O mundo do atletismo está cada vez mais focado nos tempos rápidos e foi com esse pensamento que, há uma semana, estivemos na Maratona de Milão. Afinal de contas, ao analisar a lista de tempos mais rápidos de sempre, foi ali que em 2021 a prova italiana se fixou como a quinta mais rápida do mundo, apenas atrás de Berlim, Londres, Valência e Tóquio. Pensamos logo de imediato que estaríamos perante um percurso incrivelmente plano. Não podíamos estar mais enganados. E a justificação é simples: aquele tempo de 2021, os 2:02.57 de Titus Ekiru, foram feitos num percurso diferente, num circuito criado apenas para a elite ainda em plena pandemia de Covid-19. O percurso aí era mesmo totalmente plano e propício a marcas brutais. Nada a ver com aquele que corremos há uma semana... Também não é o mais difícil do mundo, mas longe está de ser dos mais rápidos. Especialmente quando colocamos em comparação com Berlim, Valência ou Sevilha.
O que está lá é a qualidade global do evento. Milão é uma cidade bonita, interessante e o percurso acaba por nos dar um passeio por alguns dos pontos mais emblemáticos. Especialmente o icónico Duomo di Milano, por onde passamos por volta dos 10 quilómetros, ou o Arco della Pace, que observamos aos 4 e 36 quilómetros. De resto, sendo uma cidade que não é tão grande quanto isso, somos 'obrigados' a fugir da zona central e ir para os arredores. É aí que passamos logo ao lado de San Siro - aos 22 -, o estádio de AC Milan e Inter Milão. Apoio era praticamente nulo nesta fase, mas para um fã de futebol é sempre interessante passar em algo tão imponente e icónico como o estádio dos dois principais clubes da cidade. Depois desse ponto de maior acalmia, consoante nos vamos aproximando da meta vamos tendo cada vez mais apoio popular. Não temos multidões nas ruas a empurrar-nos, mas eles estão lá na dose necessária para nunca nos deixar quebrar.
Para lá de assinalar a passagem por esses pontos, falar do percurso obriga-nos também a realçar alguns pontos de maior dificuldade, com duas subidas que nos colocam as pernas no lugar. Foi aí que percebemos que algo não batia certo com aquela tal marca de recorde de Titus Ekiru... Tinha de haver uma explicação. E havia! De resto, mesmo com algum sobe e desce leve, o percurso é relativamente 'rolante' e permite-nos manter um ritmo constante sem grandes problemas. Um dos pontos que, ainda assim, nos faz perder algum andamento é provocado pelos abastecimentos, que no nosso entender nos pareceram algo curtos para um pelotão com cerca de seis mil atletas. Parecem poucos, mas em ritmos menos rápidos, onde há grupos maiores, tornou-se complicado conseguir apanhar a água sem ter de parar.
Esse será, eventualmente, um dos poucos pontos que encaramos como melhoráveis. Tal como o procedimento de entrada nas caixas de partida. E aqui entendemos que a organização tem tudo para tornar esse processo em algo muito rápido e simples, mas meteu os pés pelas mãos. Isto porque a partida dá-se junto a um enorme parque, ao qual acedemos através das nossas 'portas' previamente definidas. A lógica seria: entramos ali e vamos logo diretos para a nossa zona específica. Só que não é isso que sucede. Entramos e ficamos novamente todos misturados e é assim que seguimos para a zona de partida, através de um corredor único que, a poucos minutos do arranque, nos provocou um stress extra. Mas nada de grave. É apenas um ponto a melhorar.
No global, num país que tem poucas provas rápidas, Milão será certamente a melhor opção para quem quer ter uma experiência voltada para a performance. Roma será a melhor do ponto de vista turístico, até porque o percurso é mesmo pensado para esse aspeto, mas correr uma maratona com tanto empedrado não é propriamente o melhor amigo dos recordes. Aqui em Milão também o temos, mas com umas condições muito boas e apenas em poucos quilómetros.
E já que estamos em Milão e em Itália, é óbvio que temos de celebrar a conquista a comer uma bela pizza. E as opções são algo que não falta!
