Se o contexto da conversa fosse futebol o caldo há muito que estaria entornado e a tenda montada, mas sossegue o leitor porque a referência do andebol português não anda a tentar corromper árbitros por esse Mundo fora. Não anda porque o tema é uma modalidade onde pagar aos árbitros em dinheiro é uma prática imposta pela entidade que organiza as competições europeias.
Serve esta introdução como aperitivo para uma conversa que girou sempre em torno do desporto e da família, os alicerces da vida de Carlos Resende. Até porque o nosso convidado dispensou as habituais entradas no almoço frugal que teve como palco um dos poucos restaurantes da cidade Invicta com vista privilegiada para o oceano Atlântico.
"Sei que o desporto não é um oásis de honestidade e é impossível que seja tudo limpo em qualquer sector de actividade, mas sendo um amante do andebol não quero nunca estar a viver uma mentirae esta crítica refere-se apenas ao modelo de organização da competição da Taça Challenge", atirou Carlos Resende já a meio do creme de legumes que abriu o repasto.
Um diálogo animado numa esplanada a dois passos do mar pela inclinação do treinador para a natureza. Carlos Resende destacou-se dentro dos pavilhões e ainda é dentro de quatro paredes que a sua vida profissional continua porque juntamente com as funções de treinador do ABC acumula o cargo de professor na Instituto Superior da Maia (ISMAI). Contudo, garante que é ao ar livre, de preferência perto da água, onde se sente melhor.
Um entusiasmo crescente ao longo dos seus 44 anos e que fez questão de nos mostrar numa aplicação do seu smartphone com aquilo que apelidou de "voltinha", os 35km realizados de bicicleta antes do almoço.
"Hoje em dia se tiver tempo pratico tudo o que posso", referiu Carlos Resende, para logo de seguida exibir uma foto da equipa de andebol onde joga. Um conjunto de veteranos que recentemente sagrou-se campeão da Europa e que disputa o campeonato de Masters da Associação de Andebol do Porto.
Diversidades numa vida que Carlos Resende faz tudo para que seja cheia, menos na barriga, e por aqui se justifica a opção por um dos pratos do dia no restaurante Esplanada do Molhe.
"Adoro comer e de duas em duas horas estou a ingerir qualquer coisa", referiu, admitindo "algum cuidado nas refeições": "Tenho a felicidade de gostar bons alimentos. Adoro sopas, saladas e peixe. Nunca contabilizo o que como, mas tenho um hábito que ainda hoje persiste e que é o de me pesar todos os dias de manhã. O meu barómetro é a minha balança e é um rácio fantástico porque se mantivermos o peso estamos em equilíbrio. Se há variação ou estamos a gastar pouco ou a consumir em demasiado".
Foi já com o bife de bacalhau em cama de legumes à frente que Carlos Resende nos esclareceu verdadeiramente o imbróglio em torno da arbitragem e de como considerou que o seu ABC foi terrivelmente prejudicado na final da Taça Challenge da época passada.
"Há situações que não deviam acontecer, como serem os clubes a pagar aos árbitros a deslocação, a estadia e fornecer em dinheiro uma verba diária para gastos, sendo que é o árbitro quem escolhe a deslocação. Isto não me parece que faça muito sentido", desabafou o treinador, justificando-se: "Devia ser a Federação Europeia a assumir essa gestão e os clubes pagavam um custo por cada etapa. Porquê um clube estar a entregar directamente dinheiro ao árbitro? Depois há uma coisa ainda mais ridícula no meio disto tudo. É que o clube não recebe recibo por isso. Mais, imaginem que sou árbitro e vou dirigir um jogo na Macedónia. Entro em contacto com a equipa da casa e digo-lhes que já escolhi a viagem. Vou a França, Alemanha e tal. O clube diz-me que tem em vista uma viagem diferente, mais barata, mas eu sou soberano e digo que não! Prefiro a outra e os clubes têm de pagar".
A indignação para com o modelo de organização é tanta que Carlos Resende nem coloca no ar a hipótese de haver oportunidade para entregar um envelope mais recheado aos árbitros.
