Negócios com sotaque

Em 14 anos, o agente fez com que 160 jogadores brasileiros cruzassem o Atlântico...

Negócios com sotaque
Negócios com sotaque

O mercado brasileiro sempre foi preferencial para o futebol português. Dali vieram grandes craques, muitos deles perfeitos desconhecidos. E os contratos resultaram de meras observações de treinadores e dirigentes nas equipas dos escalões inferiores, ou então pela influência direta de agentes, licenciados ou não.

Estabelecem-se parcerias entre clubes, criam-se laços profissionais entre dirigentes portugueses e brasileiros, que conduzem a uma série de transferências para o mercado europeu no final de cada época, seja por venda ou por cedência, já que esta é igualmente uma forma de valorizar os ativos muitas vezes esquecidos nas divisões inferiores dos diversos campeonatos brasileiros.

Um dos casos mais curiosos e que merece aqui ampla referência diz respeito a António Teixeira. Licenciado pela FIFAdesde 1998, fundador da Promosport, cedo estabeleceu relações privilegiadas no Brasil, trazendo uma série de jogadores para Portugal, boa parte deles para os campeonatos profissionais.

Desde que assumiu o controlo do Grémio Inhumense, em 1999, o empresário já transferiu nada menos de 160 jogadores, esmagadoramente para Portugal. O primeiro foi Verona, médio de grande qualidade colocado no Estrela da Amadora, que chegou depois ao Belenenses; dois anos depois foi a vez de Jorginho, que daria nas vistas no Vitória de Setúbal, antes de passar pelo FCPorto e pelo Sporting de Braga.

Anos mais tarde, o Grémio Inhumense transferiu-se para outra cidade, mudando o seu nome para Grémio Anápolis. Não se trata apenas de um clube voltado para criar jogadores e fazer negócios para o futebol europeu, mas também com preocupações ao nível desportivo. Depois de três anos de ausência por questões administrativas, o Grémio regressou à atividade e subiu consecutivamente de divisão, estando agora envolvido na disputa do principal campeonato de Goiânia.

O último nome desta extensa lista de jogadores formados localmente e depois trazidos para Portugal é o do defesa-direito Jaílson, apresentado no início da época pelo Paços de Ferreira. Por via do seu relacionamento com os clubes e a qualidade dos jogadores, António Teixeira parece ter facilidade em colocá-los no futebol nacional. Nunca dá entrevistas, raramente se deixa fotografar e poucas vezes gosta de aparecer em público, sendo principalmente um homem empenhado no trabalho.

Prospeção e venda

A maneira como o Grémio Anápolis funciona quase parece um comum clube português. Conta com um importante sector de prospeção, recrutando jogadores de emblemas vizinhos, todos com menor capacidade financeira. Estando na capital do Estado de Goiânia, Anápolis, o Grémio é por isso uma espécie de motor do futebol local.

Os jogadores são integrados nas competições em que o clube participa, mas os mais dotados rapidamente dão o salto para o futebol europeu, em particular para Portugal. E é aí que António Teixeira parece fazer a diferença. Tem facilidade em corresponder às expectativas dos mais exigentes clubes portugueses.

O ano de 2007 foi particularmente feliz para o Grémio Anápolis, quando transferiu nada menos que 17 jogadores, todos para Portugal. No ano passado, por exemplo, registaram-se nove saídas, cinco delas para Portugal, com Manoel e Mauro para o Sporting de Braga, Marcelo Goiano e Platini para o Feirense, além de Wallace para o Aves. Este ano, o avançado Sandro Lima chegou para o Rio Ave, Christian saltou para os cipriotas do Apoel, estando inclusivamente a disputar a Liga dos Campeões; o extremo Welthon está à procura da sua sorte noSporting de Braga.

Oportunidade

São muitos os agentes que escolhem Portugal para aí estabelecerem a sua sede, uma vez que é um mercado muito comprador, embora a crise em que se vive complique cada vez mais os negócios entre os dois países separados pelo Atlântico. No passado destacam-se nomes como os de Adelson Duarte ou António Prata Tavares, ambos ainda ativos. Hoje em dia não há grandes exemplos, uma vez que há países mais competitivos para fazer investimentos. Ainda assim, empresas como a Traffic escolheram Portugal para uma grande intervenção [ver texto abaixo], com grandes contrapartidas a nível financeiro.

O imigrante Adelson

Da mesma forma que António Teixeira controla um clube no Brasil e tem relações privilegiadas do outro lado do Atlântico, também um brasileiro, Adelson Duarte, viveu experiência semelhante, embora de contornos bem diferentes.

Trocou o Brasil por Portugal e por cá se estabeleceu. Fruto dos bons contactos que tinha com os clubes da cidade onde nasceu, Belo Horizonte, foi fazendo negócios de alguma importância. Colocou uma série de jogadores no Salgueiros e, numa das suas maiores operações de sempre, levou o Benfica ao torneio do centenário do Cruzeiro, em troca de meio milhão de dólares.

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