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V. GUIMARÃES e Belenenses, dão sexta-feira, às 21 horas, o pontapé de saída da décima jornada. Com este jogo tem também início a maratona de relatos nas rádios portuguesas, que só termina na segunda-feira, às 21 horas, com o Santa Clara-Boavista. A Antena 1 dá o sinal de partida, com a transmissão deste primeiro encontro, enquanto a Rádio Renascença e a TSF avançam apenas sábado com o Sporting-Campomaiorense. No total vão ser transmitidos nove relatos - fora as informações sobre a II Liga e dos campeonatos estrangeiros - que vão pôr milhões de portugueses de sintonia à escuta.
E do “lado de lá” como é vista essa arte de relatar um jogo de futebol?
Afinal, que requisitos se pede a quem, de microfone em punho, seja, simultaneamente, “os olhos e os ouvidos” de milhões de adeptos, sedentos de não perderem pitada do que acontece com as equipas da sua preferência?
Artur Agostinho, o mais famoso dos relatores desportivos portugueses ainda vivo, começa por falar em “rigor”: "O relator desportivo não é mais que um jornalista especializado que deve transmitir ao seu público ouvinte, através da palavra, e o mais fielmente possível, aquilo que está diante dos seus olhos. E não deve esquecer a informação directa do que se está a passar dentro do campo, para quando o ouvinte vir o jogo na televisão não diga 'este não foi o jogo que ouvi'.”
E, claro, tem de ter voz adequada para rádio. E muita da diferença entre os relatores passa exactamente por aí: “É a voz que nos identifica", diz Carlos Daniel, actual pivô do Jornal da Tarde da RTP 1, que começou a carreira exactamente no relato desportivo (na TSF onde rapidamente emergiu como uma das grandes revelações da nova vaga de relatores). A voz - acrescenta ainda Artur Agostinho - que “acentue a dicção e dê credibilidade” àquilo que o relator desportivo está a descrever ou a contar.
Já Jorge Perestrelo, um dos nomes mais populares no relato desportivo nacional, muito por via do seus estilo peculiar (“luso-afro-brasileiro”, como gosta de se definir), enumera seis “condições natas” indispensáveis a um bom relator: “Voz, dicção, rapidez de expressão, ritmo, capacidade de raciocínio e inteligência.”
Ribeiro Cristóvão, figura principal no meio (ele que é, com Fernando Correia, o último dos sobreviventes dos “bons velhos tempos” de Artur Agostinho, Amadeu José de Freitas e Nuno Brás), acrescenta-lhe outros pormenores: "Tem de fazer, no fundo, o papel do jornalista, ou seja, tem de trabalhar com gosto, com paixão. Tem de ter conhecimento do que fala e sentir-se dentro do campo, porque fazer o relato de forma fria não resulta.” O responsável do Desporto da Rádio Renascença entende que é neste último ponto que reside, afinal, “o grande segredo” para a função: “O relator tem de saber colocar entusiasmo do primeiro ao último minuto do jogo para manter o ouvinte 'preso' até ao final.”
Já Costa Martins, chefe do departamento de Desporto da Antena 1, lembra a necessidade do “conhecimento das leis do jogo”. Mas acrescenta ao manual do bom relator: “Facilidade de improviso, perspicácia, capacidade momentânea de apreender uma série de imagens e sabê-las transmitir rapidamente em palavras." E deve saber “qualificar o jogo”, na expressão de Carlos Daniel: “É por isso que o relator não pode deixar de ser jornalista.
É preciso uma especialização, algum rigor para o ouvinte não pensar que estamos a aldrabá-lo.”
