Saleiro: «As lesões destruíram-me e se voltasse hoje não tinha mais nada para dar»

Fim precoce de carreira, aos 31 anos, deveu-se a sucessivas lesões nos joelhos e tendões de Aquiles

Após o divórcio com o Sporting, as experiências no estrangeiro, quer no Servette (Suíça) como no Port Vale (Inglaterra) foram tiros ao lado. No entanto, o principal culpado do ponto final na carreira, em 2016, com 31 anos, foi o próprio corpo

RECORD - Depois do Sporting, a primeira aventura no estrangeiro, no Servette, da Suíça

SALEIRO - Surgiu por causa do Costinha, que tinha estado no Sporting. Chamava-me o Bergkamp [risos] E ao mesmo tempo ligou-me o Paulo Sérgio, que gostava da minha forma de trabalhar e queria que fosse com ele para o Hearts, da Escócia. Mas o Costinha já me tinha convencido e tinha-lhe dado a minha palavra. Só que no dia em que cheguei ao centro de treinos já queria voltar para trás. Apanhei uma realidade que não estava à espera. Acabei por ficar, mas não foi uma aposta ganha. Foi um erro muito grande da minha carreira. Tinha outros mercados mais interessantes. Devia até ter ficado em Portugal e renovado com o Sporting. São decisões de carreira, a vida é feita disso. Hoje tento dar conselhos aos jogadores que agencio para não passarem pelo mesmo.

R - Portugal (re)abriu-se através de nova oportunidade na Académica, que em 2012/13 teve Pedro Emanuel e Sérgio Conceição como treinadores. Tinham semelhanças?

S - O Pedro tem um perfil completamente diferente do Sérgio. O Pedro ganhou a Taça de Portugal e fez uma boa Liga Europa, mas acabou por ser despedido porque estávamos a fazer um mau campeonato. Com o Sérgio foi diferente. Tive pena de não ter coincidido com ele, porque quando ele chegou eu estava lesionado no tendão de Aquiles, só via os treinos e as palestras. Tive pena de não aproveitar o trabalho do Sérgio, mas infelizmente as lesões destruíram-me. Costumo dizer, na brincadeira, que se voltasse agora não tinha mais nada para dar. Fui operado aos dois joelhos, duas vezes até no esquerdo, e nos dois tendões de Aquiles. A seguir a essa época na Académica estive um ano totalmente parado. A partir daí a minha carreira foi por água abaixo. Desde 2013 a 2016 foram anos muito pesados psicologicamente. Chegou a uma altura em que não tinha vontade nem cabeça para continuar. Vivia só para estar bem e a certa altura isso não chega para ser profissional. Não quis enganar mais ninguém. Hoje ainda poderia jogar, mas não me sentiria confortável sabendo das capacidades que tinha.

R - Ainda seguiste para o Oriental, no regresso à 2ª Liga. Uma experiência manchada pelo envolvimento de jogadores do clube no célebre caso 'Jogo Duplo'.

S - Quando estás num balneário tens de confiar em quem está à tua volta. Mas quando sentes que existe algo estranho, que não é normal, desconfias de alguma coisa. Falando de mim, até foi bom não estar inserido na equipa nessa altura, porque passava maior tempo no posto medico, quase não tinha relação com os meus colegas. Nos jogos via alguns erros e pensava: ‘Mas o que é isto?’. Mas nunca pensei que se devesse a isto ou aquilo. Quando vi as notícias na televisão foi de loucos. Manchou a história do Oriental, um clube com sócios ferrenhos, que vivem aquilo como se fosse o Real Madrid. Foi uma facada muito grande para as gentes de Marvila. Gosto muito do clube, infelizmente ficou desfeito. Agora estão a recuperar.

R - Por fim, o Port Vale, em 2016/17, onde acabas por estar poucos meses, só um jogo oficial.

S - Tinha acabado de ser pai pela primeira vez e a minha mulher estava de licença até outubro ou novembro. Uma das condições que eu tinha imposto era a de que podia viver algum tempo num hotel, mas precisava de casa o mais rápido possível para que a minha mulher e a minha filha pudessem vir ter comigo. O clube foi sempre adiando e adiando, porque éramos 10 ou 12 estrangeiros e o hotel era do dono do clube. Cheguei a uma certa altura que me fartei e além disso a dor que tinha num dos tendões voltou em força. Disse: ‘Chega, não vou estar aqui a desgastar-me’. Assumi perante o presidente que, apesar de ter dois anos de contrato, queria ir-me embora e não tinham de me pagar nada. Voltei para Portugal, ainda na esperança de recuperar alguma coisa fisicamente e talvez em duas ou três semanas encaixar num clube da 2ª Liga. Como não houve nada até setembro, pendurei as chuteiras.

Por Ricardo Granada
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