Quando vimos pela primeira vez as Saucony Kinvara Pro nem sabíamos muito bem o que pensar e sentir. Crescemos a ver este icónico modelo numa lógica minimalista, com uma sensação de contacto com o solo à antiga, com um perfil de meia-sola baixo. Algo bem diferente das super sapatilhas que nesta altura nos invadem de todos os lados.
Por isso, ver um Kinvara passar literalmente do 8 ao 80 não será algo que agradará muito aos fãs incondicionais desta família que já ia nas 14 evoluções. Na verdade, a versão 14 já dava uma ideia de que as Kinvara nunca mais seriam a mesmas. Mas nunca pensamos que a revolução fosse tão radical nas Pro. Do dia para a noite!
Se é negativo do ponto de vista da sensação de corrida? Não. Absolutamente não. As Kinvara Pro são provavelmente o modelo com placa de fibra de carbono mais versátil do mercado. Bem diferente do habitual, que normalmente nos dá uma sensação de corrida 'morta' a menos que lhes coloquemos ritmo. As Kinvara Pro respondem sempre bem, com boa responsividade e amortecimento, quer andemos a 4' ou 5'30. Mas não deixa de ser um pouco estranho o facto do legado Kinvara ser desvirtuado desta forma. Talvez estejamos a ser demasiado sentimentais, mas havia que dizê-lo, até porque há muitos fãs em Portugal de um modelo baixinho, à antiga, com eram as Kinvara até à versão 13.
Mas, bem, vamos lá analisar a fundo as Pro. Primeiro de tudo: o perfil da meia-sola, que agora passa a ser de 42mm/34mm, para um drop de 8mm. Aí já está uma primeira diferença. Maior altura em relação às 14 (que tinham 31mm/27mm) e um drop também superior (era de 4mm). A justificação passa, claro, por reaproveitar de uma forma mais eficiente a energia colocada a cada passada e também maior amortecimento.
Isso consegue-se com a tal placa de fibra de carbono que surge 'ensandwichada' entre as duas espumas (a PWERUN PB e a PWRRUN). A primeira, colocada na parte superior, tem como propósito reaproveitar a energia; a segunda, colocada abaixo, entre a placa e a sola, serve para providenciar o amortecimento e dar um plus de durabilidade a esta zona média. Conjugados, estes três elementos tornam a nossa corrida em algo alegre, livre e incrivelmente seguro. Nem parece que estamos a correr em cima de umas sapatilhas com 42mm de altura máxima. Mas estamos!
Outro dado que surpreende - e esse é negativo do ponto de vista dos dados - é o peso. Das 200 gramas que tinham as 14, as Kinvara Pro engordaram de forma incrível, passando a uns anormais 269 gramas. Anormais para um modelo rápido produzido pela Saucony. Contudo, tal como sucede em algumas outras ocasiões, esse peso não se sente tanto quanto isso por conta da incrível responsividade que temos a cada passada. É estranho, nós sabemos. Mas é mesmo assim. E, de certa forma, é o preço a pagar por termos umas sapatilhas com muito mais espuma para nos proteger e dar resposta.
De resto, comparando-as diretamente às 14, há outras diferenças que se notam para melhor. Ao contrário do modelo antecessor, que nos parecia apertado e com pouco conforto interior, estas Kinvara Pro são extremamente confortáveis e permitem perfeitamente aos nossos dedos dos pés movimentarem-se lá dentro sem qualquer problema. Por outro lado, a malha está algo mais respirável, o que se agradece para estes (últimos) dias de maior calor.
Depois, a sola. Se a das Kinvara 14, apesar de ter pontos de borracha injetada que supostamente serviriam para aumentar a durabilidade, nos parecia bastante frágil e acusou o desgaste rapidamente, nas Kinvara Pro, pese embora termos uma sola sem qualquer superfície protegida, o desgaste foi praticamente nulo e leva-nos a confiar que teremos sapatilhas para muitos e muitos quilómetros.
Em suma, as Kinvara Pro não são umas super sapatilhas. Não era isso que a Saucony queria, pois nessa categoria está muitíssimo bem servida com as Endorphin Elite ou as Endorphin Pro 3. Mas são umas 'super trainer', à imagem daquilo que outras marcas já colocaram no mercado, como as Adidas Prime X, New Balance FuelCell SuperComp ou ASICS SuperBlast. A ideia é a mesma. Como também é o preço: uns 'salgados' 220 euros. Ainda assim, tal como noutros casos, é esse o preço a pagar (justamente) pela qualidade que temos nos pés. Este é um desses casos.
Por Record