilibrado e consistente. É preciso discutir um novo modelo de redistribuição da riqueza, contemplando todos, mesmo aqueles que são olhados como o elo mais fraco. As Associações Distritais e Regionais são fundamentais para o nosso sucesso. Tal como as Associações de Classe. E não podem continuar a ser deixadas para trás.

Está já formada a Task Force que irá, até ao final da época, repensar todo o modelo de sustentabilidade do Futebol Português. Entrará em funções já este mês, com a participação de FPF, Liga Portugal, Clubes, ADR’s e Associações de Classe. Porque todos são importantes e merecem ver essa importância reconhecida.

PUB

Uma redistribuição mais justa tornará o Futebol Português mais forte.

Atenção aos investidores

Quem vem por bem será sempre bem-vindo. Mas temos de estar cada vez mais atentos aos que, com intenções duvidosas, chegam até nós. É necessário apertar a malha, criando um novo modelo de escrutínio a quem investe no Futebol Português, dando mais poder à Comissão de Auditoria da Liga Portugal, composta por FPF, Liga Portugal, ANTF e SJ, com experiência para lidar com estas matérias de forma mais eficaz do que o modelo que entrega esse escrutínio ao IPDJ e que não responde, assumamos, às necessidades.

PUB

A aproximação da Centralização e as notícias que dão conta da entrada de grupos criminosos internacionais em Clubes ou SAD devem fazer-nos redobrar a atenção. Copiando, mais uma vez, o de bom que se faz lá fora.

Novo contexto político/institucional

2026 será um ano marcado por mudanças no espectro político. O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, incondicional adepto das Seleções, da FPF e do Desporto em geral – o verdadeiro embaixador do Futebol Português na última década – termina a sua missão como Presidente da República. Temos o dever de lhe agradecer por tudo o que nos proporcionou e temos esperança de que o futuro Presidente da República possa seguir o seu exemplo, reconhecendo a importância que o Desporto em geral e o Futebol em particular têm na sociedade portuguesa.

PUB

Entramos no novo ano com grande esperança e expectativa no novo Plano Nacional de Desenvolvimento Desportivo. Congratulamos o Executivo, em especial a Ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, pela coragem na elaboração de um documento revolucionário para o Desporto. Entendemos, ainda assim, que é possível melhorá-lo, e a FPF irá, de forma construtiva, apresentar, com a colaboração de todos os seus sócios ordinários, contributos nesse sentido, promovendo a discussão para uma indispensável alteração à Lei de Bases da Atividade Física e do Desporto, necessária para a implementação de várias medidas atrás enunciadas, e ao Regime Jurídico das Federações Desportivas, reivindicação de várias federações. Sem esquecer a introdução, importantíssima, do Estatuto do Dirigente Benévolo.

 

2026 será um ano de muitos desafios. A FPF apela à tranquilidade de todos os agentes, garantindo que - respeitando sempre o princípio da autorregulação - se manterá disponível para colaborar com as Associações Distritais e Regionais,  Associações de Classe, Liga Portugal e Clubes  no intuito de encontrar as soluções para enfrentarmos e superarmos, em conjunto, os desafios que nos aguardam. Porque o compromisso de Unir o Futebol nunca será só um lema, mas sim o caminho a percorrer para um futuro de ainda maior sucesso.

PUB

 2026 será um ano de muitas vitórias. Com diálogo, empenho e compromisso vamos continuar, todos, a ganhar. Dentro e fora de campo. Termino, voltando a citar o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa:

“2026… vai dar Portugal”. E não só na América…

Por Pedro Proença
Deixe o seu comentário
PUB
PUB