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Sá Pinto agride Artur Jorge e fica um ano sem jogar

A MANHÃ EM QUE RICARDO PERDEU A CABEÇA

Sá Pinto agride Artur Jorge e fica um ano sem jogar
Sá Pinto agride Artur Jorge e fica um ano sem jogar • Foto: fotos arquivo/antónio josé

Quando chegou ao Estádio Nacional, vestido à civil, às 9 e meia da manhã de 26 de março de 1997, ninguém podia adivinhar as motivações de Ricardo Sá Pinto. O avançado sportinguista não tinha sido convocado para o jogo na Irlanda do Norte e a Seleção Nacional preparava-se para mais um treino. Podia vir desejar boa sorte aos companheiros, por exemplo, correspondendo ao convite de Joseph Wilson, então a desempenhar funções na FPF. Mas não: nas primeiras horas do dia tinha lido em Record e ouvido na TSF que o fundamento para ter sido preterido por Artur Jorge se ficara a dever a eventuais atos de indisciplina ocorridos em jogos anteriores, dois particulares, um com a França, em Braga, outro com a Grécia, em Atenas.

Sá Pinto chegou então ao Jamor numa carrinha Volvo azul-escura, perguntou pelo selecionador nacional e seguiu o caminho do túnel de acesso ao relvado, ao encontro de Artur Jorge. Várias pessoas testemunharam o momento do contacto entre futebolista e treinador e os primeiros relatos coincidiram na violência do avançado, traduzida em dois socos que levaram ao tapete o campeão europeu pelo FC Porto, a que se seguiram dois ou três pontapés quando este procurava levantar-se. Todos convergiam na tese de que não tinha havido diálogo prévio: Sá Pinto dirigiu-se a Artur Jorge, agrediu-o e insultou-o. A informação era mais relevante do que à primeira vista podia parecer. Na fase final do processo que viria a castigá-lo, a dúvida quanto à pena a aplicar estava relacionada com esse momento: cinco meses se respondera a uma provocação; um ano se agiu por livre iniciativa.

O ato de Rui Águas

Quando já estava de saída do local, Rui Águas, adjunto de Artur Jorge, surgiu do interior das cabinas e bateu com a mão no vidro da viatura do atacante leonino. Os ânimos voltaram a aquecer, com confrontos físicos agora visíveis – não há qualquer registo fotográfico da agressão a Artur Jorge. O ato de Rui Águas, imprudente por reacender um incêndio que já estava extinto (Sá Pinto seguia viagem para Alvalade, onde integraria a comitiva leonina que ao fim da manhã partia para Marrocos), viria a ser um dos mais citados pela defesa do jogador.

A Seleção treinou-se, com Artur Jorge molestado na face esquerda do rosto, e no fim da sessão aconteceram as primeiras reações oficiais aos acontecimentos. Alberto Silveira, vice-presidente da FPF para as Seleções, deu o mote da revolta que assolava o grupo, ao considerar a agressão como “um dos acontecimentos mais graves da história do futebol português”.

Reação do Sporting

O Sporting não reagiu de imediato. O presidente Roquette afirmou que só iria falar sobre o assunto depois de “ter informação mais detalhada sobre o que se passou”. De qualquer modo, o clube leonino contestou o relatório que Alberto Silveira enviou no próprio dia ao presidente do Conselho de Disciplina, nomeadamente no que diz respeito à informação de que a agressão tenha sido cometida por trás e no modo como aligeirou a intervenção de Rui Águas, “numa altura em que Sá Pinto já se preparava para abandonar o Jamor” – de resto, o próprio vice-presidente federativo reconheceu, no dia seguinte, que se enganou quando atribuiu a Rui Águas o papel de apaziguador da situação. Os leões, porém, abriram inquérito disciplinar a Sá Pinto, do qual saiu aquela que foi, na altura, a multa mais pesada de sempre do futebol português: 8 mil contos (40 mil euros). Sem suspensão de atividade, como chegou a admitir-se.

