Maratona de Londres: a experiência de correr numa edição histórica

Participantes na Maratona de Londres correm perto do Palácio de Buckingham.

Sevilha, Nova Iorque, Boston, Chicago, Valência… Estas eram, até este dia, as minhas maratonas preferidas. Umas pela ligação sentimental à cidade e pelas memórias que me trazem; outras porque simplesmente são provas de uma dimensão surreal. Londres, por tudo aquilo que lia, pelo absurdo número de pessoas que a cada ano tentam entrar – para 2027 houve recorde de candidaturas ao sorteio… outra vez -, era aquela que maior curiosidade me despertava e considerava capaz de intrometer-se naquele top. Ou, quiçá, assumir a ponta do mesmo.

No domingo 26 de abril, num dia histórico para o atletismo pelos primeiros dois Sub-2 da história, pude tirar as teimas. E confirmar, sem grandes dúvidas. Esta é, definitivamente, a maior e melhor maratona do mundo. A primeira parte é dita pelos números, com o recorde de finishers alcançado este ano (59.830). A segunda é, no final de contas, uma opinião minha. Uma opinião que acredito muitos partilhem. Porque é impossível ficar indiferente a tudo aquilo que se vive naqueles 42 quilómetros e uns pozinhos, entre Greenwich e o The Mall.

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O ter estado presente numa prova com os primeiros sub-2:00 da história – no meu terceiro recorde mundial (depois de e ) – apenas adiciona um toque ainda mais especial a toda a experiência.

 

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De quarta a sábado, o grande centro da prova é a feira do corredor. Localizada no Excel London, na zona Este da cidade, é um espaço bastante amplo, mas algo confuso. E essa, na minha opinião, é provavelmente a única coisa que apontaria como algo a rever em toda a organização.

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No capítulo das feiras das provas, gosto quando há uma sequência lógica. Entras, tens um caminho certo a seguir e não andas às voltas feita barata tonta. Em Londres, com exceção do ponto inicial, onde recolhemos o nosso dorsal e bolsa para o bengaleiro, e do enorme espaço da New Balance – com uma coleção especial a preços proibitivos (casaco oficial a custar uns impressionantes 135 pounds/156 euros. Mas está tudo doido?!) -, tudo o resto é algo confuso.

Mas, bem, falando do processo em si, a lógica é simples e fácil.

Transportes: a partir do centro, através da Elizabeth line. Lá chegados, basta seguir as indicações e num ápice estamos dentro do espaço dedicado à prova.

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Recolha do dorsal: feito logo à entrada, com o recurso ao QR Code da aplicação da prova e apresentando o nosso documento de identificação.

O que está incluído: dorsal, bolsa para o bengaleiro e ainda a t-shirt da prova

Expositores presentes: New Balance, AMAZFIT, CLIF Bar, Garmin, Hyperice, Maurten, Nomio, Saysky, etc.

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Neste particular, nota-se que as principais marcas de artigos desportivos não estiveram presentes. Não sabemos se por desinteresse/preços demasiado caros ou por imposição da New Balance, a principal patrocinadora.

Foto: London Marathon Events
Foto: London Marathon Events
Foto: London Marathon Events
Foto: London Marathon Events

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Com cerca de 60 mil corredores, a logística do dia de prova, pelo menos no início, é sempre o grande desafio da Maratona de Londres.

Como conseguir colocar 60 mil pessoas no mesmo espaço? Como garantir que não há confusão em excesso? Que tudo flui de forma perfeita para que ninguém perca a sua saída ou tenha uma má experiência de prova? Que há casas de banho para todos? Que as mochilas do bengaleiro são recolhidas e entregues da melhor forma?

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Muitas destas questões terão passado pela cabeça da equipa da organização, mas os quase 50 anos de experiência terão certamente ensinado alguma coisa. Porque, neste dia, tudo foi absolutamente perfeito.

