É preciso gravar em memória de ouro aqueles escassos segundos. Primeiro um remate croata defendido magistralmente por Rui Patrício para o poste. Depois a recuperação de bola na direita, quase junto à bandeirola de canto, com Quaresma e Ronaldo a caçarem em alcateia. Depois o início da vertigem de um contra-ataque que merece várias páginas em qualquer manual de futebol.
Ronaldo levanta a cabeça e põe em Renato. Renato baixa a cabeça e toca de galgar metros como se fosse um sagitário em galope. Com 117 minutos nas pernas, Ronaldo e Nani acreditam naquela seta que bafeja os ousados. Partem na busca dos dois flancos, Ronaldo na direita, Nani na esquerda. Quaresma não quer ficar atrás dos dois e dá uma linha de passe mais central. Sanches opta pela esquerda. Nani, vamos acreditar, opta por servir Ronaldo na direita, apesar de o capitão ter pouco ângulo para o golo. Mas Ronaldo não é de hesitar. O remate é digno da grande defesa e o ressalto apanha Quaresma no espaço cósmico necessário para nos dar a vitória.
Este movimento de êxtase coletivo é talvez irrepetível. Mas outros haverá guardados para o momento em que Fernando Santos resolva lançar Renato Sanches no campo. E depois Quaresma. Sim, as armas mais poderosas não devem ser usadas todas ao mesmo tempo. O futebol de Renato Sanches e Quaresma é menos entendível pelos defensores quando já estão cansados. Depois do intervalo ninguém ouve o técnico ou vê os seus gestos como nos primeiros 20 minutos. Fernando Santos está certo.
Por Octávio Ribeiro