Divergências

Enquanto especialistas defendiam publicamente a tese segundo a qual o jogador não podia ser punido ou suspenso no foro desportivo, a direção da FPF suspendia o jogador da Seleção por tempo indeterminado, socorrendo-se dos regulamentos da FIFA. E criou comissão de inquérito, para a qual o Sporting indicaria o nome de Silva Resende. Apesar de tudo, a Comissão Disciplinar da Liga suspendeu Sá Pinto preventivamente de todas as competições oficiais, ameaçando com castigo de 1 a 6 anos. A CD afirmou ainda que tinha competência para decidir, embora o Conselho de Justiça da FPF não fosse da mesma opinião. A partir de então, 4 de abril de 1997, o Sporting passou a jogar sob protesto. A 21 de abril, o CJ da FPF considerou a decisão da CD Liga sem efeito, o que permitiu ao jogador o regresso aos relvado e provocou a demissão em bloco de cinco juízes da CD da Liga, incluindo o presidente António Mortágua.

Um dia antes de voltar à competição, nos quartos-de-final da Taça de Portugal, na Maia (vitória por 3-0), Sá Pinto seria dispensado pela FPF até fim da campanha para o Mundial’98, medida independente das eventuais sanções disciplinares do CD da FPF. No dia seguinte foi tornado público que Lourenço Pinto, atual presidente da AF Porto, fora escolhido como advogado do jogador.

Real Sociedad

A 13 de junho de 1997, Record antecipava a única dúvida que assaltava o CD da FPF: um ano ou cinco meses de suspensão, estando em causa a prova de que Sá Pinto fora provocado por Artur Jorge antes da agressão. Dúvida geral também havia quanto ao âmbito da pena, ou seja, se teria validade apenas em Portugal ou no estrangeiro também. A questão fazia tanto sentido que, a 1 de julho, Sá Pinto assinou contrato com a Real Sociedad por quatro temporadas (700 mil contos, equivalentes a 3,5 milhões de euros), com a indicação de que o acordo perderia validade caso o castigo tivesse abrangência internacional.

Dez dias depois, o CD da FPF proferia a sentença: um ano de suspensão, dez meses pela agressão a Artur Jorge e três por injúrias (foi retirado um mês ao cúmulo da pena), ao qual seria descontado o tempo em que o jogador esteve suspenso pelo CD da Liga. Quando, uma semana depois, foi apresentado em San Sebastian, os dirigentes bascos acreditavam na absolvição. Otimismo refreado quando, no dia seguinte, o clube recebeu comunicação da FIFA (extensiva à liga espanhola) de que a suspensão era válida internacionalmente. A 1 de agosto, o Conselho de Justiça da FPF confirmou, por unanimidade, o castigo de doze meses de suspensão. O seu presidente, Pinto Monteiro, que mais tarde viria a desempenhar o cargo de procurador-geral da República, aproveitou a ocasião para demitir-se do cargo, alegando que a decisão nada tinha a ver com o caso de Sá Pinto.

A 19 de novembro de 1997, Rui Águas foi suspenso por três meses, pena atenuada por altos serviços prestados ao futebol português. Anos mais tarde, Artur Jorge desistiria da queixa em tribunal contra Sá Pinto.

CONVERSA ENTRE RECORD E ARTUR JORGE (BELFAST)

RECORD – Por que razão Sá Pinto não foi convocado inicialmente, nem depois das lesões de Pedro Barbosa e Dani?

ARTUR JORGE – Pensámos noutra equipa, noutros jogadores, e foi uma boa decisão, perfeitamente normal.

R – Houve razões de índole disciplinar por trás disso?

AJ – Há situações que acontecem no futebol com gente que não aceita todas as decisões. Acontece em todo o lado, são normais. São situações em que os jogadores são um pouco contra os treinadores, porque decidimos substituí-los durante o jogo e eles não gostam.

R – Isso aconteceu com Sá Pinto quando foi substituído em Atenas?

AJ – Sim, também já me disseram que sim.

IDEIAS FORTES DAS DECLARAÇÕES DE SÁ PINTO

"As agressões (de que se dizia alvo) foram feitas sob a capa do anonimato e ofenderam grave e injustificadamente o cidadão Ricardo Sá Pinto."

"As notícias relativas a eventuais atos de indisciplina divulgadas pelo Record e pela TSF, na manhã de ontem (dia da agressão), levaram-me a pedir satisfações e falar com o senhor Artur Jorge. Para tal desloquei-me ao local onde o senhor Artur Jorge se encontrava. Lamento hoje o que aconteceu depois. Nada o fazia prever"

"Nunca neguei qualquer esforço dentro e fora de campo para conseguir vitórias para a Seleção e para o Sporting. Precisamente por isso reagi emocionalmente às provocações e agressões feitas à minha dignidade e honra"

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