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A série de derrotas do SCP, após a saída de Ruben Amorim, tem justificação. Os adeptos estão indignados, pois a equipa passou de melhor a pior da Liga, dando a impressão que de repente os jogadores terão desaprendido de jogar à bola. Mas não, é claro que não desaprenderam.
O que quaisquer jogadores esperam do seu treinador? Penso que esperam fundamentalmente três coisas: liderança, empatia e soluções (transmissão de conhecimentos e capacidade para dar a volta em caso de adversidade). Uma quarta característica, também útil, está relacionada com o sentimento de justiça: capacidade para pôr em campo quem está realmente melhor no momento e quem melhor se adapta à estratégia delineada para aquele jogo. Vêm depois outras características, que variam na percepção de cada jogador.
O que nos devemos perguntar, primeiro, é se Ruben Amorim possui todos estes requisitos. A resposta é afirmativa: sim, possui todos eles e mais alguns!
E o que dizer de João Pereira? Se fizermos um inquérito junto dos jogadores, qual será o resultado? Penso não ser preciso termos uma bola de cristal para sabermos a resposta a esta pergunta.
O que se nota é um mal-estar geral, que resulta da decisão do Presidente leonino, de substituir um treinador (na verdadeira acepção da palavra, ou seja, uma pessoa que lidera, que passa conhecimentos em cada treino e cada jogo, e que encontra soluções para ultrapassar as adversidades) por um "aprendiz de treinador" (alguém que pode um dia vir a ser um bom treinador do escalão principal, mas que ainda é imberbe ou, como se diz aqui em Angola, ainda tem de comer muito funge). É preciso fazer carreira, até o treinador chegar ao escalão principal e, depois, aos clubes maiores. Saltar etapas pode ocasionar a "queda do artista".
E atenção, porque mantê-lo por mais tempo pode vir a ser mais doloroso, quer para o clube, quer para o próprio. Poderá significar dar cabo do seu futuro, que pode até ser promissor.
Qual é o sentimento generalizado na equipa? Os jogadores pensam: "Puxa, agora vamos ter de gramar com alguém com diminuta experiência, alguém que nunca ouviu sequer as lições do Ruben e vem querer impingir-nos os seus ainda parcos conhecimentos, alguém que nos tem a oferecer apenas boa vontade, alguém que sabe o mesmo ou até menos que nós?"
A leitura generalizada é que o presidente esteve mal na escolha. Não ponderou os pouquíssimos prós e os muitíssimos contras.
Os jogadores estão desolados, desanimados e com vontade de "bazar", com vontade de fugir para algum clube onde possam continuar a evoluir, com aprendizado.
Em tão pouco tempo e tal como nós, adeptos, os jogadores devem já estar cansados da ausência de liderança, do permanente receio de errar, da falta de soluções em momentos de aperto e das palestras enfadonhas e cheias de lugares-comuns.
Qual será então a solução? E quando será ela tomada? Não faço a mínima ideia.
Mas, a propósito: ainda alguém se lembra de Roger Schmidt?
Paulo de Carvalho
(sociólogo angolano, adepto do Sporting)