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Guarda Weather Summit em análise

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João Garcia: «O Everest foi a pior expedição da minha vida»

A Guarda foi por um dia a capital mundial do alpinismo, onde quatro homens que já subiram ao cume do Evereste se reuniram para contar histórias de superação, em trajetos que muitas vezes implicaram o convívio com a ideia da morte física. No Weather Summit da iniciativa do português Vítor Baía, todos concordaram que o conhecimento das condições meteorológicas é fundamental para ter sucesso na montanha (ver texto ao lado).

Três desses alpinistas conseguiram mesmo realizar o ‘Grand Slam’ que é vencer todos os cumes das 14 montanhas com mais de 8.000 metros de altitude, sem recurso a oxigénio artificial. Ivan Vallejo, 56 anos, equatoriano, foi o primeiro dos três e o 7º de sempre a cumprir a empresa; o português João Garcia, 49 anos, foi o 10º; e o italiano Mario Panzeri, 52 anos, o 13º. Mas com eles estava também o espanhol Carlos Sória, que já ascendeu a 12 dos 14 cumes e, aos 77 anos, ainda não desistiu de subir ao Shisha Pangma e ao Dhaulagiri, os cumes em falta no currículo.

Sória transporta consigo um pouco da história do alpinismo e lembra como antes tudo era diferente. "As botas pesavam mais um quilo do que agora, mas o que mais evoluiu foram as tendas. Agora são fortalezas." Em agosto de 2009 subiu o Gasherbrum I, com 70 anos, e foi uma euforia, mas dois anos depois, no Lhotse, a aventura foi duríssima: "Houve um rapaz que congelou e perdeu 16 dedos." Mais dramático se tornou o Kangchenjunga. "Levávamos seis horas de atraso e eu decidi descer. Onze quiseram subir, mas na descida cinco acabaram por morrer. Eu tenho a mania de que é preciso ir cedo à montanha."

Para o alpinista de Avila, "a montanha mais perigosa do Mundo é o Annapurna". Lá fez três expedições e agora rejubila: "Aqui estou inteiro."

O vento de 60 km/h obrigou a expedição a voltar ao campo base. Até que apareceu uma aberta e houve nova tentativa. "Foram 17 horas de escalada, mas realizei o meu sonho de subir as 14 montanhas com mais de 8.000 metros."

Ivan Vallejo diz que é engenheiro químico porque a mãe o obrigou, mas o seu sonho foi sempre subir o Evereste, como aos 12 anos escreveu numa sessão de orientação vocacional, na qual se desenhou no cimo dos 8.848 metros. Em 1995 foi aos Himalaias e olhou o cume mais alto do Mundo desde o campo base. Em 1999 venceu-o, dramaticamente.

"Levei três horas a subir 200 metros, mas aos 8.500 metros vomitei muito e caí por terra. Tinha 178 pulsações por minuto e disse para mim mesmo: ‘Acabou-se o projeto, não posso mais.’ Mas aí houve um momento decisivo: lembrei-me do desenho que tinha feito aos 12 anos e do envelope que os meus filhos me tinham entregado para abrir no cume. Arranquei a chorar e às 8h15 fiz o cume." Vallejo lembra o que a montanha mais alta lhe deu: "Conheci qualidades que não sabia ter. Há um antes e um depois do Evereste."

O alpinista equatoriano conheceu João Garcia precisamente em 1999, quando o português fez o cume do Evereste em condições extremas e o companheiro Pascal Debrouwer acabou por falecer. "Eu estava lá quando o João chegou ao campo base e vi como ele estava. É muito duro perder um companheiro", lamenta Ivan Vallejo.

Sete anos depois, subiram o Kangchenjunga em dupla. "Estive quase a desistir, mas apareceu o João e garantiu que iria haver bom tempo. Arrancamos, mas, quando pensávamos ter chegado, vimos que era ‘a torre’ e não o cume. Ainda faltava. Ao chegar, ajoelhei-me e chorei."

Garcia: "Somos tão bons como os outros"

João Garcia viveu três momentos difíceis na sua carreira. "O mais crítico foi em 1999", no Evereste, quando congelou e perdeu as extremidades dos dedos. "Mas também houve o problema com o Tozé, no Kangchenjunga", um amigo que teve apendicite quando tentava a ascensão e foi evacuado de helicóptero. "No Shisha Pangma, tivemos a situação do Bruno [Carvalho]", cuja queda acabou por lhe provocar a morte. Para o alpinista português existem duas fases. "Primeiro fui amador, depois profissional. Entre os dois períodos andei a melhorar, a fazer expedições singelas, de aprendizagem. A seguir propus-me completar os 14 cumes com mais de 8.000 metros em cinco anos." E conseguiu, o que ainda hoje o leva a dizer uma frase que constitui imagem de marca: "Os portugueses são tão bons como os outros."

Anjo da Guarda dos alpinistas

Chama-se Vítor Baía o amigo que, a partir da Guarda, foi enviando a João Garcia, para os Himalaias, as previsões meteorológicas. "Construo um meteograma" e a base de trabalho é o site da National Oceanic and Atmospheric Administration. "A previsão é feita para dez dias e a decisão de fazer cume é tomada seis/sete dias antes." Diz quem sabe que "o bom tempo vem sempre antes de uma tempestade". Os resultados de João Garcia deram credibilidade às previsões de Vítor Baía, e também Ivan Vallejo, Mario Panzeri e Carlos Sória, entre outros alpinistas, começaram a trabalhar com ele.

"Na montanha, há muita tragédia devido ao cansaço e ao mau tempo. Eu tento que eles apanhem o melhor dia na descida", sublinha Baía. "Em 2006, andava a semear batatas quando o João Garcia me liga do Kangchenjunga, a perguntar pelo tempo. Os espanhóis decidiram descer, ele e o Ivan subiram e fizeram cume." Não por acaso, Vallejo pediu a João Garcia para o levar à Guarda de modo a agradecer pessoalmente a Vítor Baía. "Ele é o verdadeiro anjo da Guarda", diz o alpinista equatoriano.

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