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Fernando Correia, Jorge Perestrelo e Ribeiro Cristóvão afirmam que pouco mudaram na sua forma de relatar, apesar de agora não dispensarem a "muleta" em estúdio que acompanha o jogo via TV. E mostram-se orgulhosos por cada vez mais as pessoas desligarem o som dos televisores, preferindo a narração deles
A crescente mediatização do futebol via televisão não retirou poder à rádio. Antes pelo contrário. Cada vez são mais as pessoas que optam por seguir o jogo através das imagens da TV, mas tendo como som os relatos radiofónicos. Entre dois clássicos do futebol português – o FC Porto-Sporting do campeonato, na segunda-feira, e quinta-feira o da Taça, ambos com transmissão televisiva (RTP 1 e SIC, respectivamente) –, ouvimos a opinião dos mais conhecidos relatores nacionais: Fernando Correira, Ribeiro Cristóvão e Jorge Perestrelo, por ordem de idades.
Que, curiosamente, ficaram "fora de jogo" nestes dois clássicos. Uns por opção, como Ribeiro Cristóvão ("Só já vou quando acho que a minha presença é importante, como vai acontecer no Portugal-Holanda") e Fernando Correia ("A idade começa a ser um posto e já podemos escolher o que fazemos. Acho que está na altura de dar lugar aos novos").
Outros por motivos de ordem profissional, como Jorge Perestrelo, ele que deixou o desporto da SIC e está agora com a pasta da "sociedade". "Há bandeiras que ergo com muito orgulho: fui o primeiro jornalista a fazer uma transmissão num canal de televisão privada, a SIC; e estive nas equipas que fundaram a TSF e a SIC. E jogos 'grandes' já fiz tudo o que havia para fazer." Para bom entendedor...
Mas o que mudou com a entrada da televisão no mundo do futebol? O que foi preciso mudar na forma de fazer relatos? Ribeiro Cristóvão e Jorge Perestrelo têm experiências na televisão (o primeiro na RTP Internacional e o segundo na SIC).
Fernando Correia ainda está à espera que um dia se lembrem dele. Mas o telefutebol não lhes alterou a forma de ver um futebol através do microfone. "Não mudei absolutamente nada. Quem sempre foi bom profissional, mantém o mesmo estilo. As imagens da televisão apenas nos obrigam a ser mais fiéis que nunca. O que mudou foi que com a rádio e televisão juntas se pode dar mais espectáculo a um jogo", sustenta Fernando Correia. Ribeiro Cristóvão diz que a televisão obriga os relatores "a ter mais atenção, porque sabem que há mais gente a ver, além dos do estádio, os de casa, no sofá".
Jorge Perestrelo partilha da mesma opinião: "Temos de ter um pouco mais de cuidado, porque sabemos que as pessoas desligam o som do televisor para nos ouvir, mas estão a ver o que nós vimos. Rigorosos sempre fomos, mas já não podemos dizer que bola passou a milímetros quando foi a centímetros."
Para um maior rigor, a maioria das rádios complementa o relato com alguém em estúdio, que segue os jogos pela televisão. "Antes não havia nada e o que dizíamos fazia fé. Agora, conseguimos uma reportagem mais fidedigna. Podem dizer-me, não Fernando, não foi 'penalty'. Relatamos com esse cuidado. O risco é menor e a fidelidade é maior. Quem está no estúdio – e às vezes sou eu – tem um papel importantíssimo. É o juiz árbitro dos relatores. Só que às vezes há dúvidas que nem a TV consegue dissipar", conta Fernando Correia.
O seu colega da TSF, Jorge Perestrelo, dispensava o auxílio: "Valemo-nos da televisão para não existirem casos em que as pessoas estão a ver uma coisa, que a mim, no estádio, não me parece ser assim. Mas a televisão está a tirar o 'jidungo' do futebol, a polémica. A repetição exaustiva de lances crucifica o árbitro, quando ele não dispõe das mesmas técnicas de apoio."
Ribeiro Cristóvão é que já não dispensa a ajuda de um espectador atento em estúdio. "Recorremos a meios complementares para levarmos o espectáculo com mais fidelidade às pessoas. Acho que o relato se aperfeiçoou. E não é só importante ter um jornalista em estúdio, que esclareça sobre algum lance duvidoso. Há também os comentadores. Numa altura em que se caminha cada vez mais para a especialização, temos a ajuda de técnicos, de pessoas com muita experiência. Dantes, era o relato puro e duro, com pequenos comentários que introduzíamos pelo meio. Hoje esses vectores complementam o que dizemos. Mas na prática mudou muito pouco a forma de relatar. No meu caso apenas procuro adaptar o relato ao comentador, chamando-o muitas vezes ao relato, sobretudo quando algum lance me suscita dúvidas."
O facto de existir tanta gente que desliga o som do televisor para os ouvir nas ondas hertzianas dá-lhes motivos de orgulho. Fernando Correia: "As pessoas não dispensam os relatos, porque o relato transmite algo que as imagens não conseguem, a emoção. Os narradores televisivos têm as imagens e acham que elas são suficientes. Nós temos de dar imagens sonoras aos ouvintes. E as pessoas preferem as nossas às da televisão. Querem sentir o jogo por dentro e o relato é quase uma espécie de estádio, até porque, com as novas tecnologias, até conseguimos dar o som ambiente." O relator da TSF acha mesmo que "o relato em televisão poderia ter sucesso".
"Já foi tentado, quer pelo Jorge Perestrelo quer pelo José Augusto Marques, mas sofreram pressões, não dos espectadores, mas internamente. Mas acredito que ainda está por descobrir um ponto ideal para relatar em televisão. Se algum dia me convidarem, gostaria de o tentar."
