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Maratona de Genebra: em harmonia com a natureza

Maratona de Genebra: em harmonia com a natureza

Quando há dois anos me inscrevi na Maratona de Genebra, longe estava de pensar que apenas iria corrê-la em 2020 e que, principalmente, iria sofrer como nunca antes com o calor. O mês de maio não é o mais recomendado para fazer maratonas, mas estando numa zona central da Europa, e olhando ao registo histórico, dificilmente podia imaginar que naquele domingo iria encontrar temperaturas a roçar os 30 graus... Mas aconteceu. E mostra que, dúvidas houvesse, o planeta está mesmo mais quente. Assustadoramente mais quente. E é por aqui quero começar, antes de ir à prova propriamente dita. Porque está nas nossas mãos, nós que somos apaixonados pela atividade física, pelo desporto, que gostamos de estar em contacto com a natureza, travar ou atenuar este fenómeno. Gostava que isto fosse a exceção, mas com o andar das coisas acredito que passará a ser a regra e isso deve preocupar-nos bastante...

Mas bem, vamos lá a Genebra. Uma maratona numa cidade belíssima, ali paredes-meias com França, rodeada por um enorme lago e com montanhas a tornarem a paisagem num verdadeiro cartão-postal. Haverá melhor resumo para vos aliciar a lá ir um dia? Não fosse o calor e teria sido efetivamente uma maratona perfeita. Digna daquilo que tenho tentado fazer nos últimos meses: conhecer novas cidades, divertir-me e desfrutar das maratonas. Não me entendam mal, em Genebra desfrutei e diverti-me, mas com tanto calor associado a prova acabou por se tornar em determinado ponto algo penoso. E isso tirou logo um pouco de todo o brilho da experiência.

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A hora de partida também não ajudou, é verdade, mas aí não havia nada a fazer. Porque, ao contrário do que muitas vezes achamos, as organizações não têm carta branca para fazer as provas quando bem entendem e todas as decisões que tomam são baseadas, na maior parte das vezes, em razões válidas. Aqui não foi exceção, até porque, convenhamos, os suíços não são propriamente conhecidos pela sua falta de capacidade de organização de grandes eventos. Antes pelo contrário. Aqui não se brinca, não se faz nada ao acaso nem a meio termo. É sim, ou sopas!

Basta olhar para o facto de ter sido feito um trabalho com as autoridades camarárias para ter uma paragem de metro ao lado da zona da partida, localizada em Chêne-Bourg, a cerca de um quilómetro de França. Ali, no meio do nada. Isso mostra desde logo que há uma articulação entre as duas partes e que esta prova é verdadeiramente uma aposta da cidade nesta vertente do 'maraturismo'.

E foi dali, no meio do nada, que parti para a Maratona de Genebra. A sétima de uma longa jornada que se iniciou em Sevilha, em finais de fevereiro. As pernas já não estavam propriamente no seu melhor, por isso aqui o segredo era fazer uma gestão cuidada das energias, de forma a chegar ao final intacto.

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Um cenário de sonho

Quando arranco tento 'meter' um ritmo constante e relativamente confortável. Consigo-o, mas não tão lento quanto gostaria. Parece impossível conseguir começar lento uma maratona! Pode ser já a sétima do ano, mas a emoção e o entusiasmo de estar naquela linha de partida é mais forte do que qualquer coisa.

Os primeiros quilómetros são feitos numa zona residencial, mas sem grande apoio popular. Seguimos mais para diante e entrámos definitivamente no 'core' desta maratona: zonas rurais, entre campos de pasto, vinhas, com vacas e cavalos a verem-nos passar... Foram mais 20 quilómetros disto, o que em condições normais seria algo absolutamente incrível, já que estávamos a correr de forma livre, sem a poluição citadina, só nós e a natureza… o sonho de qualquer corredor. Era isso que aqui tínhamos. Éramos só nós, os maratonistas e, aqui e ali, algumas pessoas que vinham para nos apoiar. Num mês de março diria que esta maratona era uma experiência absolutamente sensacional. Em maio, com temperaturas anormalmente elevadas, tornou-se numa penosa travessia do deserto. Literalmente.

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A cada abastecimento era um alívio. Um copo para beber, um restinho para refrescar, um outro copo para refrescar. Foi assim nas dez vezes em que encontrei abastecimentos. Tinha mesmo de ser. Não exagero se disser que bebi, facilmente, 1 litro e meio de água durante a maratona. Em certos abastecimentos cheguei a beber dois copos de água. Nunca antes tinha sentido tanta necessidade de beber. Mas era absolutamente necessário, de forma a não encontrar problemas no final, como aqueles que vivi em Praga, na semana anterior.