Para chegar à partida, em Greenwich, temos acesso gratuito aos transportes, que são ligeiramente reforçados para suportar a magnitude da avalanche humana que se desloca para o lado Este da cidade.

5 zonas de ‘reunião’ dos corredores, correspondentes à cor de cada zona de partida: Blue, Green, Pink, Red e Yellow. Dentro de cada zona há várias ondas, definidas pelos tempos de registo expressos nas inscrições. A ideia é colocar os mais rápidos na frente e progressivamente os mais lentos. Como devia sempre ser.

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Nessas zonas de reunião temos urinóis (masculinos e femininos – podem ver este vídeo para explicar como são os femininos…), casas de banho 'normais', pontos para abastecer água e ainda os camiões do bengaleiro, que estão suficientemente bem divididos para que seja incrivelmente rápido deixar as mochilas (que têm de estar no saco da organização).

Temos também um pequeno espaço onde podemos fazer o nosso aquecimento. Não sei se estava lá para isso ou se simplesmente se proporcionou, mas deu para fazer cerca de 2 quilómetros mais uns drills antes do tiro de partida.

Foto: London Marathon Events

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Estava colocado na zona Pink e, sem ter experimentado qualquer uma das outras, sou capaz de assumir que é provavelmente a melhor de todas. O espaço é modesto. A partida não é nada estrondosa. Não tem grande artifícios. Mas tem o que precisamos: espaço para correr sem problemas. E, acima de tudo, sem complicações de quem está ali para atrapalhar os outros.

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Como parti na Wave 1, estava junto de quem correria mais ou menos ao meu ritmo (a ideia era fazer 2:52:00) e, por isso, foi muito fácil meter o ritmo desde o primeiro metro. Sem qualquer empurrão, sem qualquer tipo de confusão. Não me lembro de ter corrido uma grande maratona desta forma!

O único ponto menos positivo deste arranque – que se alarga a todas as partidas – passa pelo facto dos primeiros 5 a 10 quilómetros terem vários obstáculos perigosos, nomeadamente as lombas na estrada. Sim, elas estão bem identificadas e até temos voluntários a sinalizá-las, mas um pequeno deslize pode ser fatal. E quase foi!

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Os primeiros quilómetros têm algum apoio, mas acho que ele apenas assume contornos de loucura ali por volta dos 7, 8. Já no coração de Greenwich, são milhares as pessoas que se perfilam junto da estrada para apoiar quem por ali está a correr. Uns aos berros, outros apenas a envergar cartazes de apoio e/ou bem humorados, todos estão ali para dar um empurrãozinho para tornar os 42 quilómetros em algo menos duro.

O primeiro grande ponto de loucura é a passagem junto do Cutty Sark, no coração de Greenwich. Um enorme cordão humano, gritos e mais gritos. É difícil segurar o ritmo tal é o entusiasmo que ganhamos naquele momento – mas também porque aqui o GPS perde um pouco o controlo.

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Os quilómetros seguintes são um pouco mais calmos, sim, mas mantendo o apoio constante, com os pubs à beira da estrada a transformarem numa espécie de bancada para assistir ao espectáculo que é a passagem de mais de 50 mil pessoas na sua longa jornada de superação.

Cutty Sark, o primeiro momento de loucura
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Depois do Cutty Sark, chega aquele momento que, na minha opinião, apenas encontra paralelo com a entrada na First Avenue na Maratona de Nova Iorque. A passagem na Tower Bridge. É mais ou menos um quilómetro de absoluta loucura, entre os 19 e os 20 e qualquer coisa.

Ainda antes de fazermos a curva à direita para a entrada na ponte já se ouve ao fundo o ruído. Nem era preciso levantar a cabeça assim que entramos na reta que vai ter ao tabuleiro. O barulho guia-nos. É uma verdadeira loucura. E se no Cutty Sark é complicado segurar o ritmo, aqui é ainda pior. As pessoas gritam, berram… Naquele momento quase nos sentimos como atletas olímpicos, como verdadeiros super heróis, a aproximarem-se da meta mais desejada.

