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Fabiano Abreu Agrela
Fabiano Abreu Agrela Jornalista e neurocientista

O talento que não joga: a decepção de Portugal no Mundial'2026

Há algo de profundamente perturbador em assistir a uma selecção que possui, no papel, alguns dos melhores jogadores do mundo e ver que o colectivo não consegue produzir sequer o que qualquer equipa mediana produziria com metade desse talento. Portugal chegou ao Mundial 2026 com o rótulo de candidato ao titulo. Saiu da fase de grupos com cinco pontos, dois empates e um único jogo em que afinal pareceu existir enquanto equipa. A conta não fecha. E o que ficou em campo foi menos que uma desilusão: foi um retrato clínico de uma equipa desorganizada, desmotivada e sem identidade táctica.

A estreia contra a Republica Democrática do Congo, a 17 de junho em Houston, resume tudo. A selecção adiantou-se com o golo de João Neves ao minuto seis, mas rapidamente perdeu o controlo do jogo perante uma congolesa intensa, que acabou por empatar e acumular mais oportunidades, deixando Portugal com apenas um remate enquadrado em todo o encontro. Um remate enquadrado. Contra a Republica Democrática do Congo. Numa fase de grupos de um Campeonato do Mundo. A CNN Portugal resumiu com uma precisão quase cirúrgica: "Eis um Portugal peripatético, mistura de apático e patético, que se perdeu contra a RD Congo a deambular num passeio no parque."

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O que se viu não foi infelicidade. Foi ausência O New York Times escreveu sobre Ronaldo com uma crueldade que dói precisamente por ser justa: "Não houve nenhum remate errado, nenhum mau passe, nenhum erro crasso. Nada que alguém pudesse usar para postar nas redes sociais para gozar com ele. Apenas... nada." O Independent foi mais duro: "Dez homens e uma estátua. Portugal sacrifica mais um Campeonato do Mundo ao ego de Cristiano Ronaldo." A Gazzetta dello Sport concluiu na mesma linha: "Portugal desilude, CR7 ainda mais. No Portugal de Martínez, em Houston, havia um problema evidente: Cristiano Ronaldo."

Mas reduzir o problema a Ronaldo seria uma analise cómoda. A exibição apagada de Bruno Fernandes e Bernardo Silva, normalmente motores criativos da equipa, foi alvo de críticas nas redes sociais e nos programas de debate televisivo. Os analistas sublinharam a falta de ligação entre o meio-campo e o ataque, bem como a ausência de desequilíbrios individuais. Portugal tem dois dos melhores médios da Premier League no mesmo onze, e ambos desapareceram contra uma selecção que nem sequer foi para o Mundial com ambições de campeã.

O segundo jogo, a goleada por 5-0 sobre o Uzbequistao, foi a excepção que confirma a regra. Serviu para acalmar o ambiente interno e lavar a imagem pública, mas nunca foi teste a nada. Roberto Martinez retirou Vitinha, considerado o melhor médio do mundo nos últimos dois anos, para colocar Samu Costa. O jogador do PSG teve uma Copa bem abaixo do esperado. Os aplausos à goleada funcionaram como anestesia. O problema estava a dormir, não resolvido.

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Chegou o terceiro jogo, a Colômbia, aquele que diria onde Portugal realmente esta. A Colômbia foi quem mais teve a bola, quem mais atacou, quem mais rematou, quem mais mereceu ganhar. Muitas vezes recuava e fazia pressão média, mas depois, quando ganhava a bola, acendia o fogo e transformava cada duelo numa batalha física. Portugal pareceu sempre conformado. E quando assim é, deixou de jogar o futebol que melhor sabe. No final, Portugal saiu com um empate que deve mais à estatura de Diogo Costa do que a qualquer mérito colectivo. A Marca ficou convencida de que os portugueses teriam perdido se não fosse a ineficácia contrária e a actuação do guarda-redes Diogo Costa, eleito melhor jogador em campo pelo diário espanhol.

Esta selecção continua a viver muito mais da qualidade individual do que da força colectiva. Continua a depender de um rasgo, de um momento de génio ou de uma inspiração pontual para desbloquear jogos que, colectivamente, raramente desbloqueia. O diagnóstico não podia ser mais preciso. E e precisamente essa a natureza do problema com Roberto Martinez. Os resultados permanecem aceitáveis do ponto de vista estatístico mas as exibições continuam demasiado inconsistentes sempre que aparecem adversários de maior qualidade. Há talento suficiente para aspirar a muito mais do que aquilo que esta equipa tem mostrado, e talvez seja precisamente essa a maior frustração porque poucas selecções presentes neste Mundial apresentam tanta qualidade individual espalhada por praticamente todos os sectores.

O treinador espanhol recusa o papel de responsável Depois do empate com a RD Congo, Martinez disse em conferencia de imprensa: "Desde o primeiro dia em Portugal, não tive um dia sem barulho." Prometeu autocrítica garantiu que os últimos 25 minutos foram muito maus. Palavras que ecoaram no vazio. Após a Colômbia, admitiu que não foi um jogo da forma que Portugal quer, mas defendeu Ronaldo e disse que a equipa reagiu bem durante todo o jogo. Para quem viu o jogo, a afirmação é desconcertante. A análise internacional foi directa: Martinez fez escolhas de onze confusas e, fora de um jogo, ainda não encontrou a melhor utilização do seu jogador mais mediático. A esta selecção falta directividade no ataque, e isso é responsabilidade do treinador.

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Existe um padrão histórico que não deixa de provocar desconforto. Portugal tem acumulado demasiadas dificuldades precisamente nas ultimas jornadas das fases de grupos, quando precisa de confirmar uma posição mais favorável ou dar um passo competitivo em frente. Aconteceu em diferentes gerações, em diferentes competições e com diferentes protagonistas. O que muda, edição após edição, são os rostos. O problema estrutural permanece intacto.

Portugal apurou-se para os 16 avos de final como segundo classificado do Grupo K, com cinco pontos, fruto de uma vitoria e dois empates, e vai defrontar a Croácia em Toronto. O desempenho nesta fase de grupos acaba por ser razoável mas longe de ser entusiasmante. Uma selecção com Bruno Fernandes, Bernardo Silva, Vitinha, Joao Neves, Rafael Leão, Pedro Neto e Ronaldo não pode ter razoável como ambição aceitável num Campeonato do Mundo.

Talvez seja essa a maior tragédia desta geração portuguesa: não e a falta de talento. E saber que o talento esta la, disponível fardado e em campo, e ver que ninguém sabe, ou quer, transformá-lo em jogo. Um treinador que não encontra o seu melhor onze ao terceiro jogo da fase de grupos, numa selecção sem lesões de relevo, e um treinador com um problema que não é de calendário. É de método E métodos não se corrigem em madrugadas de eliminatória

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O Campeonato do Mundo de 2026 ainda pode ser diferente. Os torneios a eliminar tem essa memoria curta. Um jogo muda tudo. Mas a questão que Portugal devia fazer a si próprio não é se vai passar a Croácia. A questão é: com este Portugal, ate onde é honesto acreditar?

Por Fabiano Abreu Agrela
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