"Não faço a mínima ideia se há quem ofereça mais dinheiro. Acredito que em Portugal não porque as dificuldades são imensas e os clubes mal têm dinheiro para cumprir o orçamento", elucidou o técnico, lamentando-se do peso que a participação europeia representou para o ABC: "Na época passada o nosso orçamento foi de 300 mil euros, valor esse que engloba custos com todos os escalões de formação do clube. Para além disso gastámos ainda mais perto de 70 mil euros só com a competição europeia e as despesas dos árbitros. É um valor que abana com qualquer estrutura do nosso andebol, mas foi tudo para chegarmos ao fim e sentirmo-nos altamente prejudicados".
Legado
Chegou a hora da sobremesa e Carlos Resende pondera entre a mousse de chocolate caseirae fruta laminada.
"Sou um guloso, adoro sobremesas., mas vou resistir. Quero fruta laminada", atirou do alto do seu 1,92 metros enquanto a conversa fluía entre o passado, presente e futuro.
Carlos Resende é filho de dois agricultores de Cinfães do Douro que migraram para Lisboa à procura de uma vida distinta. Nasceu em Marvila, morou em Chelas até aos 17 anos e confidenciou que jogar andebol foi um acaso.
"Começou tudo de forma fortuita. Passava as manhãs ou as tardes, consoante as aulas, no cabeleireiro do meu pai e um dia um amigo dele sugeriu que fosse experimentar andebol. Não fazia ideia do que fosse porque tinha apenas 8 anos", recordou, assumindo uma paixão natural, apesar de garantir que toda a sua qualidade deveu-se exclusivamente ao empenho: "Cresci num bairro complicado. Era pequeno, gordo, andava à pancada todos os dias e apanhei muito mais do que dei até chegar aos 12 anos, idade com que comecei a crescer. Tudo o que sou é fruto do trabalho porque tinha colegas com muito mais potencial. A grande diferença foi que quando o técnico mandava fazer 10 eles faziam 7 e eu fazia 13".
Memórias sem nostalgia daquele que ainda hoje continua a ser o melhor marcador da seleção (1444 golos) e que herdou o sentimento portista do pai, mas podia ter construído uma carreia no Sporting.
"No Sporting havia uma lista dos melhores marcadores. O José Pires tinha 180 golos nos seniores e eu, nos juvenis, tinha 380 golos, mas os escalões de formação eram muito estanques, não havia intercâmbio e a minha ambição era jogar com os mais velhos e evoluir", lembrou, recordando o momento da sua transferência para a Invicta: "O FC Porto venceu a Taça dos Campeões a 27 de Maio, fiz 17 anos dois dias depois, estava a ver as notícias na televisão com o meu pai e disse-lhe que qualquer dia ainda ia jogar para o Porto. Foi uma brincadeira, rimo-nos, mas duas semanas depois recebi o convite do FC Porto e tudo mudou radicalmente".
Dilema
Um café para fechar a refeição foi o mote para lançar projectos de vida. Carlos Resende assume-se como um símbolo dos dragões e sente-se grato por todas as oportunidades que o FC Porto lhe abriu, mas agora vive em função da mulher e das filhas Joana e Patrícia, também elas jogadoras de andebol, sendo que a Patrícia também já é mediática porque foi considerada a melhor caloira de Portugal por ter entrado na Faculdade de Arquitetura do Porto com média de 20 valores. Motivos de orgulho para ajudar Carlos Resende resolver um futuro onde chegar à presidência da Federação não é uma ideia que esteja inteiramente colocada de parte.
"Prezo apenas a família e os amigos. O que realmente me importa é bater à porta e ser reconhecido pelos meus, mas também reconheço que fui um privilegiado porque há 20 anos ganhava tanto como a minha equipa toda ganha hoje", diz Carlos Resende, que hoje em dia sente-se confortável a ser professor e treinador: "Não é fácil, mas é engraçado, só que para continuar na faculdade é imperativo o doutoramento, pelo que muito em breve ou encontro um clube que me proporcione o profissionalismo integral ou terei de fazer uma pausa para concluir os estudos. Não me assusta. Gosto das duas coisas".
RESTAURANTE DO MOLHE
Praia do Molhe 28, Porto
Tel: 226 173 099 e 919 963 983