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Só que aqui ainda vamos aos 20 quilómetros e, infelizmente para as nossas pernas, ainda há muito para correr. Mas felizmente para a nossa mente, pela experiência que queremos levar, ainda há tanto mais para viver.

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Quando vos disserem que Londres é plana, não acreditem. Sim, há provas bem mais duras do que a maratona britânica, mas este percurso não é definitivamente tão plano quanto Valência, Sevilha ou Berlim. E isso, olhando ao registo de Sabastian Sawe e Yomif Kejelcha, mostra ainda mais a valia da performance surreal deste duo.

O começo é a descer. Isso é inegável. Mas o que se segue é um misto entre terreno plano e aquele falso plano que não mata… mas mói. Por exemplo, a Tower Bridge sobe ligeiramente antes de descer.

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Já do outro lado do Tamisa, voltamos à direita e vamos até Canary Wharf, o mais recente centro financeiro da capital britânica, sempre numa estrada relativamente plana. São praticamente uns 8 quilómetros sempre a abrir, até aos 30.

Aí, depois de algumas curvas e contra-curvas, sempre com um apoio incrível à nossa volta, vamos deixando progressivamente o centro financeiro para rumar à zona da meta. Antes disso, quase como se fosse uma derradeira barreira antes da barreira psicológica do muro, temos uma pequena subida aos 31. Num treino normal, aquela pequena inclinação seria algo fácil. Com três dezenas de quilómetros nas pernas… é complicado! Especialmente quando esta é das zonas com menos público.

Tudo começa a doer nesta fase. Ainda para mais quando não estamos a 100%. No meu caso, cheguei a Londres com um pequeno problema na perna direita. Até aos 30 e qualquer coisa ele não se fez notar. Mas com o acumular da fadiga, com um ritmo que apontava para as 2:52:21 aos 30 quilómetros, o corpo começou a ceder.

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Aí funcionaram dois pontos fundamentais. A crença própria e a vontade de superação pessoal. Mas, acima de tudo, o apoio imenso que ali estava.

Entre a saída de Canary Wharf até à viragem para a meta, não me lembro de ver um metro sem gente. Quando vos disserem que Londres é uma loucura. Se calhar estão a ser modestos na análise. Vai muito para lá disso.

Nestes últimos 10 quilómetros, para mal dos meus pecados, o corpo pediu-me para parar umas 3 vezes e caminhar outras tantas. Sempre que voltei a correr foi porque, do outro lado das barreiras, alguém estava lá para puxar por mim. Alguém que não me conhecia, mas que sabia que aquele pequeno incentivo podia fazer a diferença. E fez. Muito!

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Fãs apoiam corredores na Maratona de Londres com cartazes e mensagens

 

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Infelizmente a minha Maratona de Londres não terminou com o tempo que pretendia. Mas isso não tirou, de modo algum, a magia do dia vivido. Não podia tirar. Porque acabar uma maratona, seja em que tempo for, é sempre um motivo de satisfação.

Por isso, assim que vi o Big Ben, algures pelos 41 e qualquer coisa, tratei de absorver o momento. E, se lá forem, aconselho a fazerem o mesmo. A multidão que está ali merece-o. Não só a desse ponto. Mas a de todo o percurso.

Do Big Ben há apenas mais duas viragens. Mas antes disso há a Birdcage Walk. Uma avenida que, infelizmente para muitos, faz jus ao nome. Obriga a caminhadas. Foi o nosso caso. As pernas já não davam para mais e, ali mais ou menos a meio, tive necessidade de dar-lhes um pequeno respiro. Caminhei por uns 10 segundos e segui. Agora era até ao final.

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Levanto a cabeça e vejo ao fundo o Palácio de Buckingham e o Queen Victoria Memorial. Sabia que já faltava tão pouco. O objetivo de tempo já inalcançável. Mas a meta estava ali à minha mercê. Viragem à direita, uns últimos gritos de apoio e, ao fundo, a meta mais sonhada. Talvez das mais sofridas dos últimos tempos. Mas certamente a mais saborosa.