O apoio popular não se fazia sentir de forma massiva, mas sempre que ele surgia percebia-se que aquelas pessoas sabiam o que nós estávamos a enfrentar. Gritos de incentivos, aplausos e umas belas mangueiradas para refrescar os nossos motores, que nesta altura já iam ali bem próximo do vermelho. O dorsal de cada um de nós tinha a nossa bandeira e, por estarmos numa zona da Suíça bastante 'aportuguesada', não foram raros os momentos em que ouvimos uns 'vamos' bem portugueses. E isso, parecendo que não, tem mais força do que um 'allez' francês. Porque é alguém do nosso país que o faz, porque é a nossa língua a ser falada... Isso funcionou comigo e tentei também que funcionasse com alguns corredores portugueses que ultrapassei durante a prova. Sempre que percebia que eram meus compatriotas, não deixava de dar uma palavra de incentivo. Grande parte das vezes através de um 'vamos, c...!' Assim não havia dúvida: este era mesmo português!

Ainda faltam 10?

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Os quilómetros na zona rural foram passando e, num ápice, entramos naquela zona definitória da maratona, que neste caso coincidia com a aproximação definitiva ao centro da cidade e à meta instalada na Pont du Mont-Blanc. Passámos um longo túnel, com um ambiente incrível proporcionado pelo 'naming sponsor' do evento e, depois de uma ligeira subida, baixámos e temos o primeiro vislumbre do emblemático Jato de Água da cidade. O problema? Ainda estávamos nos 32 quilómetros. Foi uma espécie de anti-climax. Olho em diante e sorrio ao ver o Jato. Baixo o olhar para ver o relógio e desanimo ao perceber ainda faltava tanto. Mas tanto...

Dez quilómetros naquela fase eram quase uma tortura. Principalmente por causa do calor. O relógio já apontava perto das 13 horas e o sol estava lá em cima. A tornar a nossa corrida em algo bem mais difícil. A descida do túnel até ao nível do lago permitiu recuperar o fôlego. Mas não por muito tempo. Nesta fase tinha de saber ser inteligente na gestão da corrida. Corri até perto dos 35 quilómetros, antes de abrandar e fazer um passo apressado enquanto aproveitava um dos abastecimentos. Não havia por que forçar. A meta estava logo ali, não havia tempo para bater. Havia apenas uma maratona para concluir.

Dali em diante as ruas foram enchendo-se ainda mais de pessoas. Um apoio que agora, finalmente, nos empurrava rumo à meta. Passo junto ao Jato, faltavam quatro quilómetros. Observo a zona da meta ao meu lado direito, faltavam três. Só tinha de fazer um curto (e chato) desvio ao centro da cidade antes de entrar definitivamente na passadeira vermelha da meta. Nesta fase encontro uma corredora portuguesa, com as cores da Casa do Benfica de Abrantes, e corro com ela uns 500 metros. Aqui já estávamos para lá dos 40 quilómetros, já só faltava um bocadinho. Dei-lhe uma ajuda no ritmo, incentivei-a e, momentos depois, deixei-a seguir sozinha. As minhas pernas não davam para muito mais.

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Tentei dali em diante não voltar a parar, mas a uns 600 metros da meta tinha novamente de dar uma última caminhada. Quando arranco de novo… agora era a valer. Quando me aproximo da Pont du Mont-Blanc começo a sentir ainda o apoio popular e agora não havia volta a dar. Não se podia parar. Coloco a bandeira às costas, câmara a filmar na mão e era hora de desfrutar o momento e viver a sensação de cruzar aquela meta – ao contrário da semana anterior em Praga. E mesmo que tenha feito um dos meus piores tempos na distância, neste momento pouco importa. O que importa é a sensação de concluir mais uma maratona e ter a certeza de que estou a ouvir o meu corpo e, mesmo no meio da loucura, o estou a ouvir e a respeitar. Quando assim é, tudo tem mais sentido e correrá da melhor forma.

De Genebra levo uma maratona que me fez reconciliar com a distância, mesmo com todas as dificuldades associadas. Que me fez reforçar ainda mais o respeito que os 42 quilómetros e 195 metros me merecem. E levo também a certeza de que, num dia normal, sem tanto calor, esta maratona tem tudo para ser incrível. E foi, não fosse terem ligado a sauna naquele dia... Nada que uma bela cerveja (portuguesa) não resolvesse no final!

Por Fábio Lima
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