Nuno Guerreiro: «Quis dar o exemplo ao meu filho»

Aos 36 anos, o atleta de boccia sonha com os primeiros Jogos Paralímpicos e tem no pequeno Lucas a sua grande inspiração

RECORD - Para os menos entendidos. O que é o boccia?

NUNO GUERREIRO – É uma modalidade cujo objetivo é aproximarmos as bolas da nossa cor, a azul e a vermelha, de uma bola alvo que é branca. Podemos jogar individualmente, a pares, ou em equipas de três. Isso é o boccia.

+ Em que categorias costuma participar?

NG – Costumo participar em pares e individualmente.

+ Quando é que começou a prática do boccia?

NG – Comecei em 2013.

+ Porquê?

NG - Foi nessa altura que comecei a sentir que precisava de fazer alguma coisa que desse o exemplo. Nas minhas condições, ter um filho, e com ele a crescer… pensei no que é que lhe poderia dar. Achei que o desporto poderia ser um bom exemplo, até porque eu sou uma pessoa muito competitiva e que gosta mesmo muito de desporto. Foi esse o incentivo que eu tive em 2013.

+ O seu filho foi a principal motivação de ter ido para o boccia?

NG - A grande razão foi essa. Passo um bocadinho da minha aprendizagem. Digo-lhe que o pai treina muito para estar na Seleção. Não está na Seleção só porque sim.

+ Qual é a limitação do Nuno?

NG - Eu tenho osteogénese imperfeita. É de nascença.

+ O Boccia ajudou-o a saber lidar com essa limitação?

NG - Não. Desde muito cedo que aprendi a viver com as minhas limitações. O boccia ajudou-me muito mais na parte pessoal. Tornou-me uma pessoa diferente.

+ Em que aspetos?

NG - Tive de me tornar uma pessoa mais persistente porque é um desporto que requer muita paciência. Tornou-me uma pessoa com mais responsabilidade e disciplina porque a alta competição assim o exige. Tive de saber lidar mais com os timings. Mudou-me bastante nesses aspetos.

+ E quais são as características essenciais para se ser um bom atleta de boccia?

NG - Acima de tudo tens de acreditar muito e ir atrás de um sonho. Quando lhe falei da data de 2013, o ano do nascimento do meu filho Lucas, foi quando comecei a praticar o boccia com mais responsabilidade. Eu comecei a prática dessa modalidade em 2004, mas achei que não era para mim. Voltei em 2009, mas voltei a achar que isto não era para mim. Até que em 2013 parece que me deu aquela luz e pensei: ‘Calma, vou fazer isto, o meu filho nasceu e vou dar o exemplo’. A partir daí comecei a ver outros atletas como a Cristina Gonçalves na televisão e pensei que gostaria de ser reconhecido e chegar ao auge dos Paralímpicos. Não estava nada à espera quando o selecionador me chamou para ir a um primeiro estágio da Seleção. E lá está a questão. Com o trabalho, disciplina e mudança de comportamento a nível pessoal e desportivo as coisas foram acontecendo.

+ Voltando um bocadinho atrás. Há várias modalidades de desporto adaptado. Porque é que escolheu o boccia?

NG - Escolhi o boccia porque não havia futebol. Sou completamente perdido por futebol, amo o futebol. Na altura estava a tirar um curso de formação profissional na APCL [Associação de Paralisia Cerebral de Lisboa] e disse: ‘Vocês não têm uma modalidade desportiva?’. ‘Sim temos o boccia’, responderam-me. ‘Mas eu quero futebol!’, disse eu. Eles disseram que o futebol não estava muito desenvolvido no país. Um era com os pés, o outro com as mãos, mas pensei: ‘Pronto, ok, vamos lá experimentar!’

+ Tem amor ao futebol e a que clube?

NG - Sou adepto do Benfica. [risos]

+ Qual foi a sua maior conquista?

NG - Já tive muitas conquistas, mas houve algumas que fizeram uma grande diferença. Foi o Campeonato da Europa, em Sevilha, realizado este ano. Ficámos no 3º lugar e, para mim, foi um orgulho enorme ter estado ali. Queríamos mais, mas conseguimos chegar à medalha. O outro momento foi recentemente na Póvoa de Varzim. Não conseguimos a medalha, mas tivemos um jogo marcante contra a Alemanha. Precisávamos de ganhar para passar a fase de grupos e conseguir os pontos necessários para ir aos Jogos de Tóquio e conseguimos. Ficámos num 4º lugar com um sabor agridoce.

+ Quantas horas treinas por semana?

NG - Treino entre 15 e 18 horas por semana na APCL. Mas isto tem também aqui uma questão que é o facto de precisarmos de alguém que nos apanhe as bolas. Eu quando fui para a Seleção Nacional estava também a praticar tiro adaptado, mas percebi que o boccia exigia mais de mim. Requer mesmo muito treino. Eu até ao passado tinha um assistente que ficava comigo desde as 9h da manhã até às 21h. Isto de segunda a sexta-feira. Agora é que estou um bocadinho mais desfalcado em relação a esse tipo de ajuda e então estou com um horário mais reduzido.

+ O que é que faz durante o dia?

NG - Neste momento apenas o boccia.

Por Rafael Godinho
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