Jorge Perestrelo, conhecido pelo seu estilo muito próprio, sabe do que fala o seu colega. "Julgo que os espectadores em Portugal acham que a televisão é mais do que imagem, é também som. A minha maneira de narrar, mais próxima do relato, criou problemas, mas não foi ao público, foi aos directores. Sei que o meu estilo gera amores e ódios, até porque não digo a equipa X 'está a jogar menos bem', mas, se for caso disso, digo que está jogar mal. Mas nesta profissão o pior que pode acontecer é não termos 'feedback', o pior que nos pode acontecer é a indiferença."
Para Jorge Perestrelo, o grande problema é não existir concorrência nas transmissões televisivas. "O exclusivo das televisões alimenta a mediocridade. Não há outras opções para um espectador ver o jogo. Na rádio, os ouvintes, se não gostam, mudam de frequência. Se fosse assim nas televisões, haveria mais cuidado na escolha de certas pessoas para narrar os jogos."
Já Ribeiro Cristóvão acha que o estilo televisivo deve manter-se como está, mais sóbrio que na rádio. "Portugal é um país de padrões. O primeiro relato em televisão vem do tempo do Alves dos Santos, que foi o primeiro grande mestre e o precursor do futebol pela televisão. Todos os que vieram depois lhe copiaram o método. É um estilo mais 'soft', que está já interiorizado. Houve tentativas de mudar, mas sem êxito."
Num ponto, todos estão de acordo. A rádio tem um papel no mundo dos media que é insubstituível. "A rádio nunca acabará. Só ela chega a sítios inacessíveis para a televisão. Nem sempre as pessoas podem ver televisão, mas podem sempre ouvir rádio", lembra Fernando Correia. Ribeiro Cristóvão concorda: "A rádio e os relatos nunca perderão a sua magia. É por isso que as pessoas continuam a desligar o som da televisão e a sintonizar a rádio. Na televisão nunca é tão empolgante, tão exuberante".
O mesmo pensa Jorge Perestrelo: "A força da televisão tirou algum protagonismo à rádio. Antes só aqui e ali havia um jogo televisionado, agora há quatro ou cinco por jornada. Mas a rádio é insubstituível, enquanto a televisão já tem a concorrência da Internet e das outras tecnologias que aí vêm. Aliás, esta ideia de os clubes cobrarem dinheiro às rádios é uma injustiça. Porque a rádio foi o meio de comunicação social que mais divulgou o futebol como espectáculo."
O que é preciso para se ser um bom relator?
FERNANDO CORREIA : "Ter facilidade de expressão para contar aos outros o que está a ver, sendo fiel ao máximo. Ter emoção, mas sem ser fingido. Se o jogo não tiver emoção, não a podemos inventar. Ter voz, quer em relação ao timbre, quer em relação à sua colocação. Em Portugal há vozes boas e bonitas, mas que não são bem colocadas. Precisavam de aulas de dicção e de colocação de voz, que se aprendem, por exemplo, com o teatro. O palco é o melhor local para aprender a colocar a voz. Felizmente, tive a sorte de, no meu tempo, ter tido esse tipo de aulas."
RIBEIRO CRISTÓVÃO: "O mais importante é a colocação da voz, o timbre e a velocidade. E para começar é preciso ter uma boa voz. Só que hoje essa questão passou a ser secundarizada. Não só nos relatos, mas também no ler de notícias. Deixou de se fazer as pontuações no sítio certo. Não se dá importância à gramática. São esses pormenores que distingem os bons dos maus."
JORGE PERESTRELO: "Há muita malta nova com valor, mas que pecam pela sua falta de humildade. Toda a gente pensa que pode relatar, mas são necessárias condições natas. Para além da colocação de voz, do timbre e da velocidade, é necessária capacidade de raciocínio e uma grande concentração. E uma grande alegria no trabalho que estamos a fazer. Outro problema que hoje se verifica é que existe um maior fascínio pela televisão. Todos querem ter a possibilidade de ir para a TV, e a rádio é um mero gancho de trabalho. Para nós, os mais velhos, a rádio era uma paixão."
Quem lhes sucede?
FERNANDO CORREIA: "Há por aí gente com alguma qualidade. O Hélder Conduto, da TSF, que é excelente. O Pedro Sousa, da Renascença, e o Paulo Garcia, da Antena 1. Pena que o Carlos Daniel tivesse ido para a televisão, porque reunia condições para ser o melhor. Preocupa-me é não haver formação. Porque é que eu ainda faço relatos, em vez de estar a formar pessoas?"
RIBEIRO CRISTÓVÃO: "O relato está propagado pelo país, qualquer rádio local tem um ou dois relatores. Nunca saberemos quantos relatores há em Portugal. Há centenas de homens e rapazes a relatar futebol. Na sua maioria seguem os mais conhecidos e há grandes nomes. Normalmente são os que trabalharam com os mais velhos. Na Renascença há o Pedro Sousa, que é excelente, e o Pedro Azevedo, que também tem um largo futuro. E há o Paulo Garcia, da Antena 1. Dois grandes nomes foram para a televisão: o Carlos Daniel e o Rui Orlando."
JORGE PERESTRELO: "O relato não vai acabar. Há quatro ou cinco nomes com valor. Só que não os vou nomear. Como nutro um grande carinho por todos, não quero ferir susceptibilidades. Mas eles sabem o que penso deles."
JORGE PERESTRELO
TSF
52 anos
33 anos de rádio
32 anos de relatos
FERNANDO CORREIA
TSF
65 anos
45 anos de rádio
35 anos de relatos
RIBEIRO CRISTÓVÃO
Rádio Renascença
61 anos
43 anos de rádio
41 anos de relatos
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