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Na semana passada, depois do colégio, dos trabalhos de casa e antes de o deitar, brinquei mais uma vez com o meu filho António Maria, de 10 anos, colando com ele os cromos na caderneta da coleção do Europeu. Senti um esmagador espasmo misto de saudade e alegria a invadir-me a alma. Saudade, já que no meu tempo, este ato de cumplicidade entre pai e filho, também era um momento especial para mim. Um tempo em que o Mundo parava ali. Éramos só nós os dois. Abstraídos de tudo o resto. Nada mais importava. Só os cromos, a caderneta, a cola feita de farinha, água e vinagre e os nossos risos e comentários sobre os jogadores e as equipas.
No meu tempo não havia computadores, telemóveis, ipads, consolas e outros ‘brinquedos’ que fazem agora parte do dia-a-dia das crianças e dos jovens. Tudo era mais simples e mais ‘conquistado’. Uma bola de plástico. Um carro de madeira. Um peão. Meia dúzia de berlindes. Nesta era, tudo é sofisticado e excessivamente técnico. Tudo menos participativo.
Enquanto colávamos os cromos, veio-me à memória uma ida ao Estádio da Luz, com os meus pais e irmãos, nos idos tempos de 1974, para assistir a um Benfica-Farense e ver a estreia de um jovem jogador angolano de 19 anos, de seu nome José Pedro, então apontado como uma nova estrela do nosso futebol. O Benfica ganhou (1-0) com um golo do Rei Eusébio e ficou em 2.º lugar no Campeonato. O Sporting foi campeão e o mítico Yazalde foi o melhor marcador com 46 golos. O meu pai, que era do Belenenses, adorava ir connosco à Luz e deleitava-se a ver o Eusébio, Rui Rodrigues, Humberto, Jaime Graça e ‘companhia’.
O José Pedro entrou ao intervalo e sempre que tocava na bola ouvia-se um ‘bruá’ intenso nas bancadas. O perfume do seu futebol e o bailado dos seus gestos, prometia o céu...
Infelizmente, isso não aconteceu. Porque nem sempre acontece. O sucesso é muito difícil de alcançar e tem sempre um preço muito elevado. Tive o prazer de conhecer o José Pedro como colega, na época de 1986/87 no Fafe, e tivemos a oportunidade de falar sobre o que aconteceu na sua carreira. Ou antes, o que não aconteceu...
– Zé, o que sucedeu? Porque não chegaste ao topo como se esperava?
Ele, sempre de bem com a vida, a sorrir e de forma humilde respondeu:
– É a nossa existência. Cometi muitos erros e como sabes, nesta profissão, os erros pesam mais e acompanham-nos durante muito tempo. Quando cheguei ao Benfica, pensava que já tinha conquistado o Mundo. E perdi-me nos caminhos das minhas decisões.
– E sentes desilusão por isso?
– Nunca. O que vivi nos clubes onde passei, a família que construí e o que sou, devo-o ao futebol. E sabes de onde vim. E o que lá não tinha. Podia ser rico, mas sou feliz… E joguei com o Eusébio!
O Zé sentia o que dizia. As palavras saíam-lhe do coração. Os olhos brilhavam de nostalgia ao voltar atrás no tempo, de águia ao peito a jogar para 80 mil espectadores. Quantos José Pedros já não vimos passar pelo futebol português? As estrelas que prometiam muito brilho, mas porque não entenderam as regras do jogo e não tiveram quem os apoiasse, tornaram-se tão só ‘astros em movimento’.