Os últimos 300 metros e qualquer coisa (“385 yards to go”, what the fuck?!?) foram feitos com energia que achava que não tinha. Assim que cruzo a meta, respiro fundo e solto um sorriso de felicidade.

Fiquei a 6 minutos e 21 segundos do meu objetivo. Mas nem por um segundo fiquei desapontado pelo meu resultado naquele dia. Londres e as suas gentes não mereciam esse sentimento por tudo o que me deram neste dia.

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Momentos depois, era hora de retribuir um pouco o que me foi dado. E aconselho todos fazerem o mesmo.

Quando recebo a medalha e um “congratulations” de uma voluntária, simplesmente agradeço. “Thank you. You are amazing“. E ela, quase surpreendida, responde “no, you are amazing“.

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Aquele meu agradecimento e elogio foi para ela, uma senhora já a caminho dos seus 50 (ou já para lá deles…), mas era para toda a organização da Maratona de Londres e, principalmente, para os milhares e milhares (seriam milhões?!) que saíram às ruas para nos apoiar. Londres é uma maratona especial. Quem lá vai diz sempre isso. E acho que, mesmo depois de tantas palavras escritas, não consegui descrever tudo o que vivi ali.

Se tiverem a oportunidade de lá correr – e espero que tenham! – vão confirmar tudo isto!

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A incrível medalha que recebemos no final
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A.B.S.O.L.U.T.A.M.E.N.T.E. Até este dia achava Nova Iorque como sendo a prova com o melhor ambiente, com o apoio mais entusiasta. A partir de 26 de abril de 2026 o meu top tem um novo líder: Londres assume a ponta com uma nota praticamente perfeita.

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Como chegar

De todas as Majors, Londres é provavelmente aquela à qual é mais fácil chegar. De Lisboa temos voos para todos os aeroportos da cidade, desde as low cost até à TAP. O nosso conselho passa por evitar voar em low cost e aterrar ou em Heathrow (ligação direta pelo metro ou Heathrow Express). Gatwick é também uma boa opção, pois os comboios colocam-nos no centro rapidamente. Stansted e Luton, ficando mais longe do centro, costumam demorar eternidades na deslocação.

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No dia de prova temos transportes gratuitos para a partida e também até determinada hora após terminarmos. Por outro lado, há que ter algo em atenção: a zona da meta tende a ficar muitíssimo congestionada e as estações de metro próximas costumam fechar. Por isso, o ideal é ter isto em conta e planear o regresso a casa com uma caminhada adicional até a uma estação mais longínqua.

Onde ficar

Depende principalmente da carteira. Do ponto de vista logístico, para facilitar o dia da prova, diria que seria perfeito ficar na zona de Greenwich ou, então, a meio caminho de Londres. Normalmente o alojamento será um pouco mais barato e ganham alguns minutos de descanso no dia da prova (e até para ir à feira). O inconveniente é o pós, pois para aproveitarem Londres depois da prova só têm duas opções: ou levam roupa e trocam sem tomar banho; ou voltam a casa, tomam banho e regressam a Londres, o que vos faz perder imenso tempo.

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O que comer e onde

Londres é uma verdadeira capital do mundo. Há comida para todos os gostos. No nosso caso, mantendo-nos fieis à nossa tradição, no pré-prova comemos pizza e um tiramisu. Recomendamos altamente o restaurante escolhido na zona de Greenwich (The Prince of Greenwich Pub).

No pós prova, mais do que escrever o que quer que seja, deixo este post que coloquei no Instagram. Por ser fim de semana de maratona, são inúmeros os locais que oferecem comida (e outras ofertas) a quem mostra a medalha. Há outros que dão descontos, mas nós gostamos é de borlas… No caso, terei poupado facilmente umas 100 libras!

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Por Fábio Lima
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