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Quando, em maio de 2008, após um Campeonato do Mundo de artes marciais para surdos, se despediram, como ‘desconhecidos’, em pleno aeroporto de Lisboa, Hélder e Joana mal imaginavam aquilo que se seguiria nas suas vidas. Unidos pelo amor ao desporto, nomeadamente às modalidades de combate - ele ao taekwondo e ela ao judo -, acabariam, no entanto, por ficar ligados por um sentimento bem mais forte. O amor um pelo outro, que nem mesmo a distância entre ambos (ele mora em Leiria e ela em Faro) conseguiu travar. São namorados desde 2009 - no primeiro dia do ano... - e são também duas das grandes esperanças para conseguir medalhas nos Jogos Surdolímpicos de Samsun (Turquia), que arrancam esta terça-feira.
A química de ambos - que se nota a ‘léguas’ - começou bem cedo, mas até ser dado o primeiro passo... foi o cabo dos trabalhos. "Na altura simpatizámos um com o outro. Achei-a muito bonita, mas foi cada um para seu lado...", recorda-nos Hélder, de 34 anos. Joana, de 27, também ‘aprova’ esse amor à primeira vista que apenas foi ‘travado’ no imediato pela... timidez: "Queria ter o número dele, mas tinha vergonha de lhe estar a pedir". Não foi ali… foi alguns meses depois.
Hélder deu o passo em frente, à ‘boleia’ de "questões ligadas ao CPP" e, dali… foi sempre a ‘subir’, até ao ponto de ser alcançado um registo inacreditável de mensagens trocadas entre ambos num mês: 1.500! Sim, leu bem. "Não podíamos telefonar, porque somos surdos e então tinha de ser através de mensagens", justifica Hélder.
Das mensagens – aos milhares – chegou depois o passo seguinte. O (re)encontro entre ambos. Deu-se em Lisboa, aquando da Miss Surda, em agosto. "Começámos a conversar mais nessa altura, interessamo-nos um pelo outro e acabámos por nos apaixonar", lembra Hélder, sempre interventivo. De agosto em diante, mais mensagens, uma ligação cada vez mais forte, até que, no primeiro dia de 2009… tudo mudou em definitivo. "O primeiro beijo foi na passagem de ano." Diz-nos com um enorme sorriso Joana, que guarda ainda mais memória do primeiro dia do ano, neste caso do de 2014. "No mesmo sítio, cinco anos depois, o Hélder ajoelhou-se e fez o pedido de casamento". A relação segue de vento em popa, derrubando tudo e todos, nomeadamente a distância, que é combatida com mestria, com o auxílio das novas tecnologias. Agora, com muito menos mensagens trocadas, a comunicação é feita por Skype ou Messenger, mas, como nos diz Hélder, importante é estarem juntos, até porque, refere, "tem muito amor" por Joana e não quer que a distância vença.
A caminhar até serem velhinhos
Joana partilha da mesma opinião e aproveita para recordar um facto curioso: sempre que um está presente, o outro vence. Hélder, de sorriso no rosto, lá reforça a sua importância na carreira da cara-metade. "Então se ficasse em casa… se calhar tinhas perdido? Eu é que te salvei, ao ir contigo, dar-te amor e energia. Eu é que te fiz ganhar!", atirou o lutador de taekwondo, que em Samsun vai disputar os seus últimos Surdolímpicos. É que, aos 34 anos, Hélder sente que está na hora de atentar a outros aspetos da vida.
"Terei de pensar na minha vida, na família, no futuro, no trabalho. Pensar na vida, no dinheiro… Se não tivesse trabalho, poderia pensar dedicar-me ao desporto mais quatro anos, mas sou trabalhador e desportista ao mesmo tempo. E isto é cansativo, com muitas viagens pelo meio. Penso que será a minha despedida. Não creio que faça mais quatro anos", admite.
Joana, logo ali ao lado, reconhece o "sentido de responsabilidade maior" que o seu namorado tem, mas deixa o alerta: "Não quero que ele fique parado e que engorde!". Hélder ri-se e projeta já uma vida futura, sempre a dois. "Não me vou preocupar com as competições, mas vamos continuar os dois para o resto da vida, até seremos velhinhos, com o desporto. Vamos caminhar... Os velhinhos também o fazem… Faz bem à saúde", diz. Joana faz sinal positivo à ideia e sorri quando Hélder lhe promete que irá estar sempre a apoiá-la, seja "na Rússia ou nos Estados Unidos".
Um carro sempre em andamento
"Às vezes pego no carro e lá vou eu..." Há praticamente meio país a separá-los, mas sempre que a saudade aperta, Hélder nem hesita e ruma a Sul. O historial de viagens já é tão longo, que o carro do lutador aproxima-se perigosamente dos 500 mil quilómetros "de tantas idas e vindas". Os treinos também ajudam a este número – tem de ir de Leiria a Peniche –, "mas essencialmente por causa das idas a Faro". Preocupado com essa situação? Nem por isso... "Não interessa... o carro ainda está vivo!", exclama.
Joana muda-se para Leiria
A decisão já está tomada: depois dos Jogos, Hélder e Joana vão morar juntos. O novo ninho do casal será assente em Leiria, terra de Hélder, essencialmente pela questão profissional. "Já estou a trabalhar como efetivo há cerca de oito anos e então é melhor assim", diz-nos Hélder. Joana concorda, sorrindo ao olhar para o futuro e a dizer uma frase que caracteriza na perfeição esta nova fase das suas vidas. "Depois dos Jogos vamos começar este caminho juntos."
Em busca de mais medalhas para Portugal em Samsun
Joana Santos chega aos Jogos com o estatuto de vice-campeã surdolímpica, ao passo que Hélder vem do bronze conseguido em Sófia’2013. Ambos apontam às medalhas, para manter o rumo ganhador. "É muito importante, porque fica na história, fica gravado que Portugal conseguiu", explica Hélder. Joana também se mostra confiante, ainda que com alguma cautela, especialmente devido a uma lesão sofrida recentemente no pulso. "Foi azar, ninguém é perfeito. Mas sinto-me bem, sinto-me com força", garante.
Ora, para lá de Hélder e Joana, no taekwondo e judo, respetivamente, Portugal estará na Turquia representado em mais quatro modalidades, num total de onze atletas. Nesse sentido, destaque para Hugo Passos, e grande referência dos surdolímpicos no nosso país, que defende o título olímpico de lutas amadoras de Sófia.
Por Fábio Lima