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Luís Alves Monteiro
Luís Alves Monteiro Gestor e atleta olímpico

Fernando Mamede - entre o pódio e o esquecimento

E esta crónica não é apenas sobre Fernando Mamede. É sobre o que este atleta de eleição simboliza — algo maior. É sobre o esquecimento a que o Estado e as chamadas “entidades de bem” votam aqueles que um dia foram heróis nacionais. É sobre hipocrisia. É sobre falta de memória coletiva. É também, e sobretudo, sobre saúde mental.

Fernando Mamede foi um atleta de elegância rara, de passada leve e de uma condição física excecional, alguém que personificava disciplina, talento e superação, mas também com uma condição mental que várias vezes o traía nos grandes momentos. Fui testemunha privilegiada in loco, nos Jogos Olímpicos de 84, em representação da equipa nacional de Pentatlo Moderno, dos problemas com que lutava e que o atormentavam. Foi recordista mundial numa épica prova de 10.000 metros, fixando a marca de 27:13.81 a 2 de julho de 1984, em Oslo, mantendo o recorde mundial durante cinco anos e tornando-se o último europeu a detê-lo.

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Durante anos foi imagem de excelência, referência técnica e inspiração para gerações. E é precisamente por isso que o contraste é tão duro: atletas com este percurso não podem ser lembrados apenas para o folclore, para cerimónias pontuais, para fotografias ou discursos de ocasião. Devem ser acompanhados de forma séria e contínua na fase de pós-carreira, com políticas estruturantes, apoio psicológico, orientação profissional e enquadramento social digno.

Estou perfeitamente à vontade para falar de saúde mental porque não me limitei a opinar — avisei e pratiquei. Fui precursor nesta discussão quando ainda não era “tendência”, quando não dava palco nem likes. Trouxe o assunto para a agenda pública quando poucos queriam ouvir. E como dizia numa entrevista à SIC em 2022, este é daqueles temas em que o balão vai encher — porque agora todos vão falar disto — mas rapidamente se vai esvaziar se não houver estrutura, compromisso e continuidade. Não é um tema mediático; é um problema estrutural.

Em 2022, enquanto Presidente da AAOP (Associação dos Atletas Olímpicos de Portugal), realizámos o primeiro Seminário de Saúde Mental, ainda sob o impacto direto da pandemia. Juntámos mais de 500 pessoas no antigo Cinema Roma para discutir o tema de forma aberta e frontal, com a presença de figuras como as ex-Ministras da Saúde Dra. Maria de Belém e Dra. Margarida George, bem como a Presidente da Sociedade Portuguesa de Saúde Mental, Maria João Heitor. Em 2023 criámos um handbook digital com conclusões e recomendações concretas. Em 2024 demos continuidade com uma segunda edição, alargámos o debate à sociedade civil, criámos uma linha gratuita de assistência a atletas em pós-carreira e realizámos um survey técnico, validado pela Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, dirigido a atletas de alto rendimento, permitindo pela primeira vez ter dados estruturados sobre o impacto real das questões de saúde mental na performance e na transição de carreira. Falámos individualmente com muitos — inclusive com o próprio Mamede.

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Mas, em paralelo, lutámos sempre contra o mesmo muro: o corporativismo, a indiferença institucional, os que só gostam de aparecer nas cerimónias fúnebres, nas homenagens tardias, nos minutos de silêncio que custam pouco e rendem muito em imagem.

Este tema deveria fazer parte integrante de qualquer Plano de Desenvolvimento Desportivo sério. Não como rodapé ou intenção vaga, mas como eixo estruturante: transição de carreira, acompanhamento clínico e psicológico, reintegração profissional e monitorização contínua. O desporto não termina quando acaba a carreira competitiva — e ignorar isso é amputar metade da responsabilidade pública.

E há um ponto muitas vezes esquecido: tratar bem o pós-carreira não é apenas um ato de justiça social, é também um fator de performance. Quando o atleta sabe que não será abandonado no futuro, quando sente que existe rede, estrutura e dignidade mais à frente, a sua estabilidade emocional durante a carreira aumenta. Sintomas de ansiedade e insegurança podem ser convertidos em foco, motivação e vantagem competitiva, em vez de se tornarem fatores de perturbação. É uma questão humana, mas também estratégica.

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É aqui que começa o ridículo coletivo: reduzir a solução à instrumentalização dos atletas em funções menores, como ouvi da boca de uma atleta olímpica com responsabilidade, como se o destino natural de quem representou o país fosse apenas “ir às escolas dar testemunho”. Isso é digno, mas é manifestamente insuficiente. Um atleta não pode ser transformado num adereço pedagógico itinerante, numa peça simbólica para preencher agendas ou alimentar boas intenções. Ser exemplo não deve ser sinónimo de limitação — deve ser abertura de possibilidades. A carreira após o desporto pode e deve passar pelo próprio desporto, mas não tem de ficar prisioneira dele. Há gestão, há formação, há liderança, há ciência do desporto, há comunicação, há empreendedorismo. Há mundo. Reduzir tudo a palestras ocasionais é confundir inspiração com solução estrutural.

Porque o problema não são apenas os nomes conhecidos que, de tempos a tempos, regressam às manchetes. São também os muitos outros que ninguém recorda, que vivem hoje em silêncio com dificuldades financeiras, emocionais ou identitárias. Poder-se-iam enumerar nomes e casos — como a intervenção decisiva da AAOP, em conjunto com o Jornal Record, no apoio ao nadador olímpico Fernando Madeira para garantir uma habitação digna após ameaça de despejo — e a lista seria longa demais. E isso, por si só, já é revelador.

Os atletas também falham entre si. Falta solidariedade. Surgem em entrevistas com soluções superficiais. Isso é importante, mas é apenas a superfície. O problema é estrutural. É política pública consistente, é sistema, é continuidade.

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E curiosamente, quando o tema rebenta mediaticamente, surgem de imediato as vozes ajuizadas, os comentadores de ocasião, os especialistas instantâneos com soluções prontas e frases redondas. Multiplicam-se diagnósticos e receitas rápidas. Passada a espuma dos dias, o balão esvazia, as câmaras desligam-se e a estrutura continua por fazer. O país é fértil em opinião reativa e pobre em política consistente.

Duro. E infelizmente tão real.

Celebramos conquistas, mas falhamos pessoas.

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Aplaudimos enquanto rendem, esquecemos quando precisam.

Hoje lembram-se das taças, das medalhas, dos títulos, das fotografias sorridentes no auge. Amanhã volta o silêncio.

Fernando Mamede não morreu apenas hoje — foi sendo abandonado muito antes, quando deixou de ganhar, quando deixou de servir o cartaz, quando deixou de ser útil para a narrativa.

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E o símbolo final é doloroso: um funeral digno, sim, mas com poucas pessoas e poucas entidades presentes, desproporcional à dimensão e projeção do atleta. Num país que tem apenas uma fração mínima de atletas olímpicos vivos, cada perda devia ser um momento de memória coletiva e não apenas um ato protocolar discreto.

E mais revelador ainda: numa comunidade de cerca de 850 atletas olímpicos vivos, terão estado presentes na cerimónia derradeira do adeus apenas cerca de 15 olímpicos. Um número que diz muito. Demasiado pouco para a grandeza do atleta. Demasiado pouco para a solidariedade que merecia. Demasiado pouco para um país que gosta tanto de se rever nas vitórias mas se encolhe perante o dever de presença.

Isto repete-se ciclicamente, com nomes diferentes e histórias semelhantes.

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O balão enche, o balão esvazia.

E o sistema permanece igual.

Até ao próximo herói.

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Por Luís Alves Monteiro
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