NOTAS FINAIS
Percurso: 8/10
Viemos a Milão enganados pelo tal registo de Titus Ekiru, mas tirando o facto da prova não ser tão rápida quanto esperávamos, gostamos do percurso e daquilo que observámos. Temos alguns pontos menos interessantes nos arredores, mas a passagem por San Siro acaba por compensar um pouco esses momentos menos interessantes. Os pontos na zona central da cidade, como a passagem pela Duomo, valem definitivamente a visita.
Logística: 8/10
No global, toda a logística de prova está muito bem conseguida. A recolha do kit de prova é rápida e nada confusa, numa feira bastante bem organizada e com muitos espaços com interesse de visitar. Diríamos que 30 minutos chegam e sobram para recolher tudo e ainda visitar os espaços em busca de novidades.
No dia de prova, como escrevemos acima, acreditamos que algo de diferente podia ser feito no corredor que vai do parque à zona das caixas de partida. O procedimento de partida é feito em duas faixas, com espaço suficiente para todos (éramos 10 mil) e nem houve qualquer problema em encaixar o ritmo alvo para a prova. Durante a prova o único ponto de consideramos que pode ser melhorado é mesmo as mesas de abastecimento, que são demasiado pequenas.
Depois da prova, todo o procedimento é muito rápido e bastante bem organizado. É feito numa longa avenida, onde recebemos um saco com fruta, água e outro tipo de produtos, a tshirt de finisher e ainda a medalha. Depois disso, temos de andar mais um pouco para chegar ao bengaleiro, onde o processo de levantamento das mochilas é muito eficiente. Mais uns passinhos e estamos livres para sair e ir à nossa vida. Sem grandes confusões.
Ambiente: 7/10
Cerca de metade da prova é feita na zona mais central de Milão e aí temos muito apoio popular. O resto da prova, pelo contrário, é feita nos arredores e aí, como seria um pouco de esperar, os pontos de apoio são raros. Ainda assim, a verdade é que o apoio surge na hora certa: dos 35 em diante, quando a 'coisa' começa a apertar.
Medalha e t-shirt: 8/10
Nem todos vão gostar, mas nós apreciámos aquilo que nos foi entregue. A camisola de finisher (entregue após cruzar a meta) é da ASICS, a marca patrocinadora do evento, e tem uma boa qualidade de tecido. Já a medalha, é diferente do habitual 'redondo' que estamos habituados a ver: é retangular e apresenta na zona frontal a menção do nome da prova e também a palavra 'FINISHER'.
Preço: de 59€ até 92€
Neste ponto da inscrição, é necessário ter muita atenção aos requisitos para correr em Itália. Para participar nas provas é sempre necessário ser federado e/ou possuir um atestado médico. Caso contrário... não há prova para ninguém.
Como chegarTanto a partir de Lisboa como do Porto temos voos diretos para a cidade italiana. Lá chegados, há várias opções para chegar ao centro de Milão. Comboio é aquela que recomendamos, mas podem também ir de autocarro. Se escolherem o comboio, tenham em atenção qual a estação de destino (Centrale, Cadorna ou Porta Garibaldi) e não se esqueçam de validar o bilhete antes de entrar. Onde ficar
Milão é uma cidade um pouco mais cara do que esperávamos em termos de alojamento. Sendo a partida e a meta localizada no mesmo espaço, escolher um local para ficar perto dessa área é uma boa opção. Ainda assim, havendo em Milão uma rede de metropolitano que nos pareceu bastante eficiente, desde que escolham junto a uma estação com ligação direta a Porta Venezia... tudo bem.
Onde e o que comer
Pizza, pizza, pizza e, vá, massa. Ir a Itália e não comer pizza é quase como ir ali ao lado a Roma e não ver o Papa. E a parte melhor é que por aqui há pizzas para todos os gostos (provámos quatro tipos diferentes!) e os preços conseguem até ser mais baratos do que em Portugal. Deixamos aqui a recomendação dos quatro sítios onde fomos: La Pizza Dal 1964 (fatias de pizza bastante altas e bem generosas), Da Fabione Pizzeria e Ristorante (pizzaria tradicional), Alice Pizza (cadeia com fatias de pizza de todos os tipos), DaZero (cadeia com vários espaços pelo país, vale a pena a visita.