E como é que este “rigor” casa com a opinião, tão usual em quem relata um jogo de futebol? “Embora o relator deva ter opinião - sustenta Carlos Daniel - o estar ‘dentro do jogo’ rouba-lhe alguma frieza, indispensável à função do comentador." Daí que nenhuma rádio prescinda hoje desse especialista (jornalista, treinador ou ex-futebolista): “O comentador é alguém mais especializado e vivido”, explica Ribeiro Cristóvão. “A Rádio Renascença opta, hoje, por um treinador de futebol, Manuel Oliveira, que é um homem com muita experiência junto ao relvado, viveu no balneário, dentro do campo e tem uma leitura muito mais profunda do jogo e do estado de espírito dos jogadores." É uma separação de papéis nem sempre respeitados (basta ouvir um qualquer relato...), ainda mais evidente numa teletransmissão, como assinala Artur Agostinho: “Em televisão, ao contrário da rádio, penso que ainda se anda à procura de um estilo. Na televisão dispomos da imagem, do ‘replay’. Por isso, não faz muito sentido dizer qual o jogador que está com a posse da bola. O comentador de televisão lembra-me um espectador de cinema que está ali a ler as legendas...”
E quanto ao clubismo, como é possível separar as águas, numa função já de si tão “emotiva”?
"Nunca escondi que sou sportinguista - comenta ainda Artur Agostinho --, mas à hora dos jogos desligava-me do sentimento clubista e funcionava apenas como uma máquina falante. A isenção é um dos primados da profissão.
É o que acontece com qualquer outra área jornalística, seja do audiovisual ou na escrita.”
PONTAPÉS NA GRAMÁTICA
Os créditos firmados por Artur Agostinho no relato desportivo -- e não só, ele que fez tudo praticamente na rádio - assentam muito no escrupuloso cuidado dado à língua portuguesa. Da sua geração dourada nasceram as grandes imagens que ainda hoje marcam o chamado (bom) futebolês: “Bola à flor da relva”, “tapete verde”, “no enfiamento da jogada”, “retenção de bola”, etc., etc.) Porque sabiam Português e respeitavam a língua portuguesa, até por causa do seu exemplo por milhões de ouvintes amplificado. Não diziam por isso “houveram” ou “podiam haver”. Nem inventavam palavras desnecessárias e inapropriadas (como “recepcionar” a bola, por exemplo) ou coisas como “ter a posse de bola”, “defesa bem escalonada”, “muita ofensividade” ou “faltou objectividade atacante”, etc., etc. Eram simples, claros e inventivos - mas no respeito das regras sem pontapear a gramática. Como é um bom exemplo Ribeiro Cristóvão: “Tento ser um perfeccionista da língua, engano-me como os outros mas tento fazê-lo o menos possível. Nos relatos há pormenores que podem não parecer incorrectos, mas que o são. Por exemplo, os 'clichés', as frases-feitas.
Muitas vezes, nem se faz a concordância do sujeito com o predicado.
Hoje, está a falar-se pior português. Mas não é só em rádio que se fala mal português, também acontece nos jornais. E então na televisão... Se calhar, esta falha também faz parte de uma escola nova que deixou de ser tão importante como era antigamente. Falar bem o português era uma exigência desde a escola primária."
Hoje, de facto, o pontapé para frente não é só na bola...
A FILHA E A ENTEADA
Problema que se arrasta - e prejudica o trabalho da rádio - são as condições de trabalho, quer dos relatores quer dos repórteres de pista.
Neste último aspecto, são os impedimentos da Liga à livre movimentação à volta do relvado, que Jorge Perestrelo, sem papas na língua, identifica como uma “subordinação” dos interesses à volta da televisão. Uma questão de quem paga (e bem) ou quase nada: "Há aqui uma prostituição dos dirigentes da Liga que se deixam vender ao poderio económico da televisão prejudicando a rádio, matando o espectáculo. Hoje, o futebol é uma indústria que dá muito dinheiro e que paulatinamente tem vindo a matar o futebol.”
Carlos Daniel, hoje só na TV, está em condições para confirmar essa desigualdade de tratamento: "Sentia a diferença quando estava em trabalho pela rádio e pela televisão. As condições de trabalho também são diferentes. Há campos em que os relatores estão quase 'encavalitados'.
Depois, são os problemas para entrar no estádio: são precisos faxes, cartões, credenciações. De, vez em quando, lá se lembram de mais uma coisa.
A rádio não paga e penso que terá de ser mesmo assim. Senão, os relatos de rádio acabam porque as receitas são insuficientes para colmatar aquilo que o relato representa em termos de despesa."
JOSÉ MÁRIO COSTA e ODETE MARTINS
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